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domingo, 15 de março de 2020

Paradigma - Narratologia



No decorrer da tradição literária, alguns teóricos identificaram certos padrões recorrentes nas narrativas, provavelmente, tais padrões se reproduzem inconscientemente, mas, desde o século XX, o estudo se fortaleceu, numa linha conhecida como Narratologia.

Falar de paradigmas narrativos (ou sintagmas narrativos) pode ser visto como um insulto para alguns escritores. Esses consideram que a originalidade deve estar presente em todas as etapas do processo de criação e estruturação da história, associando o uso de paradigmas com falta de criatividade ou a uma receita de bolo em que só se muda a medida dos ingredientes. Para outros, parece que não existe outra forma de se contar uma história a não ser seguindo uma estrutura já definida e estabelecida, enxergando os paradigmas como dogmas que obrigatoriamente devem permear a estrutura narrativa.


Vale lembrar que tais paradigmas não são uma tábua de lei para os escritores, a maioria sequer os conhece, apesar de segui-los.

Todo paradigma narrativo parte de uma pesquisa, ou seja, eles só são percebidos e nomeados através de uma análise de diversas histórias bem sucedidas anteriormente. São utilizados por autores e teóricos para auxiliar na compreensão de como funciona ou pode funcionar uma estrutura dramática.

Quando Joseph Campbell introduziu o conceito do Monomito em 1949 (ou “Jornada do Herói”) no livro “O Herói de mil faces”, seu objetivo não era propiciar uma lista de regras necessárias para se contar uma boa história, mas sim catalogar padrões narrativos presentes em mitos de diversas culturas através de milhares de anos. Cristopher Vogler adaptou o monomito para o cinema quando era consultor da Disney e logo o memorando de 7 páginas se popularizou e extrapolou os Estúdios Disney, até virar livro: “A Jornada do Escritor”.

Muitos acreditam que a Jornada do Herói é o único ou maior paradigma narrativo contemporâneo. No entanto em 1949, Campbell já trazia  similaridades com os sintagmas e funções propostas por Vladimir Propp na análise dos contos de fadas russos em 1928. O dramaturgo Gustav Freytag no século 19 já propunha uma estrutura dramática “A Pirâmide de Freytag”, utilizada amplamente nos tempos atuais em peças de teatro e filmes. Syd Field bebeu na fonte de Aristóteles e desenvolveu “A estrutura de três atos” estipulando os plot points em diversos filmes de sucesso do cinema americano. Robert Mckee em Story fala em “A Busca” e “Plot Central”, estruturas que descrevem o fluxo do conflito da história. “Beat by Beat” de Blake Snider é tão formulaico com seus beats calculados quase matematicamente que ganhou legiões de seguidores e detratores pelo mundo. “A Espinha da História” de Linda Sieger reflete muito bem sobre as obras multiplot e estuda a presença de tramas concretas e abstratas. Michael Hauge também propõe uma estrutura pensada para a jornada externa e interna do protagonista , estrutura que se tornou a mais utilizada nos filmes de animação americana. “ A Promessa da Virgem” de Kim Hudson busca ser um contraponto a Jornada do Herói, propiciando uma jornada interna, muito comum em filmes independentes e em tramas mais minimalistas. 

E esses são só alguns casos para exemplificar a imensidão de possibilidades de paradigmas. E de dentro de cada paradigma existem infinitas possibilidades além dos clichês.

O uso de paradigmas não é problema, nem a solução de um livro. A narrativa ruim que utiliza uma estrutura paradigmática não vai deixar de ser ruim, assim como uma boa narrativa não vai deixar de ser boa por estar enquadrada dentro de um paradigma. O que importa de verdade é a maneira como o escritor  utiliza suas habilidades, referências e conhecimentos para criar a estrutura de sua história. Seja utilizando um paradigma ou não.

Antes de demonizar ou glorificar paradigmas, sugerimos que você considere que cada história tem suas peculiaridades e dialogará de forma diversa com diferentes paradigmas. Uma coisa é certa,  conhecer alguns desses paradigmas podem auxiliar e enriquecer sua leitura.

