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terça-feira, 17 de março de 2020

Livros Que nos Mordam



Uma vez, andando por Praga com o filho de um colega, Kafka parou diante da vitrine de uma livraria. Vendo o jovem inclinar a cabeça de um lado para o outro a fim de ler o título dos livros enfileirados, ele riu: "Então você também é louco por livros, sua cabeça sacode de tanta leitura?". O jovem assentiu: "Acho que eu não poderia viver sem livros. Para mim eles são o mundo". Kafka ficou sério. "Isso é um erro", disse. "Um livro não pode tomar o lugar do mundo. É impossível. Na vida tudo tem seu sentido e seu propósito, e para isso não há substituto permanente. Um homem não pode, por exemplo, dominar sua própria experiência por meio de outra personalidade. É assim que está o mundo em relação aos livros. Tentamos aprisionar a vida num livro, como um canário na gaiola, não funciona... Lemos para fazer perguntas"!


A intuição de Kafka de que, se o mundo tem coerência, é uma coerência que não podemos compreender plenamente - se o mundo oferece esperança, ela "não é para nós? Num ensaio famoso, Walter Benjamin observou que para entender a visão de mundo de Kafka "não se deve esquecer o modo de ler de Kafka", comparado por Benjamin ao do Grande Inquisidor de Dostoievski no conto alegórico de Os irmãos Karamazov: "Temos perante nós", diz o Inquisidor ao Cristo retornando à Terra, "um mistério que não podemos apreender e, justo por ser um mistério, tivemos o direito de pregá-lo, de ensinar ao povo que o que importa não é a liberdade nem o amor, mas o enigma, o segredo, o mistério diante do qual eles devem se curvar - sem reflexão e mesmo sem consciência". Um amigo que viu Kafka ler em sua escrivaninha disse que ele lembrava a figura angustiada de um leitor de Dostoievski, que parece em transe enquanto lê o livro que segura.

Kafka desenvolveu uma maneira de ler que lhe permitia decifrar as palavras ao mesmo tempo em que questionava sua capacidade de decifrá-las, persistindo em compreender o livro e contudo, não confundindo as circunstâncias do livro com as suas próprias - como se estivesse respondendo tanto ao velho professor, que ridicularizava sua falta de experiência para entender o texto, como aos seus ancestrais rabínicos, para os quais um texto precisa provocar continuamente o leitor com a revelação.


Dizer que as leituras sempre ultrapassam em quantidade os textos que as geram é uma observação banal, mas algo de revelador sobre a natureza criativa do ato de ler está presente no fato de que um leitor pode se desesperar e outro rir exatamente na mesma página. As histórias de Kafka, nutridas pela experiência de leitura dele, ao mesmo tempo oferecem e tiram a ilusão de compreensão. É como se elas corroessem a arte do escritor Kafka a fim de satisfazer o Kafka leitor.

Em 1904, Kafka escreveu ao amigo Oskar Pollak: "No fim das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos ao trabalho de lê-lo? Para que nos faça feliz, como diz você? Meu Deus, seríamos felizes da mesma forma se não tivéssemos livros. Livros que nos façam felizes, em caso de necessidade, poderíamos escrevê-los nós mesmos. Precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios. É nisso que acredito".

Alberto Manguel
Uma História da Leitura

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Gostamos desse texto!


Para compreender, adequadamente, a importância da leitura e da escrita em nossas vidas, precisamos alimentar nosso corpo material e espiritual. É importante corrigir a falsa ideia, de que os termos 'espiritual' e 'espiritualidade' referem-se exclusivamente ao sentido religioso. É compreensível que isso ocorra, por que neles, os que têm fé na divindade elaboram e abrigam suas idéias e sentimentos em relação ao sagrado.

Entretanto, ateus  tem fé em um mundo melhor e de que as pessoas podem mudar. Possuem seu lado espiritual, só que no sentido não religioso do termo, onde elaboram idéias, afetos, esperanças. E também espiritualidade, no sentido de ligação com a natureza, com o Cosmo...

Outra falsa ideia é que podemos comunicar a verdade. Podemos percebê-la, mas ao comunicar sobre ela, levamos junto uma parte da nossa subjetividade como observador. Então, não existe comunicação imparcial. O que é verdadeiro para um pode não ser para o outro... Por que não existe uma pessoa igual à outra, e também não pode existir verdade única, religião única, pensamento único. E isso inclui esta própria afirmação que acabo de fazer, daí a dificuldade de se andar em terreno firme e seguro quando o assunto é a subjetividade.


