domingo, 15 de março de 2020

Morfologia do Conto de Fadas


1. Um membro da família sai de casa (o herói é apresentado);

2. Uma interdição é endereçada ao herói ("não vá lá", "vá a tal lugar");

3. A interdição é violada (o vilão aparece no conto);

4. O vilão faz uma tentativa no reconhecimento (o vilão tenta encontrar as crianças/jóias, etc; ou vítima potencial interroga o vilão);

5. O vilão obtém informação sobre a vítima;

6. O vilão tenta enganar a vítima, tentando se apossar da vítima ou de pertences da vítima (ardil; vilão disfarçado tenta ganhar a confiança da vítima);

7. Vítima cai no engodo, involuntariamente ajudando o inimigo;

8. Vilão causa dano/prejudica o membro da família (seqüestrando, roubo de agente mágico, estragando as sementes, saque de outra forma, causa um desaparecimento, expulsa alguém, lança feitiço sobre alguém, troca uma criança, comete homicídio, prende/detém alguém, faz alguém a se casar, causa tormentos noturnos); Alternadamente, um membro da família sente falta de algo, ou deseja algo (poção mágica, etc);

9. Desgraça, ou falta é conhecida, (herói é enviado, ouve chamado por ajuda, etc/uma alternativa é quando o herói vitimado é libertado do aprisionamento);

10. Buscador concorda em, ou decide a, contra-atacar;

11. Herói sai de casa;

12. Herói é testado, interrogado, atacado, etc., preparando caminho para seu agente mágico, ou ajudante (doador);

13. Herói reage às ações do futuro doador (resistindo/falhando no teste, liberta prisioneiro, reconcilia rivais, realiza caridade, usa os poderes do adversário contra ele);

14. Herói adquire uso dum agente mágico (transferido diretamente, localizado, comprado, preparado, aparecendo espontaneamente, comido/bebido, ajuda oferecida por outros personagens);

15. Herói é transferido, entregue ou conduzido às proximidades do objeto de busca;

16. Herói e vilão se engajam em combate direto;

17. Herói é marcado (ferimento/estigmatizado, recebe anel ou cachecol);

18. Vilão é derrotado (morto em combate, derrotado em duelo, morto enquanto dorme, banido);

19. Desgraça inicial ou falta é resolvida (objeto da busca é distribuído, o encantamento é quebrado, a pessoa assassinada é revivida, prisioneiro é libertado);

20. Herói retorna;

21. Herói é perseguido (perseguido tenta matar, devorar, sabotar o herói);

22. Herói é resgatado da perseguição (obstáculos atrasam o perseguidor, o herói se esconde ou é ocultado, herói se transforma de maneira irreconhecível, o herói é salvo da ameaça de morte);

23. Herói irreconhecível chega em casa, ou em outro país;

24. Falso herói apresenta acusações infundadas;

25. Tarefa difícil proposta ao herói (provação, enigmas, testes de força/resistência, outras tarefas);

26. Tarefa é resolvida;

27. Herói é reconhecido (por marca, estigma, ou ao que lhe foi dado);

28. Falso herói ou vilão é exposto;

29. Ao herói é dada nova aparência (é refeito, tornado belo, novas roupas, etc);

30. Vilão é punido;

31. Herói se casa e assume o trono (é recompensado/promovido).


Paradigma Disney


O Paradigma Disney está constituído por duas esferas de elementos: as CLASSES DE ACTANTES e as FUNÇÕES NARRATIVAS (ou ETAPAS). As oito classes de personagens (actantes) que são possíveis de identificar, listadas a seguir, são apenas aquelas que se encontram presentes em todos os filmes Disney de 1989, e que cumprem as mesmas funções em todos eles. Outros personagens menores aparecem nas tramas sem que se possam encaixar nestas oito, e há ainda outras classes que poderiam entrar na lista, que não ocorrem em alguns dos filmes. Por fim, as definições devem ser genéricas o suficiente para abrigar as distintas histórias que os roteiristas adaptam. São as seguintes CLASSES:

* PROTAGONISTA
* ANTAGONISTA
* PAR DO(A) PROTAGONISTA
* AMIGO(S) DO PROTAGONISTA
* LACAIO ou AJUDANTE(S) DO ANTAGONISTA
* MASCOTE(S)
* AUTORIDADE MORAL
* PERSONAGEM COLETIVO

