quinta-feira, 2 de abril de 2015

O leitor e o narrador solidário



O narrador, distante dos fatos narrados, não se interpõe entre o leitor e o texto, pelo contrario, propõe um distanciamento, e o leitor obriga-se a compreender a historia, a partir das poucas indicações dadas.

Os narradores assumem postura democrática ou, por não se darem conta da complexidade de algumas personagens, cedem-lhes a voz e elas assumem a narração. Quem vive a ação pode ser o porta-voz dos fatos, propiciando mais veracidade ao relato, e ainda priorizando a liberdade. A apresentação de diferentes perspectivas de um mesmo fato pode ser entendida como um ato de solidariedade ao leitor. Além disso, quando outras personagens contam suas historias, podemos dizer que o leitor encontra brechas que lhe permitem sair da trama da narrativa.

Ao se deparar com estes narradores, o leitor encontra algo que lhe é util. Essa utilidade pode consistir num preceito moral, numa sugestão pratica, num provérbio ou num principio de vida que constituirão um padrão de comportamento assentado na generosidade, na tolerância, no respeito, na solidariedade. A partir desses valores, o leitor poderá apresentar virtudes que se erguem contra a intransigência e a opressão. Mesmo assim, esse dar conselhos parece ao leitor algo inadequado, já que as experiências estão deixando de ser comunicáveis. Portanto, esse leitor se depara com um narrador que verbaliza a comunicação narrativa de uma forma que ele se encontra nela e assim alcança a sabedoria que lhe será util. Dessa forma, aconselhar e menos responder a uma pergunta do que fazer uma sugestão ao leitor sobre a continuação de uma historia que esta sendo narrada. Para obter essa sugestão, o narrador necessita saber narrar a historia (sem contar que um homem só e receptivo a um conselho na medida em que verbaliza a sua situação). Narrador e leitor interagem, são cúmplices, e o conselho tecido na substancia viva da existência passa a ter um nome: sabedoria (Ibidem, p. 200).

O leitor, muitas vezes, não precisa refletir, já que encontra personagens e situações que se revelam diretamente a ele sem a intervenção do narrador, mas deixa que os fatos atuem sobre a sua sensibilidade, através do discurso direto, privilegiado pelas narrativas, com sua capacidade de comunicação em reproduzir as palavras das personagens sem subordiná-las as do narrador. Assim, a utilização progressiva desse recurso aproxima-se da estrutura dialogada. Esse modo de expressão lingüística acentua a situação vital de cada uma das protagonistas, que são descritas em uma linguagem mais próxima da vida real e que se entregam ao leitor em um jogo afetivo.

Quando encontra vocábulos aparentemente desconhecidos, o leitor é capaz de preencher brechas trazidas pela narrativa. Como no exemplo em que Alice não tinha a menor ideia do que fosse uma latitude ou uma longitude. Nesse trecho da obra, o narrador não explica o significado dessas palavras, deixando que o leitor construa a sua significação. Esse leitor apreende significados de novos vocábulos sem que isto seja feito de maneira explicativa, porque e capaz de realizar associações. Em Narizinho Arrebitado, o narrador apresenta o seguinte episodio: “Nisto apareceu ao longe um formidável espadarte. Vinha com o seu comprido esporão de pontaria feita para o cetáceo, que e como os sábios chamam a baleia” (LOBATO, 2005, p. 12). Ele traz uma explicação para cetáceo. Assim o leitor amplia o seu vocabulário. Essa situação aponta solidariedade.

O leitor contemplativo, meditativo



Desde Idade Média, quando se instituiu que a leitura nas bibliotecas seria feita em silêncio, uma grande mudança ocorreu no processo de entendimento de um texto: depois de séculos a leitura passaria a ser algo muito mais íntimo e pessoal, sem a presença de um orador, sem interferências externa e apenas feita pelo movimento dos olhos e o virar das páginas. É nesse momento que nasce o leitor contemplativo. Esse tipo de leitor se isenta de situações mundanas para se concentrar na leitura, numa atividade solitária, que pode ser interrompida para reflexão, retornada, feita novamente por dezenas de vezes até que o entendimento seja feito do modo desejado. É o leitor que procurou o isolamento para absorção do conteúdo, que não se preocupa com quanto tempo faz que esteja lendo nem tem pressa pra terminar. Da mesma maneira poderiam “ler” quadros ou esculturas numa galeria ou admirar e perceber a arquitetura que o cerca.

http://designices.com/os-3-tipos-de-leitores-contemplativo-movente-e-imersivo/