Mostrando postagens com marcador Leitor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Leitor. Mostrar todas as postagens

domingo, 15 de março de 2020

Cérebros do Leitor




Toda vez que você começa a ler, seu cérebro está à procura de razões para continuar lendo. Nesse processo, o texto é avaliado por quatro elementos diferentes: instinto, emoções, pensamentos e intuições. Cada um deles funciona como um cérebro semi-independente, com preocupações e vontades próprias. Atente! Essa subdivisão é teórica, mas ajuda entender o processo da leitura em nosso cérebro.

Cérebro Instintivo
Quer me matar? Vai me dar prazer? É de comer? 

Seu principal objetivo é proteção da nossa integridade física. Ele está sempre atento aos estímulos do ambiente em que nos encontramos, determinando potenciais ameaças, fontes de prazer, e fontes de nutrição. O cérebro instintivo é responsável por eliminar informações desnecessárias, e focar apenas no que pode colocar nossa vida em risco, trazer prazer imediato, ou servir de alimento. Qualquer história que parecer inofensiva, desinteressante, ou inútil será descartada pelo cérebro instintivo. As histórias que estimulam esse cérebro criam conflitos que colocam em risco algo importante na vida do protagonista. Usando figuras de linguagem para dar mais sabor ao texto. Despertando perguntas intrigantes na mente do leitor sobre um tema específico.

Cérebro Emocional
Tem alguma relação com a minha vida?

Quando uma mensagem é percebida como importante, interessante e excitante, ela é transferida do cérebro instintivo para o emocional. Seu principal objetivo é encontrar benefícios emocionais e sociais nos estímulos recebidos, tais como sensações de conforto, segurança, pertencimento, status, estima. Qualquer história que não mexer com alguma dessas sensações será descartada pelo cérebro emocional. As histórias que estimulam esse cérebro permitem que o leitor reflita sobre suas relações pessoais e sociais. Incluindo cenas que mostram o que está acontecendo, ao invés de apenas contar o que está acontecendo. Fazendo com que o protagonista aprenda algo sobre si, sobre as pessoas, e sobre o mundo ao final da história.

Cérebro Racional
Qual é o sentido disso tudo?

Depois de ultrapassar os filtros dos dois cérebros anteriores, o estímulo chega na parte da mente que pensa de forma lógica e complexa. Em muitos casos, decisões são tomadas pelos dois cérebros anteriores, e racionalizadas por este cérebro para justificá-las. Seu principal objetivo é reavaliar de forma sistemática a validade das informações que chegaram até ele. Qualquer história que não seja clara e coerente será descartada pelo cérebro racional. As histórias que estimulam o cérebro racional criam conflitos que estabeleçam uma sequência lógica de acontecimentos, onde cada ação/decisão do protagonista resulte em uma consequência. Usando linguagem clara e adequada à história que está sendo contada. Desenvolvendo um protagonista verossímil, contextualizando suas emoções e comportamentos.

Cérebro Intuitivo
Alguma coisa me diz que isso está certo.

Quando uma mensagem traz uma recompensa emocional, mas não conseguimos explicá-la usando somente lógica, o cérebro intuitivo entra em ação. Seu objetivo é acomodar o inexplicável, é tranquilizar os cérebros anteriores com a ideia de que nem todas as emoções e sensações podem ser explicadas racionalmente. Os estímulos que chegam até o cérebro intuitivo mexem com nossos valores morais e nossa espiritualidade. As histórias que estimulam o cérebro intuitivo criam conflitos e personagens baseados em arquétipos. Incluindo passagens que permitam ao leitor refletir sobre sua mortalidade e humanidade. Apresentando uma verdade humana que ofereça um sentido para tudo o que o protagonista viveu durante a história.