Os actantes de diferentes classes dos filmes Disney têm em comum o fato de que todos convergem em seus objetivos. Nestes filmes, ninguém faz nada de graça. Os personagens têm objetivos claramente apresentados, e suas ações são motivadas por compromissos (explícitos ou implícitos) de troca. Nenhuma ação é injustificada. Todas são originárias de premissas, que cada um carrega consigo desde a primeira aparição na história. E, por sua vez, estes personagens seguem as etapas ou FUNÇÕES NARRATIVAS a seguir:

1. Abertura: apresentação do contexto (espaço-tempo); origens do Protagonista e seu mundo; prólogo para a trama: o Status Quo do mundo é pré-colocado.

2. O Antagonista aparece pela primeira vez e expõe claramente, para o público, o seu objetivo. Não há nada velado nem dissimulado nessa exposição. A apresentação do Status Quo do mundo é concluída.

3. O Protagonista é exibido em trecho do seu cotidiano, e as dificuldades que enfrenta (aqui, o Protagonista já demonstra sinais de cansaço, bem no início).

4. A pretexto dessas dificuldades, o Protagonista expõe o seu desejo de mudança, derivado de uma sensação de inconformidade com seu mundo. Sente-se deslocado.

5. Imediatamente em seguida, aparece o elemento ou ocorre a circunstância que o fará tomar o rumo da mudança. Não por acaso, o Protagonista torna-se um empecilho entre o Antagonista e seu objetivo.

6. Primeiro contato Protagonista versus Antagonista. Mesmo que involuntariamente, o Antagonista empurra o Protagonista para seu objetivo; faz com que ele fique mais próximo do seu novo mundo/desejo/Par.

7. É aí que o Protagonista encontra seu Amigo/Ajudante, e com ele sela o compromisso de chegarem ao objetivo.

8. Primeira vitória parcial do Protagonista: ganha respeito/fama/poder de seu mundo e entra em contato com seu Par.

9. O Ápice do Protagonista: momento romântico e/ou de aceitação social.

10. Reviravolta do Antagonista: ele agora toma a disputa como pessoal, e parte para a “guerra de eliminação” que, não por acaso, também facilitará/permitirá o alcance do seu objetivo. É nesse momento que o Antagonista passa a “precisar” eliminar o Protagonista. O Antagonista só conhece soluções drásticas.

11. O mundo/comunidade do Protagonista é agora ameaçado/tomado/manipulado pelo Antagonista. A “massa” está à sua mercê.

12. O Antagonista afasta o Protagonista, ou confinado em algum lugar que o neutralize.

13. O Protagonista, agora rebaixado, tem que dar a volta por cima, nas seguintes condições:

A. Está sujeito às regras impostas pelo Antagonista, que está em posição superior;

B. Conta com a ajuda (geralmente inesperada e esforçada) do Amigo e dos Mascotes;

C. As armas e valores que pode utilizar são aquelas que aprendeu no seu processo anterior de amadurecimento;

D. Provando ao seu Par, à Autoridade e à Massa (comunidade) o seu valor e mérito.

14. Confronto final Protagonista versus Antagonista; e sub-confronto Amigo versus Lacaio; o Lacaio é geralmente poupado no final. NOTA: O Antagonista nunca morre: ele desaparece (abismo, sombra etc.).

15. Epílogo e novo Status Quo: o Protagonista em melhor situação, encontra seu mundo e ganha seu Par.


Jornada do Herói


Passo 1 – Mundo Comum
O herói é apresentado em seu dia-a-dia.

Passo 2 – Chamado à aventura
A rotina do herói é quebrada por algo inesperado, insólito ou incomum.

Passo 3 – Recusa ao chamado
Como já diz o próprio título da etapa, nosso herói não quer se envolver e prefere continuar sua vidinha.

Passo 4 – Encontro com o Mentor
O encontro com o mentor pode ser tanto com alguém mais experiente ou com uma situação que o force a tomar uma decisão.

Passo 5 – Travessia do Umbral
Nessa fase, nosso herói decide ingressar num novo mundo. Sua decisão pode ser motivada por vários fatores, entre eles algo que o obrigue, mesmo que não seja essa a sua opção.