Então, ler e escrever é muito mais que dominar técnicas literárias, é obter as chaves desse mundo interior, de nossa verdade, e ter acesso a dos outros. Uma forma de nos ajudar a perceber, compreender e elaborar nossa própria subjetividade contribuindo para dar sentido ao mundo, a nós próprios e aos outros. Claro que existem outras formas de fazer isso, principalmente nas culturas orais, mas na cultura letrada, ler e escrever são fundamentais para ser e sentir-se adequadamente inseridos no mundo. 

Precisamos disso, pois ao contrário, o processo de formação do sujeito é na verdade uma auto-formação. A educação, os livros, a cultura, os meios de comunicação exercem influências sobre nós, mas o que somos resulta de nossas escolhas. Comunicadores em geral, educadores, e escritores, em particular, cumprem com o papel social de nos ajudar a construir nossa subjetividade, nossa compreensão da verdade e utopias e, embora não escolham por nos, contribuem para iluminar nossos caminhos. 

Outra falsa ideia é de que a pratica é mais importante que a teoria. A prática começa nas idéias. A motivação para agir não está na própria ação, mas em nosso mundo interior. E como a leitura e a escrita nos conectam a este mundo, nos incentivam - ou não - a agir seja para manter as coisas como estão ou para mudá-las. Por essa razão, jornalistas, artistas e escritores são os primeiros a sofrer censura e prisão em regimes opressores, idéias podem ser armas mais poderosas que fuzis e granadas. Não é por acaso que nos regimes democráticos exista tanta preocupação em controlar os meios de comunicação...

Vilmar Berna

Expressar-se na forma escrita não é um simples ato de colocar palavras num papel ou digitar num teclado. A maior parte da ação de escrever é invisível para os olhos, acontece no mundo interior de quem escreve e pode refletir este esforço de buscar o equilíbrio entre as emoções, o pensamento e as praticas... a internet, os novos celulares, a banda larga, tem facilitado a vida de quem gosta de escrever e quer ser lido. Publicar deixou de ser privilégio de poucos... 

O ideal é quando o escritor consegue reunir à sua volta pessoas que compreendem que o ato de escrever não é apenas físico, mas requer recolhimento, silêncio interior, para ouvir-se e ouvir seus fantasmas, angústias, desejos, 'conversar' com seus amigos espirituais... assim como construímos redes de afetos no mundo físico, também o fazemos no mundo espiritual. Os escritores que gostamos formam nossa espécie de rede de 'amigos' espirituais, com os quais compartilha ideias, afinidades e valores, ainda que muitos já possam ter morrido a milênios ou vivam do outro lado do Planeta. Por isso, um escritor nunca esta só em seu mundo interior ... 

Mais que escrever para seu próprio prazer escreve-se por necessidade e dever. Escrever é a função social do escritor, seja para entreter, seja para ajudar na analise da conjuntura, mostrar alternativas, denunciar as falsas idéias e injustiças. Por isso, um texto não está completo quando é divulgado, mas quando é lido. E quando isso acontece, nenhum texto é igual ao outro, pois ao passar pelos olhos e pelo mundo interior do leitor, ganha nuances e identidade própria e particular... Sem os leitores, os textos não vão a lugar algum, não transformam coisa alguma, não amam nem são felizes. Não são os textos que mudam as coisas. São as pessoas. 

Texto de Vilmar Sidnei Demamam Berna 




A Importância da Leitura



Até os que não praticam o “ler é importante” reconhecem o seu valor como modelo eficiente na busca do conhecimento individual e também coletivo, essencialmente universal.


Hoje existem diversas outras maneiras também eficazes para a obtenção do conhecimento, mas a leitura é ainda o melhor dos caminhos. O hábito, do qual tanto se fala como necessidade para o gosto pela leitura, lembra o de um corpo que aos poucos vai ganhando, com exercícios, o que chamamos de condicionamento físico.

Ler também é divertido. Ou não é? A leitura de um bom livro lembra paixão. Um bom livro não se larga, não se abandona, não se esquece. É assim que paixão vira amor.