Autores: Marcos Hinke e Jaqueline M. Souza  02/08/2016

Ler Machado



O prazer em  ler Machado de Assis no ensino-médio, foi estragado pelos, vós e ais ' cena a cena, ou decifrando todas as palavras estranhas num glossário e estudando todas as notas acadêmicas de rodapé. O resultado disso é que eles nunca leram de fato Memórias de Brás Cubas. Quando eles chegavam ao final, já tinham esquecido o início e já tinham perdido a visão de conjunto. Em vez de serem forçados a adotar essa abordagem pedante, eles deveriam ser encorajados a ler o livro de uma vez só e discutir o que tivessem assimilado desta primeira e rápida leitura. Só então eles estariam prontos para estudar a narrativa cuidadosamente, porque já teriam entendido o suficiente sobre ela para aprenderem mais.

Com a experiência de quem tentou ler Machado com um dicionário do lado, posso dar um ótimo conselho, que serve a qualquer leitura: Leia sem se angustiar pelos pontos obscuros, pelas notas de rodapé herméticas, pelos neologismos mal-explicados e as referências exóticas. Essa primeira leitura, serve para se familiarizar com a obra em todos os seus aspectos: idéias centrais, estilo, vocabulário etc. Ela vai identificar os pontos mais ou menos difíceis, vai sinalizar para o tipo de ajuda de que talvez necessite, preparando-o para a segunda leitura e o alargamento de nossa compreensão.

Sei que nos ensinaram justamente o contrário, a procurar no dicionário qualquer termo obscuro, ou pesquisar sobre algum tema desconhecido que surja no texto. Isso não está errado, mas deve ser feito no momento certo, sem interromper a leitura inicial. Especialmente porque a preocupação com esses detalhes pode gerar uma  angústia fazendo com que a leitura se torne uma atividade penosa.





Enredo, História e Tema



Enredo - Enredo é o que acontece em uma história de ficção. Está relacionado à linha de ação e à movimentação dos personagens na narrativa. O enredo é físico, concreto, objetivo.

História - História é como os personagens principais se sentem em relação ao que acontece com eles no enredo. Está relacionada à reação emocional do protagonista aos conflitos e obstáculos da narrativa. A história é mental, abstrata, subjetiva.

Tema - Tema é o assunto principal que a história apresenta. Está relacionado ao conflito central da narrativa. O tema é dramático, sujeito à interpretação do leitor. Ele sugere uma verdade humana que emerge da experiência vivida pelos personagens.

A Leitura de Jouvê



A Leitura, de Vincent Jouve, pode ser considerado um tratado sobre as formas de participação e interferência do leitor no processo de leitura. Antes de 1970, os estudos dos processos de leitura não levavam em conta o desempenho do leitor. 

Para argumentação da sua própria obra, Jouve optou por uma abordagem conceitual e teórica. O toque de empirismo é dado pelos exemplos de obras literárias e sua contextualização em relação ao leitor. Aliás, os exemplos – trechos de livros que destacam as performances de interação com o leitor – são os melhores artifícios usados pelo autor na construção do seu próprio ponto de vista.

Após uma curta e necessária introdução, o primeiro capítulo traça aspectos gerais da atividade de leitura. O autor cita os vários tipos de processos (neurofisiológico, afetivo, cognitivo, argumentativo e simbólico) a fim de apresentar a leitura como um processo complexo e pluralizado. Ainda no primeiro capítulo o autor desenvolve a idéia dos problemas de recepção do texto. Numa das passagens mais interessantes em relação ao tema, Jouve cita a visão que Roland Barthes tem sobre a importância da releitura. O segundo capítulo do livro de Jouve questiona o papel e a função do leitor na construção do sentido da obra. Através de comparações e similaridades entre autores teóricos como Lintvelt, Picard, Eco e Iser. A estruturação e argumentação são obviamente válidas, mas a complexidade das abstrações contidas no texto dificulta o acesso e o entendimento do leitor à obra de Jouve. Não deixa de ser irônico, já que Jouve dispensa páginas e páginas da sua obra falando de como estudar ou mensurar o interesse do leitor.

Apesar das poucas restrições à apresentação da obra, a verdade é o que “A Leitura”, de Jouve, traz à tona reflexões interessantes e necessárias em relação ao papel do leitor. As abordagens teóricas que consideram o leitor como participante na construção do sentido da obra, são recentes e Jouve – através deste livro – consegue fazer uma mediação inteligente a respeito das várias teorias, escolas e abordagens que estudaram e pesquisaram o complexo e rico fenômeno de leitura. Após o segundo capítulo Jouve volta a tratar da interação texto-leitor. É nesta parte do livro que o autor deixa claro que “o texto, estruturalmente incompleto, não pode abrir mão da contribuição do leitor” (p.62). Aqui o autor ainda discorre sobre as quatro esferas essenciais que levam o leitor a completar o texto:
- verossimilhança
- seqüência das ações
- lógica simbólica
- significação geral da obra
Durante o terceiro capítulo surge também o conceito de “contrato de leitura”, que em poucas palavras significa aquilo que o autor propõe ao leitor, ou seja, um certo número de convenções programadas para a recepção do leitor.