Passo 6 – Testes, aliados e inimigos
A maior parte da história se desenvolve nesse ponto. No mundo especial – fora do ambiente normal do herói – é que ele passará por testes, receberá ajuda esperada ou inesperada de aliados e terá que enfrentar os inimigos.

Passo 7 – Aproximação do objetivo
O herói se aproxima do objetivo de sua missão, mas o nível de tensão aumenta e tudo fica indefinido.

Passo 8 – Provação máxima
É o auge da crise – precisa dizer mais?

Passo 9 – Conquista da recompensa 
Passada a provação máxima, o herói conquista a recompensa.

Passo 10 – Caminho de volta
É a parte mais curta da história – em algumas, nem sequer existem. Após ter conseguido seu objetivo, ele retorna ao mundo anterior.



Ler Machado



O prazer em  ler Machado de Assis no ensino-médio, foi estragado pelos, vós e ais ' cena a cena, ou decifrando todas as palavras estranhas num glossário e estudando todas as notas acadêmicas de rodapé. O resultado disso é que eles nunca leram de fato Memórias de Brás Cubas. Quando eles chegavam ao final, já tinham esquecido o início e já tinham perdido a visão de conjunto. Em vez de serem forçados a adotar essa abordagem pedante, eles deveriam ser encorajados a ler o livro de uma vez só e discutir o que tivessem assimilado desta primeira e rápida leitura. Só então eles estariam prontos para estudar a narrativa cuidadosamente, porque já teriam entendido o suficiente sobre ela para aprenderem mais.

Com a experiência de quem tentou ler Machado com um dicionário do lado, posso dar um ótimo conselho, que serve a qualquer leitura: Leia sem se angustiar pelos pontos obscuros, pelas notas de rodapé herméticas, pelos neologismos mal-explicados e as referências exóticas. Essa primeira leitura, serve para se familiarizar com a obra em todos os seus aspectos: idéias centrais, estilo, vocabulário etc. Ela vai identificar os pontos mais ou menos difíceis, vai sinalizar para o tipo de ajuda de que talvez necessite, preparando-o para a segunda leitura e o alargamento de nossa compreensão.

Sei que nos ensinaram justamente o contrário, a procurar no dicionário qualquer termo obscuro, ou pesquisar sobre algum tema desconhecido que surja no texto. Isso não está errado, mas deve ser feito no momento certo, sem interromper a leitura inicial. Especialmente porque a preocupação com esses detalhes pode gerar uma  angústia fazendo com que a leitura se torne uma atividade penosa.





Enredo, História e Tema



Enredo - Enredo é o que acontece em uma história de ficção. Está relacionado à linha de ação e à movimentação dos personagens na narrativa. O enredo é físico, concreto, objetivo.

História - História é como os personagens principais se sentem em relação ao que acontece com eles no enredo. Está relacionada à reação emocional do protagonista aos conflitos e obstáculos da narrativa. A história é mental, abstrata, subjetiva.

Tema - Tema é o assunto principal que a história apresenta. Está relacionado ao conflito central da narrativa. O tema é dramático, sujeito à interpretação do leitor. Ele sugere uma verdade humana que emerge da experiência vivida pelos personagens.

Cérebros do Leitor




Toda vez que você começa a ler, seu cérebro está à procura de razões para continuar lendo. Nesse processo, o texto é avaliado por quatro elementos diferentes: instinto, emoções, pensamentos e intuições. Cada um deles funciona como um cérebro semi-independente, com preocupações e vontades próprias. Atente! Essa subdivisão é teórica, mas ajuda entender o processo da leitura em nosso cérebro.

Cérebro Instintivo
Quer me matar? Vai me dar prazer? É de comer? 

Seu principal objetivo é proteção da nossa integridade física. Ele está sempre atento aos estímulos do ambiente em que nos encontramos, determinando potenciais ameaças, fontes de prazer, e fontes de nutrição. O cérebro instintivo é responsável por eliminar informações desnecessárias, e focar apenas no que pode colocar nossa vida em risco, trazer prazer imediato, ou servir de alimento. Qualquer história que parecer inofensiva, desinteressante, ou inútil será descartada pelo cérebro instintivo. As histórias que estimulam esse cérebro criam conflitos que colocam em risco algo importante na vida do protagonista. Usando figuras de linguagem para dar mais sabor ao texto. Despertando perguntas intrigantes na mente do leitor sobre um tema específico.