O início – como tudo na vida – não é fácil. É preciso vontade. Opções mais sedutoras acabam nos levando para o menos trabalhoso. O pecado da preguiça opera desculpas e faltas disso e daquilo, provocando em nós o aparecimento do que chamamos de silêncio cultural. Silêncio cultural é a mesma coisa que falta de conteúdo. Corremos o risco de uma geração que só lê manchetes e links, que nem sempre, em sínteses, expressam o cerne da questão.
João Scortecci

Antes que eu esqueça, do que deve ser lembrado, é que o tal hábito da leitura passa pelo esforço das partes (mercado, profissionais do livro e governo) e de todos os agentes (professores, intelectuais e leitores). Não há educação quando a ignorância habita a família, a escola, o trabalho, os governos. Não há leitura sem o comprometimento do livro com suas mais diversas ferramentas. O livro precisa colocar-se aos olhos. Ele é mágico, oportuno e pluriapto. A inclusão cultural pela leitura deve, e precisa, passar pela coragem política do mundo real e virtual.

O livro pode até acabar, na forma como hoje o conhecemos, na plataforma papel, mas a leitura não. Exclusão tem cura quando não é doença. Adentrar em uma livraria não precisa ser um desafio incomum. 

Outro dia – ainda na minha adolescência – quando descobri que “ler é importante” alguém desavisado me disse: Um país se faz com homens e livros. Foi Lobato quem me disse do papel para o meu profundo despertar. Naquela tarde incomum atendi ao seu chamado.

Depois escutei também os segredos de Alencar, Sabino, Clarice, Machado, Bandeira, Cecília, Drummond, Graciliano, Lygia, Cabral, Bilac, Rachel, Callado, Gullar e todos os outros Amados.


Texto de João Scortecci - Fonte: Amigos do Livro





Leitura como Metáfora Social


A leitura exige adesões. Pessoas interessadas em mudar o rumo de nossa história, quem ainda procura por onde começar, deve saber que o caminho é a leitura. É por intermédio dela que se planta o primeiro parágrafo de uma sociedade mais justa e cidadã. Semeando leituras, colhemos o prazer de ler e entender, com seus dilemas e suas perplexidades, mas também suas alegrias e possibilidades... 

Muito se fala do insatisfatório nível de alunos e professores na maioria das escolas de educação básica, de seu desinteresse, de sua precária produção escrita, de sua incapacidade de pensar criticamente e de forma criativa. Aprendemos com Paulo Freire que ensinar por meio do diálogo significa facilitar a aprendizagem, a construção conjunta do saber, criar e refletir com responsabilidade, acrescentando elementos para reflexão. A leitura pode desmanchar fronteiras, estendendo pontes sobre as diferenças. 

... em vão nos perguntamos, no espaço inadequado das salas de aula, o que o autor quis dizer com isso? Uma indagação mais profícua se praticada em centros de estudos mediúnicos. São raras as oportunidades de ampliação e aprofundamento do diálogo genuíno, obtendo dos alunos suas respostas sensoriais, emocionais, racionais ao lido... Os conteúdos são fragmentados, prescritos e predeterminados: a presença eventual de textos é mero pretexto para estudo gramatical, esvaziando sua leitura como obra de arte. Poucos alunos dominam a morfossintaxe da língua portuguesa, apesar de serem expostos a esse ensino ao longo de sua permanência na escola. Dizem que alunos pioram a cada ano, o nível está cada vez mais baixo, o analfabetismo funcional é a tônica, especialmente nas escolas da rede pública; brasileiros não lêem, não escrevem, não pensam.
Não lemos, escrevemos, nem pensamos. Seremos vítimas ou réus de um processo inadequado? Frente a tiragens milionárias e crescentes de jornais e revistas, será que só consideramos leitura o consumo dos clássicos do cânone literário? O que entra e sai? O que fazer com o estranhamento causado pelos neologismos... Como depreender sentidos, reconstruindo os processos de construção e criação literária? Precisamos fazer uma reflexão crítica sobre a língua e a literatura nacional. Aspectos gramaticais podem e devem ser tratados na medida em que sua análise efetivamente contribua para a melhor compreensão do texto, para o desfazimento dos nós interpretativos que impedem a leitura verdadeira, que atinge níveis mais profundos do pensamento, o acesso à potencialidade da palavra-arte, à construção de conhecimento da língua e da literatura, da leitura e da escritura. Ou seja, educar para a sociedade através da literatura: a educação literária como metáfora social. 

Texto de Cyana Leahy  



quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Universo Fantástico



Ler um livro é ousar abrir-se para o outro, exigir que o outro seja como você o imagina é o avesso da experiência de leitura...

Tenho a impressão de que, se os jovens não gostam de ler, é porque não tiveram a experiência de ouvir a leitura feita por um possuído. É a experiência de ouvir que nos faz querer dominar a técnica da leitura para poder penetrar na emoção do texto...