O Que um Livro Deseja




O que um Livro deseja do Leitor:
- Que compreenda o que lê; 
- Que leia também o que não está escrito, leia o que está implícito nas entrelinhas,
- Que estabeleça relações entre o texto que lê e outros textos já lidos.
- Que extrai-a informação do texto e confira essa informação com base em seus conhecimentos e suas experiências, 
- Que apropria-se da informação e atribui a ela um significado,
- Reflita de que maneira a leitura informou, acrescentou, provocou, inseriu ideias na sua mente. 
Um livro deseja que o leitor entenda, que o ato de ler não é uma atividade passiva, é ele, o leitor que vai 'funcionar' o texto. Mobilizando estratégias, fazendo inferências, estabelecendo relações, utilizando seus conhecimentos prévios e pesquisando para dar coerência aos vazios implícitos, subentendidos ou ocultos nos interstícios. Acima de tudo, um livro deseja que o leitor tenha consciência que o ato de leitura não é conseqüência do saber ler. 
"LER, É SBAER JUTNAR LRETAS. LEITURA, É SABER PORQUE ESSAS LETRAS SE JUNTAM." (eucajus)
Leitura exige a ativação de distintas competências e estratégias num processo ascendente em que podemos (des)construir conceitos para nossa formação pessoal e social.

Espécie de Leitor



Leitor Contemplativo
Depois de séculos a leitura passaria a ser algo mais íntimo e pessoal, sem a presença de um orador, sem interferências externa e apenas feita pelo movimento dos olhos e o virar das páginas. É nesse momento que nasce o leitor contemplativo. Essa espécie de leitor se isenta de situações mundanas para se concentrar na leitura, numa atividade solitária, que pode ser interrompida para reflexão, retornada, feita novamente por dezenas de vezes até que o entendimento seja o desejado. É o leitor que procurou o isolamento para absorção do conteúdo, que não se preocupa com quanto tempo faz que esteja lendo. Da mesma maneira poderiam “ler” quadros ou esculturas numa galeria ou admirar e perceber a arquitetura que o cerca.

Leitor Movente
É o leitor que surge pós Revolução Industrial.  A rua virou uma grande vitrine com todo tipo de informação, que é consumida rapidamente e sem intimidade, numa batida de olhos o leitor é bombardeado por imagens e textos que seduzem. Lendo tudo rapidamente, com menos concentração. É o leitor intermediário entre o contemplativo e o imerso.

Leitor Imerso
Com todos os aparatos digitais e possibilidades, não é difícil de imaginar como é essa espécie de leitor. Nada de ordem para ler. O leitor imerso está a todo tempo em prontidão para receber e ler novas informações, traçando seu próprio caminho em navegações alienares ou multilineares. É o leitor que passeia por várias dimensões de conteúdos através dos nós que as une, que pode ter uma leitura que não tem fim, que entrecruza os dados com outros textos, os compara gerando outros conteúdos.


Narrador Solidário




É o narrador que não se interpõe entre o leitor e o texto, pelo contrário, propõe um distanciamento dos fatos, e o leitor obriga-se a compreender a história, a partir das poucas indicações dadas.

O narrador assume uma postura democrática, cedendo a voz aos personagens, propiciando mais veracidade ao relato, e ainda priorizando a liberdade. A apresentação de diferentes perspectivas de um mesmo fato pode ser entendida como um ato de solidariedade ao leitor. Além disso, quando outras personagens contam suas histórias, podemos dizer que o leitor encontra brechas que lhe permitem sair da trama da narrativa.

O leitor, muitas vezes, não precisa refletir, já que encontra personagens e situações que se revelam diretamente a ele sem a intervenção do narrador, mas deixa que os fatos atuem sobre a sua sensibilidade, através do discurso direto, privilegiado pelas narrativas, com sua capacidade de comunicação em reproduzir as palavras das personagens sem subordiná-las às do narrador. Assim, a utilização progressiva desse recurso aproxima-se da estrutura dialogada. Esse modo de expressão lingüística acentua a situação vital de cada uma das protagonistas, que são descritas em uma linguagem mais próxima da vida real e que se entregam ao leitor em um jogo afetivo.

Quando encontra vocábulos aparentemente desconhecidos, o leitor é capaz de preencher brechas trazidas pela narrativa. Como no exemplo em que Alice não tinha a menor ideia do que fosse uma latitude ou uma longitude. Nesse trecho da obra, o narrador não explica o significado dessas palavras, deixando que o leitor construa a sua significação. Esse leitor apreende significados de novos vocábulos sem que isto seja feito de maneira explicativa, porque é capaz de realizar associações. Assim o leitor amplia o seu vocabulário. Essa situação aponta solidariedade.