Cérebro Emocional
Tem alguma relação com a minha vida?

Quando uma mensagem é percebida como importante, interessante e excitante, ela é transferida do cérebro instintivo para o emocional. Seu principal objetivo é encontrar benefícios emocionais e sociais nos estímulos recebidos, tais como sensações de conforto, segurança, pertencimento, status, estima. Qualquer história que não mexer com alguma dessas sensações será descartada pelo cérebro emocional. As histórias que estimulam esse cérebro permitem que o leitor reflita sobre suas relações pessoais e sociais. Incluindo cenas que mostram o que está acontecendo, ao invés de apenas contar o que está acontecendo. Fazendo com que o protagonista aprenda algo sobre si, sobre as pessoas, e sobre o mundo ao final da história.

Cérebro Racional
Qual é o sentido disso tudo?

Depois de ultrapassar os filtros dos dois cérebros anteriores, o estímulo chega na parte da mente que pensa de forma lógica e complexa. Em muitos casos, decisões são tomadas pelos dois cérebros anteriores, e racionalizadas por este cérebro para justificá-las. Seu principal objetivo é reavaliar de forma sistemática a validade das informações que chegaram até ele. Qualquer história que não seja clara e coerente será descartada pelo cérebro racional. As histórias que estimulam o cérebro racional criam conflitos que estabeleçam uma sequência lógica de acontecimentos, onde cada ação/decisão do protagonista resulte em uma consequência. Usando linguagem clara e adequada à história que está sendo contada. Desenvolvendo um protagonista verossímil, contextualizando suas emoções e comportamentos.

Cérebro Intuitivo
Alguma coisa me diz que isso está certo.

Quando uma mensagem traz uma recompensa emocional, mas não conseguimos explicá-la usando somente lógica, o cérebro intuitivo entra em ação. Seu objetivo é acomodar o inexplicável, é tranquilizar os cérebros anteriores com a ideia de que nem todas as emoções e sensações podem ser explicadas racionalmente. Os estímulos que chegam até o cérebro intuitivo mexem com nossos valores morais e nossa espiritualidade. As histórias que estimulam o cérebro intuitivo criam conflitos e personagens baseados em arquétipos. Incluindo passagens que permitam ao leitor refletir sobre sua mortalidade e humanidade. Apresentando uma verdade humana que ofereça um sentido para tudo o que o protagonista viveu durante a história.

O Que um Livro Deseja




O que um Livro deseja do Leitor:
- Que compreenda o que lê; 
- Que leia também o que não está escrito, leia o que está implícito nas entrelinhas,
- Que estabeleça relações entre o texto que lê e outros textos já lidos.
- Que extrai-a informação do texto e confira essa informação com base em seus conhecimentos e suas experiências, 
- Que apropria-se da informação e atribui a ela um significado,
- Reflita de que maneira a leitura informou, acrescentou, provocou, inseriu ideias na sua mente. 
Um livro deseja que o leitor entenda, que o ato de ler não é uma atividade passiva, é ele, o leitor que vai 'funcionar' o texto. Mobilizando estratégias, fazendo inferências, estabelecendo relações, utilizando seus conhecimentos prévios e pesquisando para dar coerência aos vazios implícitos, subentendidos ou ocultos nos interstícios. Acima de tudo, um livro deseja que o leitor tenha consciência que o ato de leitura não é conseqüência do saber ler. 
"LER, É SBAER JUTNAR LRETAS. LEITURA, É SABER PORQUE ESSAS LETRAS SE JUNTAM." (eucajus)
Leitura exige a ativação de distintas competências e estratégias num processo ascendente em que podemos (des)construir conceitos para nossa formação pessoal e social.

Espécie de Leitor



Leitor Contemplativo
Depois de séculos a leitura passaria a ser algo mais íntimo e pessoal, sem a presença de um orador, sem interferências externa e apenas feita pelo movimento dos olhos e o virar das páginas. É nesse momento que nasce o leitor contemplativo. Essa espécie de leitor se isenta de situações mundanas para se concentrar na leitura, numa atividade solitária, que pode ser interrompida para reflexão, retornada, feita novamente por dezenas de vezes até que o entendimento seja o desejado. É o leitor que procurou o isolamento para absorção do conteúdo, que não se preocupa com quanto tempo faz que esteja lendo. Da mesma maneira poderiam “ler” quadros ou esculturas numa galeria ou admirar e perceber a arquitetura que o cerca.