Do quinto capítulo em diante, até à conclusão, o texto corre fácil e a leitura flui sem barreiras teóricas ao raciocínio e à assimilação do conteúdo expresso. O autor fala do prazer do jogo, estrutura sua argumentação – voltando a citar Picard – e capta com maestria o interesse de quem lê. No sexto capítulo ele passa a falar do impacto do texto em relação ao leitor.

A leitura, mais que um ato lógico e sistêmico, é um meio de contato com o que há de mais pessoal em cada um de nós. Para a leitura ser eficiente, há de se ter o cuidado de não ampliá-la e nem restringi-la demais, pois em ambos os casos, pode-se perder de vista o objeto principal: a especificidade, a mensagem da obra. 

Leitura Ativa ou Passiva




Leitura passiva é aquela em que predomina a mera recepção de informações. Você decodifica o texto, e não pensa sobre ele. É passar os olhos  sem interesse.

Leitura ativa é aquela em que o leitor se esforça ao máximo para captar a mensagem que o autor tenta lhe transmitir. Ele dialoga com o texto que tem diante dos olhos, tenta determinar suas idéias centrais e a ligação entre elas. Enfim, o leitor verdadeiramente ativo é aquele que "está presente" na leitura, alerta, empenhado em compreender a mensagem do autor. Quanto mais ativo ele é, mais eficaz será sua leitura.

Uma boa leitura depende do esforço investido, se tratando de livros acima de nossa capacidade que levam à transição de um estado de entender menos para um estado de entender mais.




Atribuir Objetivo a Leitura



Dos textos hebraicos preservados, o mais antigo em que se encontra um pensamento sistemático e especulativo - o Sefer Yetzirah, escrito em algum momento do século III - afirma que Deus criou o mundo mediante 22 letras.  O universo, na tradição judaico-cristã, é concebido por essas letras-números. A chave para compreender esta em nossa capacidade de lê-los adequadamente e dominar suas combinações, e assim aprender a dar vida a alguma parte daquele texto colossal, numa imitação de nosso Criador.

Espinosa, em seu Tractatus Theologico-politicus, de 1650 (denunciado pela Igreja Católica Romana como obra forjada no inferno pelo Diabo e  por um judeu renegado), já observara: "Acontece com freqüência que em livros diferentes lemos histórias em si mesmas semelhantes, mas que julgamos de forma muito diferente, segundo as opiniões que formamos sobre os autores”. 

Em um livro, um homem chamado Orlando Furioso costumava montar uma espécie de monstro alado pelos ares, voar sobre qualquer terra que quisesse e matar sem ajuda um vasto número de homens e gigantes e outras fantasias desse tipo, as quais, do ponto de vista da razão, são obviamente absurdas. Em outra história, Ovídio, sobre Perseu, e também no livro dos Juízes e Reis, sobre Sansão, que sozinho e desarmado matou milhares de homens, e sobre Elias, que voou pelo ar e foi finalmente ao céu, num carro de fogo com cavalos ígneos, vemos que  essas histórias são obviamente parecidas, mas julgamo-las de modo muito diferente. A primeira buscava divertir, a segunda tinha um objetivo político, a terceira, um motivo religioso". 

Atribuir objetivos aos livros faz parte do senso comum.


Niveis de Leitura



Leitura Elementar "O que a frase diz?" Corresponde ao nível ensinado na escola primária. A preocupação é com a linguagem em si, a decodificação da escrita, que com qualquer outra coisa. 

Leitura Averiguativa ou Pré-leitura - "Este livro é sobre o quê?" Consiste em avaliar o texto num curto período de tempo.

Leitura Analítica é um nível de leitura voltado basicamente para a compreensão, de modo que seu objetivo é apenas informação ou entretenimento.

Leitura Sintópica ou Comparativa é o nível mais difícil de se alcançar e implica a leitura de muitos livros, pondo-os em relação uns com os outros. É o mais recompensador de todos os níveis.


Leitura Superficial



Nessa leitura você vai saber das idéias principais do autor. 