A Literatura é um fenômeno social/cultural nascido de gêneros milenares, que permanecem vivos apesar da passagem dos séculos. Em geral cada civilização gerou os mitos ligados às crenças de cada povo e às suas maneiras de ver o mundo. Entrelaçados com o desenvolvimento da linguagem e da filosofia, as narrativas mitológicas constituem-se em relatos sobre deuses, heróis e antepassados, estruturados em torno de arquétipos – modelos ideais que permanecem até hoje no inconsciente humano, segundo Carl Gustav Jung. Com o passar do tempo, as narrativas religiosas que constituíam os mitos perderam seu valor sagrado, mas permaneceram nas narrativas profanas que continuaram na boca do povo, mudando de forma, emigrando para novas terras, revestindo-se de novas roupagens e adereços...

No livro Contos Fantásticos do Século XIX, diz Ítalo Calvino sobre a literatura fantástica: “Seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção, e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê – coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossa mente; coisas habituais que talvez ocultem, sob a aparência mais banal uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora – é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidade inconciliáveis

...Na imensa lista de nomes ligados ao Romantismo, é difícil encontrar quem não tenha escrito ao menos alguns contos em que imperam o maravilhoso, o extraordinário, o fantasmagórico. Em alguns textos nos defrontamos tanto com seres míticos e fantasmas, quanto com cientistas insanos e detetives inusitados.

Texto de Luis Dolhnikoff





Harry Potter e Dan Brown




Há intelectuais que afirmam que é uma estupidez achar que Harry Potter forma futuros leitores. Para eles, leitores de Harry Potter serão no máximo, futuros leitores de Dan Brown, não de “ficção séria”. O argumento prossegue afirmando: quem assiste à telenovela não necessariamente assistirá a filmes de Godard e Bergman. Apesar de ser verdade que muitos jovens que se apaixonaram pela saga do bruxinho nunca mais lerão nada na vida, também é certo de que leitura não é uma atividade fácil!

Sou incentivador ferrenho da leitura, sou viciado em leitura, sou poeta. Mas, não suporto o apelo poético de que a leitura é um prazer! Obviamente que absolvo desse pensamento os adeptos do sadomasoquismo! Em um universo com dezenas de estímulos audiovisuais por todos os lados, retirar-se para um canto para ler será considerado cada vez mais um hábito excêntrico. A leitura, além de não permitir a passividade da televisão, exige o cultivo da solidão e do silêncio. Ler não é uma atividade natural. Dói os braço! Os óio! O lombo! Até o bumbum dói!

Essa é a verdade sobre a atividade de leitura, porque não dizer a verdade a esses jovens? Seria intencional tal omissão? Sim, dizer a verdade sobre a atividade de leitura diz respeito ao seu poder conscientização como cidadão, seu poder de esclarecimento!

Harry Potter e Dan Brown é o que estão lendo. Certo, vamos falar sobre eles: Que segundo mundo é esse J.R. criou? Como criou? O que ela quer dizer com isso, com aquilo? Existe magia? O que é magia? Alguém da turma sabe fazer uma mágica? Vamos aprender fazer mágica? Tudo bem, essa frase: Blá,blá e blá, está em que livro? O coral afinado da turma dirá - Código da Vinci!!! Não meus queridos essa frase está em Santo Graal e a Linhagem Sagrada, mas muito antes esteve na boca de Percival... é isso meus queridos, a mágica é manipular nossos desejos e até criá-los. Como ratinhos num laboratório, respondemos ao bombardeio de estímulos para roda jamais deixar de girar. Talvez não fosse a intenção de Dan Brown, mais ele nos ensina que o passado sempre volta! Na aula de hoje falamos muito da fantasia de Código da Vinci e da Magia de Harry Potter, mas a grade verdade é que falamos sobre nós mesmos!

Então? Venceremos o desafio de dizer a verdade sobre a atividade de leitura? Mesmo sabendo que isso irremediavelmente abarcará uma intensa oralidade em sala! Sei que hoje a opção, é silenciá-la.


Uma Tela de Computador




Mas, de repente, os saberes começaram a pulular fora dos limites da “escola tradicional”. Circulam livres no ar-sem depender de turmas, salas, aulas, programas, professores, livros-texto, dotados do poder divino da onipresença: o aprendiz aperta um botão e viaja instantaneamente pelo espaço.