Leitor Movente
É o leitor que surge pós Revolução Industrial.  A rua virou uma grande vitrine com todo tipo de informação, que é consumida rapidamente e sem intimidade, numa batida de olhos o leitor é bombardeado por imagens e textos que seduzem. Lendo tudo rapidamente, com menos concentração. É o leitor intermediário entre o contemplativo e o imerso.

Leitor Imerso
Com todos os aparatos digitais e possibilidades, não é difícil de imaginar como é essa espécie de leitor. Nada de ordem para ler. O leitor imerso está a todo tempo em prontidão para receber e ler novas informações, traçando seu próprio caminho em navegações alienares ou multilineares. É o leitor que passeia por várias dimensões de conteúdos através dos nós que as une, que pode ter uma leitura que não tem fim, que entrecruza os dados com outros textos, os compara gerando outros conteúdos.


Narrador Solidário




É o narrador que não se interpõe entre o leitor e o texto, pelo contrário, propõe um distanciamento dos fatos, e o leitor obriga-se a compreender a história, a partir das poucas indicações dadas.

O narrador assume uma postura democrática, cedendo a voz aos personagens, propiciando mais veracidade ao relato, e ainda priorizando a liberdade. A apresentação de diferentes perspectivas de um mesmo fato pode ser entendida como um ato de solidariedade ao leitor. Além disso, quando outras personagens contam suas histórias, podemos dizer que o leitor encontra brechas que lhe permitem sair da trama da narrativa.

O leitor, muitas vezes, não precisa refletir, já que encontra personagens e situações que se revelam diretamente a ele sem a intervenção do narrador, mas deixa que os fatos atuem sobre a sua sensibilidade, através do discurso direto, privilegiado pelas narrativas, com sua capacidade de comunicação em reproduzir as palavras das personagens sem subordiná-las às do narrador. Assim, a utilização progressiva desse recurso aproxima-se da estrutura dialogada. Esse modo de expressão lingüística acentua a situação vital de cada uma das protagonistas, que são descritas em uma linguagem mais próxima da vida real e que se entregam ao leitor em um jogo afetivo.

Quando encontra vocábulos aparentemente desconhecidos, o leitor é capaz de preencher brechas trazidas pela narrativa. Como no exemplo em que Alice não tinha a menor ideia do que fosse uma latitude ou uma longitude. Nesse trecho da obra, o narrador não explica o significado dessas palavras, deixando que o leitor construa a sua significação. Esse leitor apreende significados de novos vocábulos sem que isto seja feito de maneira explicativa, porque é capaz de realizar associações. Assim o leitor amplia o seu vocabulário. Essa situação aponta solidariedade.