No entanto, após algumas páginas você descobre que a obra é complexa, que não está entendendo como deveria. Esbarra em algumas palavras ou frases obscuras, tenta decifrá-las e descobre que a leitura se torna uma angústia. Os leitores de primeira viagem se identificam com essa situação. 

Leia sem se angustiar pelos pontos obscuros, pelas notas de rodapé herméticas, pelos neologismos mal-explicados e as referências exóticas. A leitura "superficial" no sentido positivo, serve para nos familiarizar com a obra em todos os seus aspectos: idéias centrais, estilo, vocabulário etc. Ela vai identificar os pontos mais ou menos difíceis, vai sinalizar o tipo de ajuda de que talvez possamos precisar. Enfim, nos preparar para a segunda leitura e o alargamento da compreensão.

Procurar no dicionário qualquer termo obscuro, ou pesquisar sobre algum tema desconhecido que surja no texto deve ser feito no momento certo, sem interromper a leitura superficial. Especialmente porque esses detalhes geram uma angústia que tornam a leitura uma atividade penosa.





Leitura de Averiguação



- Comece pela capa e pela folha de rosto. Muitos livros hoje têm títulos comerciais que não dizem nada sobre seu conteúdo, mas deixam uma pista no subtítulo quando possuem.

- Nome do autor. Autores de renome mostram ao lado o título da obra mais conhecida.

- Várias edições ou reimpressões indica uma obra bem-sucedida ou idéia da sua popularidade. Lembrando que popularidade não significa nada!

- Na ficha catalográfica você encontra os tópicos que ele aborda.

- O índice é o mapa da estrutura do livro. O índice de obras antigas eram extremamente minuciosos que chegavam a ser verdadeiras sinopses. Hoje em dia, esse hábito que caiu em desuso, dando lugar a índices misteriosos. que mais parecem peças publicitárias. Mesmo assim é bom conferir.

- Além do índice tradicional, há o índice  onomástico ou remissivo nas últimas páginas. Onde são listados nomes e temáticas de forma específica, bem como as páginas onde são citados. É uma boa fonte para ter um panorama dos assuntos tratados pelo autor e pode ser útil usá-lo para identificar passagens importantes. Se um assunto é citado muitas vezes é possível que ele seja um dos pontos centrais do livro.

- A contracapa as vezes contém trechos da introdução ou  referências elogiosas publicadas na imprensa. Se tratando de obra brasileira é provável que encontre uma sinopse feita pela editora.

- A orelha costuma trazer uma breve resenha ou sinopse mais aprofundada que a da contracapa. Também é comum na contracapa uma nota biográfica do autor com as  credenciais acadêmicas ou profissionais.

- Se tiver apêndice,   trata-se de uma abordagem mais profunda de subtemáticas muito específicas. 

- Leia alguns parágrafos, talvez duas ou três páginas. Às vezes nos últimos parágrafos de um capítulo contém uma síntese do que foi abordado e  no último capítulo pode haver uma síntese das idéias centrais do livro todo.

- Folheie o livro, veja se a estética agrada. A fonte utilizada é agradável? A impressão é boa? A paginação está correta? A diagramação é bem feita? A encadernação é de boa qualidade.

- E finalmente, pesquise no Google, título da obra e o nome do autor.

Leitura da Utopia



Considerando-se o conteúdo das narrativas de ficção científica e dos textos especulativos, duas alternativas de futuro se desenham: as utopias, constituídas de mundos idílicos em que a superação das mistificações combina-se com justiça social e relações éticas idealizadas, e as distopias, apresentadas como descrições sombrias de lugares fora da história em que tensões sociais são resolvidas ou controladas por meio da violência ou da força. As utopias, “sonhos da razão”, se caracterizam por parecerem irreais, contrastando com a irracionalidade reinante nas relações sociais, enquanto as distopias, caracterizadas na imaginação literária do século XX pela fúria dominadora da racionalidade, assinalam que “o sonho da razão produz monstros”.

As distopias induzem, assim, a uma reflexão crítica sobre discursos fundadores da modernidade: a noção de progresso e a fé na ciência e na tecnologia como solução para os problemas. A ambiguidade e a contradição com que a noção de “progresso” afetou vidas, sociedades, sistemas e meio ambiente ao longo do século XX resultam num questionamento imediato sobre o caos do progresso.