Quando Leitor



Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos seu processo mental. Trata-se de um caso semelhante ao do aluno que, ao aprender a escrever, traça com a pena as linhas que o professor fez com o lápis. Portanto, o trabalho de pensar nos é, em grande parte, negado quando lemos. Daí o alívio que sentimos quando passamos da ocupação com nossos próprios pensamentos à leitura. Durante a leitura nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos alheios. Quando estes, finalmente, se retiram, que resta? Daí se segue que aquele que lê muito e quase o dia inteiro, e que nos intervalos se entretém com passatempos triviais, perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria, como quem sempre anda a cavalo acaba esquecendo como se anda a pé. Este, no entanto, é o caso de muitos eruditos: leram até ficar estúpidos. Porque a leitura contínua, retomada a todo instante, paralisa o espírito ainda mais que um trabalho manual contínuo, já que neste ainda é possível estar absorto nos próprios pensamentos. Assim como uma mola acaba perdendo sua elasticidade pelo peso contínuo de um corpo estranho, o mesmo acontece com o espírito pela imposição ininterrupta de pensamentos alheios. E assim como o estômago se estraga pelo excesso de alimentação e, desta maneira prejudica o corpo todo, do mesmo modo pode-se também, por excesso de alimentação do espírito, abarrotá-lo e sufocá-lo. Porque quanto mais lemos menos rastro deixa no espírito o que lemos: é como um quadro negro, no qual muitas coisas foram escritas umas sobre as outras. Assim, não se chega à ruminação [1]: e só com ela é que nos apropriamos do que lemos, da mesma forma que a comida não nos nutre pelo comer, mas pela digestão. Se lemos continuamente sem pensar depois no que foi lido, a coisa não se enraíza e a maioria se perde. Em geral não acontece com a alimentação do espírito outra coisa que com a do corpo: nem a quinquagésima parte do que se come é assimilado, o resto desaparece pela evaporação, pela respiração ou de outro modo.
Acrescente-se a tudo isso que os pensamentos postos no papel nada mais são que pegadas de um caminhante na areia: vemos o caminho que percorreu, mas para sabermos o que ele viu nesse caminho, precisamos usar nossos próprios olhos.
Nenhuma qualidade literária como, por exemplo, força de persuasão, riqueza de imagens, dom de comparação, audácia, ou amargor, ou brevidade, ou graça, ou leveza de expressão, ou ainda agudeza, contrastes surpreendentes, laconismo, ingenuidade etc., podemos adquirir lendo autores que as possuam. O que podemos é, através deles, despertar em nós tais qualidades no caso de já as possuímos como inclinação, quer dizer em potentia, trazê-las à consciência, podemos ver tudo o que se pode fazer com elas, podemos ser fortalecidos nessa inclinação, na coragem de usá-las, podemos julgar o funcionamento de seu uso pelos exemplos e, assim, podemos aprender seu uso correto; em todo caso é só depois disto que as possuímos também em actu. Esta é a única maneira de a leitura educar-nos para escrever, na medida em que nos ensina o uso que podemos fazer de nossos dons naturais; sempre na suposição de que esses dons existam. Sem eles, no entanto, não aprendemos com a leitura nada além de um maneirismo frio, morto, e nos tornamos imitadores superficiais.
Seria bom comprar livros se pudéssemos comprar também o tempo para lê-los, mas, em geral, se confunde a compra de livros com a apropriação de seu conteúdo.
Esperar que alguém tenha retido tudo que já leu é como esperar que carregue consigo tudo o que já comeu. Ele viveu de um fisicamente, do outro espiritualmente e assim se tornou o que é. Contudo, assim como o corpo assimila o que lhe é homogêneo, cada um de nós retém o que lhe interessa, ou seja, aquilo que convém a seu sistema de pensamentos ou a seus objetivos. Todos, certamente, têm objetivos, mas poucos têm algo que se pareça a um sistema de pensamentos: daí não mostrarem nenhum interesse objetivo por nada e, em consequência, nada do que leram se fixa: não retêm nada de suas leituras.