Quando Leitor



Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos seu processo mental. Trata-se de um caso semelhante ao do aluno que, ao aprender a escrever, traça com a pena as linhas que o professor fez com o lápis. Portanto, o trabalho de pensar nos é, em grande parte, negado quando lemos. Daí o alívio que sentimos quando passamos da ocupação com nossos próprios pensamentos à leitura. Durante a leitura nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos alheios. Quando estes, finalmente, se retiram, que resta? Daí se segue que aquele que lê muito e quase o dia inteiro, e que nos intervalos se entretém com passatempos triviais, perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria, como quem sempre anda a cavalo acaba esquecendo como se anda a pé. Este, no entanto, é o caso de muitos eruditos: leram até ficar estúpidos. Porque a leitura contínua, retomada a todo instante, paralisa o espírito ainda mais que um trabalho manual contínuo, já que neste ainda é possível estar absorto nos próprios pensamentos. Assim como uma mola acaba perdendo sua elasticidade pelo peso contínuo de um corpo estranho, o mesmo acontece com o espírito pela imposição ininterrupta de pensamentos alheios. E assim como o estômago se estraga pelo excesso de alimentação e, desta maneira prejudica o corpo todo, do mesmo modo pode-se também, por excesso de alimentação do espírito, abarrotá-lo e sufocá-lo. Porque quanto mais lemos menos rastro deixa no espírito o que lemos: é como um quadro negro, no qual muitas coisas foram escritas umas sobre as outras. Assim, não se chega à ruminação [1]: e só com ela é que nos apropriamos do que lemos, da mesma forma que a comida não nos nutre pelo comer, mas pela digestão. Se lemos continuamente sem pensar depois no que foi lido, a coisa não se enraíza e a maioria se perde. Em geral não acontece com a alimentação do espírito outra coisa que com a do corpo: nem a quinquagésima parte do que se come é assimilado, o resto desaparece pela evaporação, pela respiração ou de outro modo.
Acrescente-se a tudo isso que os pensamentos postos no papel nada mais são que pegadas de um caminhante na areia: vemos o caminho que percorreu, mas para sabermos o que ele viu nesse caminho, precisamos usar nossos próprios olhos.
Nenhuma qualidade literária como, por exemplo, força de persuasão, riqueza de imagens, dom de comparação, audácia, ou amargor, ou brevidade, ou graça, ou leveza de expressão, ou ainda agudeza, contrastes surpreendentes, laconismo, ingenuidade etc., podemos adquirir lendo autores que as possuam. O que podemos é, através deles, despertar em nós tais qualidades no caso de já as possuímos como inclinação, quer dizer em potentia, trazê-las à consciência, podemos ver tudo o que se pode fazer com elas, podemos ser fortalecidos nessa inclinação, na coragem de usá-las, podemos julgar o funcionamento de seu uso pelos exemplos e, assim, podemos aprender seu uso correto; em todo caso é só depois disto que as possuímos também em actu. Esta é a única maneira de a leitura educar-nos para escrever, na medida em que nos ensina o uso que podemos fazer de nossos dons naturais; sempre na suposição de que esses dons existam. Sem eles, no entanto, não aprendemos com a leitura nada além de um maneirismo frio, morto, e nos tornamos imitadores superficiais.
Seria bom comprar livros se pudéssemos comprar também o tempo para lê-los, mas, em geral, se confunde a compra de livros com a apropriação de seu conteúdo.
Esperar que alguém tenha retido tudo que já leu é como esperar que carregue consigo tudo o que já comeu. Ele viveu de um fisicamente, do outro espiritualmente e assim se tornou o que é. Contudo, assim como o corpo assimila o que lhe é homogêneo, cada um de nós retém o que lhe interessa, ou seja, aquilo que convém a seu sistema de pensamentos ou a seus objetivos. Todos, certamente, têm objetivos, mas poucos têm algo que se pareça a um sistema de pensamentos: daí não mostrarem nenhum interesse objetivo por nada e, em consequência, nada do que leram se fixa: não retêm nada de suas leituras.


A Leitura de Jouvê



A Leitura, de Vincent Jouve, pode ser considerado um tratado sobre as formas de participação e interferência do leitor no processo de leitura. Antes de 1970, os estudos dos processos de leitura não levavam em conta o desempenho do leitor. 

Para argumentação da sua própria obra, Jouve optou por uma abordagem conceitual e teórica. O toque de empirismo é dado pelos exemplos de obras literárias e sua contextualização em relação ao leitor. Aliás, os exemplos – trechos de livros que destacam as performances de interação com o leitor – são os melhores artifícios usados pelo autor na construção do seu próprio ponto de vista.

Após uma curta e necessária introdução, o primeiro capítulo traça aspectos gerais da atividade de leitura. O autor cita os vários tipos de processos (neurofisiológico, afetivo, cognitivo, argumentativo e simbólico) a fim de apresentar a leitura como um processo complexo e pluralizado. Ainda no primeiro capítulo o autor desenvolve a idéia dos problemas de recepção do texto. Numa das passagens mais interessantes em relação ao tema, Jouve cita a visão que Roland Barthes tem sobre a importância da releitura. O segundo capítulo do livro de Jouve questiona o papel e a função do leitor na construção do sentido da obra. Através de comparações e similaridades entre autores teóricos como Lintvelt, Picard, Eco e Iser. A estruturação e argumentação são obviamente válidas, mas a complexidade das abstrações contidas no texto dificulta o acesso e o entendimento do leitor à obra de Jouve. Não deixa de ser irônico, já que Jouve dispensa páginas e páginas da sua obra falando de como estudar ou mensurar o interesse do leitor.