Ao trazer para o leitor a possibilidade de antecipar na imaginação as possíveis decorrências das ações, a ficção científica especulativa distópica, tem um caráter de narrativa mítica que leva o leitor a contemplar, no presente, “as ruínas do futuro”. Grandes dificuldades se apresentam a quem se dedica ao esforço de imaginar um futuro – de um presente em crise –, implicando também em diálogos com o passado, não num trabalho mnemônico que vise ao mero relato histórico, mas sim na tentativa de compreensão de suas trajetórias e percursos sociais, históricos, econômicos, ecológicos e éticos.

Olhar para o passado com a consciência do que aconteceu posteriormente requer sempre o apelo à relativização, posto que tal digressão pode induzir a anacronismos, mas tal tarefa se coloca e se impõe em momentos de crise e esta análise pode ser fundamental para uma revisão vital do olhar que se pode lançar não sobre o passado, mas sim sobre o devir e a construção do futuro.

A literatura de ficção científica também possibilita ao leitor o exercício imaginativo de se colocar no lugar do homem do futuro, de viver a realidade do cenário diegético, de sentir, pensar e agir num mundo virtual e de lá olhar o presente com os olhos do outro.

As distopias literárias constantemente abordam temas ou contextos que atingem pontos-chave dos perigos e temores que assombram a humanidade quando confrontada com o futuro, resultando na construção de cenários que são sínteses das questões fundamentais ligadas aos problemas e decorrências da civilização ocidental, bem como dos percursos por ela trilhados, fazendo refletir tanto para frente quanto para trás.

Assim, textos escritos há mais de um século já colocavam questões sociais e ambientais que se tornaram paulatinamente mais próximas da realidade dos leitores, ainda que no momento em que foram escritos tais contextos poderiam parecer prenúncios apocalípticos impossíveis.

Chamado a preencher os hiatos do percurso entre a sua atualidade concreta e o cenário futuro criado no texto de ficção literária, o leitor constrói trajetórias para a humanidade, para a sociedade planetária, ou mesmo para as comunidades interpretativas a que pertence, incluindo, nesta perspectiva, o que concerne ao possível e ao impossível, às aspirações, aos desejos projetados, aos medos e perigos pronunciados, à cíclica recorrência de fatos históricos ou ao temor do desconhecido. Como outros mitos, a ficção científica também tem uma dimensão cosmogênica, só que nela a cosmogonia é metafórica e se opera ao contrário: ao invés de organizar os mundos ancestrais e origens ontológicas, o mito criado na narrativa da ficção científica descreve acontecimentos futuros que se originam nas possíveis ações do presente.

Ao lidar com medos e temores contemporâneos, a ficção especulativa resulta abordando as consequências, trajetórias, decorrências, problemas históricos e atuais da civilização ocidental, conclamando o leitor à reflexão e implicando também num duplo envolvimento, tanto emocional quanto racional, com a temática abordada, o que sugere a literatura como ampliadora da capacidade de mobilização crítica do leitor frente à realidade e o aumento do grau de consciência dos problemas contemporâneos.

O medo faz parte das decorrências do progresso da civilização. À palavra “progresso” aproxima-se, de início, um campo semântico positivo, na significação de um avanço contínuo em direção a algo melhor, ligando-se à noção de êxito, de coisa desejável. Entretanto, ao progresso associa-se também o medo, sentimento ancestral humano que se relaciona a perigo, a algo a ser evitado, ao que não apenas se rejeita como também se deve fugir, com forte significação cultural negativa. Este duplo caráter do progresso e do avanço técnico-científico é a quinta-essência da civilização e do homem moderno, inserido numa sociabilidade fundada em paradoxos. E é o núcleo argumentativo da literatura especulativa.

Não se deve, contudo, pensar a literatura de ficção científica como instrumento de mera antecipação de questões científicas, sociais, tecnológicas, políticas, econômicas, ambientais ou de ferramenta para a proposição de possíveis soluções. Pelo contrário, o que há de se considerar é a imensa potencialidade que carrega para estabelecer, por meio do pulsar estético da arte, terrenos fecundos para o pensamento crítico sobre temas contemporâneos, como identidade, ética, responsabilidade, meio ambiente e futuro, mobilizando sujeitos-leitores para uma existência mais responsável e prudente. A catarse literária pode viabilizar a contemplação das ruínas do futuro e dar ao leitor a chance de uma reflexão crítica mais abrangente, uma visão imaginária das possibilidades (perversas ou utópicas) de construção coletiva do porvir. E a literatura de ficção científica, relacionando palavras, memória e futuro, pode alcançar, assim, funções heurísticas e educativas adicionais às estéticas do pensar.