Mas o fato é que ele se encontra diante de uma tela de computador. É um mundo virtual. Trata-se apenas de um meio. E é somente isso, essa alienação da realidade vital, que torna possível a sua imensidão potencialmente infinita. Mas, como disse McLuhan, “o meio é a mensagem”. E a “massagem”…

Há o perigo de que os fins, a vida, sejam trocados pelo fascínio dos meios-mais seguros e mais extensos. Fascinante esse novo espaço educativo. Não é preciso ser profeta para prever que ele irá se expandir além daquilo que podemos imaginar, especialmente em se considerando a sua ligação com interesses econômicos gigantescos. Mas é preciso perguntar: “Qual é o sentido desses meios para os milhões de pobres que não têm o que comer? E quais serão as consequências do seu fascínio virtual?”.

Por oposição ao conhecimento virtual, essas experiências de aprendizagem se constroem a partir dos problemas vitais com que os alunos se defrontam no seu cotidiano, no seu lugar, na sua particularidade. Não há programas universais definidos por uma burocracia ausente porque a vida não é programável.

Os desafios que enfrentam as crianças nas praias de Alagoas, nas favelas do Rio, nas matas da Amazônia e nas montanhas de Minas não são os mesmos. Além dos saberes que porventura venham a ser aprendidos, esses experimentos buscam o desenvolvimento da capacidade de ver, de maravilhar-se diante do mundo, de fazer perguntas e de pensar.

Tenho a esperança de que esses experimentos continuarão a pipocar, porque é neles que o meu coração se sente esperançoso.

RUBEM ALVES

O Papel da Leitura



Em termos de organização social, a leitura é um fator determinante em todas as relações desenvolvidas nos setores da atividade humana.

Através da interação com os textos, o leitor desenvolve uma visão crítica da realidade, sabe os motivos de as coisas serem como são. Ele interage com o texto, penetra nos referenciais construídos pelo autor, e desvenda-os, sem perder de vista os problemas e as necessidades do seu contexto.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O Problema da Leitura e a Leitura dos Problemas



...Allan Bloom, no seu O Declínio da Cultura Ocidental, queixa-se da falta de profundidade e altitude intelectual dos muitos jovens... A título de exemplo, conta que, perguntando aos alunos o que é o mal, obteve a resposta unânime e imediatista: "Hitler". Com efeito, Hitler não passa de uma referência histórica, é apenas uma imagem ou uma metáfora das crueldades do século XX, não uma definição metafisicamente válida do mal. Foi mau, mas não é o mal...


... Ou a pessoa se preenche de idéias, e se eleva, ou passa a caminhar no nível mais horizontalizante, que tende ao declive, ao infra-humano. E boa parte da plenitude intelectual de que tanto sentimos falta obtém-se na leitura, nessa agricultura mental que consiste em colher das palavras o sabor e a substância.

... Ler, na verdade, é mais do que decodificar um texto. A leitura eficiente vê o não escrito. Exatamente como devemos nós, ao consultar um plano de saúde que nos é proposto, deduzir os serviços e necessidades que não são cobertos pelo plano.

Uma leitura das entrelinhas é uma leitura meditada. Meditar, aceitando uma etimologia imaginária (mas muito sugestiva), é me ditar, é ditar-me palavras maduras, que nascem da reflexão, do desejo de ouvir em minha mente uma voz mais pura, mais verdadeira.

Voz capaz de sussurrar o que realmente é importante, ou seja, o que contribui para a humanização do homem, tão propenso a permitir que seus instintos mais baixos... falem mais alto.

A leitura não é uma fuga da realidade. É uma fuga para a realidade. Mas exige do leitor uma qualidade, um interesse, uma preocupação. O desejo sincero de encarar os grandes problemas, sem querer resolvê-los, dissolvê-los, extingui-los, como se o ser humano fosse onipotente...



... Ler é sonhar acordado. É acordar do falso sonho dos imediatistas. E despertar para a real função da linguagem: "exprimir as relações das coisas" (Simone Weil).

...o telejornal..., dentro dos quais um desastre aéreo, o nascimento de um jacarezinho no zoológico, o Dia das mães, a corrupção política, o Japão e o nordeste, a receita culinária e o assassino cruel são mostrados num mesmo plano, como se fossem todas as notícias importantes, sem um "porém", sem um "portanto" que os relacione, concretizando em nossas mentes, afinal, o absurdo, e nos deixando sem ação, a leitura inteligente que faz pensar, inteligir (intus + legere = ler dentro), torna-se condição de sobrevivência.

Ler ou não ser. Ler ou não ver. Ler ou não ter a força criativa de organizar com os olhos o volume e o peso do caos.


Autor Gabriel Perissé
TEXTO NA INTEGRA AQUI