Apesar das poucas restrições à apresentação da obra, a verdade é o que “A Leitura”, de Jouve, traz à tona reflexões interessantes e necessárias em relação ao papel do leitor. As abordagens teóricas que consideram o leitor como participante na construção do sentido da obra, são recentes e Jouve – através deste livro – consegue fazer uma mediação inteligente a respeito das várias teorias, escolas e abordagens que estudaram e pesquisaram o complexo e rico fenômeno de leitura. Após o segundo capítulo Jouve volta a tratar da interação texto-leitor. É nesta parte do livro que o autor deixa claro que “o texto, estruturalmente incompleto, não pode abrir mão da contribuição do leitor” (p.62). Aqui o autor ainda discorre sobre as quatro esferas essenciais que levam o leitor a completar o texto:
- verossimilhança
- seqüência das ações
- lógica simbólica
- significação geral da obra
Durante o terceiro capítulo surge também o conceito de “contrato de leitura”, que em poucas palavras significa aquilo que o autor propõe ao leitor, ou seja, um certo número de convenções programadas para a recepção do leitor.

Do quinto capítulo em diante, até à conclusão, o texto corre fácil e a leitura flui sem barreiras teóricas ao raciocínio e à assimilação do conteúdo expresso. O autor fala do prazer do jogo, estrutura sua argumentação – voltando a citar Picard – e capta com maestria o interesse de quem lê. No sexto capítulo ele passa a falar do impacto do texto em relação ao leitor.

A leitura, mais que um ato lógico e sistêmico, é um meio de contato com o que há de mais pessoal em cada um de nós. Para a leitura ser eficiente, há de se ter o cuidado de não ampliá-la e nem restringi-la demais, pois em ambos os casos, pode-se perder de vista o objeto principal: a especificidade, a mensagem da obra. 

Leitura Ativa ou Passiva




Leitura passiva é aquela em que predomina a mera recepção de informações. Você decodifica o texto, e não pensa sobre ele. É passar os olhos  sem interesse.

Leitura ativa é aquela em que o leitor se esforça ao máximo para captar a mensagem que o autor tenta lhe transmitir. Ele dialoga com o texto que tem diante dos olhos, tenta determinar suas idéias centrais e a ligação entre elas. Enfim, o leitor verdadeiramente ativo é aquele que "está presente" na leitura, alerta, empenhado em compreender a mensagem do autor. Quanto mais ativo ele é, mais eficaz será sua leitura.

Uma boa leitura depende do esforço investido, se tratando de livros acima de nossa capacidade que levam à transição de um estado de entender menos para um estado de entender mais.




Atribuir Objetivo a Leitura



Dos textos hebraicos preservados, o mais antigo em que se encontra um pensamento sistemático e especulativo - o Sefer Yetzirah, escrito em algum momento do século III - afirma que Deus criou o mundo mediante 22 letras.  O universo, na tradição judaico-cristã, é concebido por essas letras-números. A chave para compreender esta em nossa capacidade de lê-los adequadamente e dominar suas combinações, e assim aprender a dar vida a alguma parte daquele texto colossal, numa imitação de nosso Criador.

Espinosa, em seu Tractatus Theologico-politicus, de 1650 (denunciado pela Igreja Católica Romana como obra forjada no inferno pelo Diabo e  por um judeu renegado), já observara: "Acontece com freqüência que em livros diferentes lemos histórias em si mesmas semelhantes, mas que julgamos de forma muito diferente, segundo as opiniões que formamos sobre os autores”. 

Em um livro, um homem chamado Orlando Furioso costumava montar uma espécie de monstro alado pelos ares, voar sobre qualquer terra que quisesse e matar sem ajuda um vasto número de homens e gigantes e outras fantasias desse tipo, as quais, do ponto de vista da razão, são obviamente absurdas. Em outra história, Ovídio, sobre Perseu, e também no livro dos Juízes e Reis, sobre Sansão, que sozinho e desarmado matou milhares de homens, e sobre Elias, que voou pelo ar e foi finalmente ao céu, num carro de fogo com cavalos ígneos, vemos que  essas histórias são obviamente parecidas, mas julgamo-las de modo muito diferente. A primeira buscava divertir, a segunda tinha um objetivo político, a terceira, um motivo religioso". 