Fases da Leitura



Pré-Leitura - Fase da descoberta do mundo concreto e da linguagem, instalação das relações entre imagens e palavras. Leitura visual com predileção por textos sobre o cotidiano familiar ou com rimas.

Leitura Iniciante - Nesta fase o inicia o processo de socialização e compreensão da realidade. Com  preferência em textos bem-humorados, onde sagacidade vence a tirania.

Leitura em Processo - Fase em que o leitor acentua o interesse pelo conhecimento. Entrando no mundo dos desafios e dos questionamentos de toda ordem. Atraído pelos textos fantásticos, de fadas, folclore, de humor e animismo.

Leitura Fluente - Fase em que se consolida a  capacidade de abstração e do pensamento formal e reflexivo. Nesta fase as aventuras sensacionalistas e ideais humanitários que envolvem heróis, detetives, fantasmas, ficção e história de amor tem preferência.

Leitura Crítica - Fase que apresenta o desenvolvimento do pensamento crítico e reflexivo,  assimilando idéias e entrelinhas. Preferência por narrativas psicológicas, aventuras intelectualizadas, crônicas e contos.



Experiêcia Estética



A experiência estética em alguns livros inicia  a partir da capa, onde certos autores colocam em jogo características específicas que servem como  marcas que eles gostariam que fossem percebidas pelo leitor como pegadas no caminho da leitura de sua narrativa.

Assim, na descoberta dessas, e de outras marcas, o leitor tem um papel mais exigente que outros tipos de leitura, em função das especificidades  tais narrativas reivindicam. Conhecimentos prévios ou de busca (pesquisa) em relação a metáforas e associações inseridas no texto e no contexto da obra,  tornam a experiência de leitura em algo fascinante.

Essa experiência tem muitos níveis, assim como diferentes temporalidades, dependendo de tantos elementos que entram em sua constituição e também do quanto cada leitor investe nela. Várias leituras de uma mesma obra literária constituirão experiências estéticas, em algum grau, diferentes. Certas leituras se impõe, exigindo uma experiência que se constrói no tempo.

Mukarovský, propõe um entendimento da função estética como uma construção cultural variável no tempo e no espaço e, por outro lado, um entendimento da norma estética como critério estabilizador do valor estético—sujeito, por isso, a constantes violações e sucessivas alternâncias.


Etapas de Leitura




Na perspectiva cognitiva a leitura é um processo de informações. Portanto, o ato de ler é fundamentalmente mecânico. Ou seja, a leitura é uma atividade intelectual exercida por etapas através dos sentido: audição, paladar, olfato, tato e, sobretudo, visão.

1ª ETAPA
Etapa determinada como momento da percepção da palavra, do objeto, dos fatos lidos. O ato de ler, neste momento, ainda não é completo.

2ª ETAPA
Compreende o processo de levar as informações apreendidas para a memória intermediária, onde elas serão organizadas em unidades significativas. Durante o ato de leitura, memória de trabalho automaticamente  aciona conhecimentos já sedimentados em grupos maiores e envia para junto destes as informações lidas, que têm relação com a necessidade e com a experiência do leitor. A informação significativa segue para a memória profunda ou semântica.

E a memória intermediária é acionada para receber novas informações, num processo sucessivo, chamado de fatiamento. As informações desnecessárias ou consideradas insignificantes pelo leitor são descartadas pela   memória intermediária. 

3ª ETAPA
Acontece com a recepção do conhecimento pela memória profunda, onde ocorre a compreensão real e a re-elaboração do texto lido. 

É importante notar que a memória intermediária trabalha ininterruptamente em um processo de esvaziamento e escolha de informações lidas. Se o leitor não consegue selecionar informações para armazenar, as novas informações não farão sentido, dificultando a conexão  com unidades significativas já sedimentadas. 

Estratégia de Leitura



Estratégias de leitura são mecanismos que o leitor desenvolve no ato de selecionar, antecipar, inferir e verificar.. 

Estratégia de seleção: o leitor escolhe o que é relevante e descarta o que é irrelevante.

Estratégia de antecipação:  o leitor prevê o que seus olhos ainda não leram.

Estratégia de inferência: o leitor compreende o que não está explícito no texto, metáforas e  entrelinhas.

Estratégia de verificação: o leitor avalia o uso das estratégias anteriores, se está ou não contribuindo para alcançar o objetivo, se hipóteses,  inferências e previsões podem ser confirmadas.