Atribuir objetivos aos livros faz parte do senso comum.


Niveis de Leitura



Leitura Elementar "O que a frase diz?" Corresponde ao nível ensinado na escola primária. A preocupação é com a linguagem em si, a decodificação da escrita, que com qualquer outra coisa. 

Leitura Averiguativa ou Pré-leitura - "Este livro é sobre o quê?" Consiste em avaliar o texto num curto período de tempo.

Leitura Analítica é um nível de leitura voltado basicamente para a compreensão, de modo que seu objetivo é apenas informação ou entretenimento.

Leitura Sintópica ou Comparativa é o nível mais difícil de se alcançar e implica a leitura de muitos livros, pondo-os em relação uns com os outros. É o mais recompensador de todos os níveis.


Leitura Superficial



Nessa leitura você vai saber das idéias principais do autor. 

No entanto, após algumas páginas você descobre que a obra é complexa, que não está entendendo como deveria. Esbarra em algumas palavras ou frases obscuras, tenta decifrá-las e descobre que a leitura se torna uma angústia. Os leitores de primeira viagem se identificam com essa situação. 

Leia sem se angustiar pelos pontos obscuros, pelas notas de rodapé herméticas, pelos neologismos mal-explicados e as referências exóticas. A leitura "superficial" no sentido positivo, serve para nos familiarizar com a obra em todos os seus aspectos: idéias centrais, estilo, vocabulário etc. Ela vai identificar os pontos mais ou menos difíceis, vai sinalizar o tipo de ajuda de que talvez possamos precisar. Enfim, nos preparar para a segunda leitura e o alargamento da compreensão.

Procurar no dicionário qualquer termo obscuro, ou pesquisar sobre algum tema desconhecido que surja no texto deve ser feito no momento certo, sem interromper a leitura superficial. Especialmente porque esses detalhes geram uma angústia que tornam a leitura uma atividade penosa.





Leitura de Averiguação



- Comece pela capa e pela folha de rosto. Muitos livros hoje têm títulos comerciais que não dizem nada sobre seu conteúdo, mas deixam uma pista no subtítulo quando possuem.

- Nome do autor. Autores de renome mostram ao lado o título da obra mais conhecida.

- Várias edições ou reimpressões indica uma obra bem-sucedida ou idéia da sua popularidade. Lembrando que popularidade não significa nada!

- Na ficha catalográfica você encontra os tópicos que ele aborda.

- O índice é o mapa da estrutura do livro. O índice de obras antigas eram extremamente minuciosos que chegavam a ser verdadeiras sinopses. Hoje em dia, esse hábito que caiu em desuso, dando lugar a índices misteriosos. que mais parecem peças publicitárias. Mesmo assim é bom conferir.

- Além do índice tradicional, há o índice  onomástico ou remissivo nas últimas páginas. Onde são listados nomes e temáticas de forma específica, bem como as páginas onde são citados. É uma boa fonte para ter um panorama dos assuntos tratados pelo autor e pode ser útil usá-lo para identificar passagens importantes. Se um assunto é citado muitas vezes é possível que ele seja um dos pontos centrais do livro.

- A contracapa as vezes contém trechos da introdução ou  referências elogiosas publicadas na imprensa. Se tratando de obra brasileira é provável que encontre uma sinopse feita pela editora.

- A orelha costuma trazer uma breve resenha ou sinopse mais aprofundada que a da contracapa. Também é comum na contracapa uma nota biográfica do autor com as  credenciais acadêmicas ou profissionais.

- Se tiver apêndice,   trata-se de uma abordagem mais profunda de subtemáticas muito específicas. 

- Leia alguns parágrafos, talvez duas ou três páginas. Às vezes nos últimos parágrafos de um capítulo contém uma síntese do que foi abordado e  no último capítulo pode haver uma síntese das idéias centrais do livro todo.

- Folheie o livro, veja se a estética agrada. A fonte utilizada é agradável? A impressão é boa? A paginação está correta? A diagramação é bem feita? A encadernação é de boa qualidade.

- E finalmente, pesquise no Google, título da obra e o nome do autor.