quinta-feira, 2 de abril de 2015

Ler, quase como respirar



Cego, Jorge Luis Borges aperta os olhos para melhor escutar as palavras de um leitor que não se vê. Aos quatro anos de idade descobri pela primeira vez que podia ler. Eu tinha visto uma infinidade de vezes as letras que sabia (porque tinham me dito) serem os nomes das figuras colocadas sob elas. Foi como adquirir um sentido inteiramente novo, de tal forma que as coisas não consistiam mais apenas no que os meus olhos podiam ver, meus ouvidos podiam ouvir, minha língua podia saborear, meu nariz podia cheirar e meus dedos podiam sentir, mas no que o meu corpo todo podia decifrar, traduzir, dar voz a, ler... Ler as letras de uma página é apenas um de seus muitos disfarces. O astrônomo lendo um mapa de estrelas que não existem mais; o arquiteto japonês lendo a terra sobre a qual será erguida uma casa, de modo a protegê-la das forças malignas; o zoólogo lendo os rastros de animais na floresta; o jogador lendo os gestos do parceiro antes de jogar a carta vencedora; a dançarina lendo as notações do coreógrafo e o público lendo os movimentos da dançarina no palco; o Tecelão lendo o desenho intrincado de um tapete sendo tecido; o organista lendo várias linhas musicais simultâneas orquestradas na página; os pais lendo no rosto do bebê sinais de alegria, medo, admiração; o adivinho chinês lendo as marcas antigas na carapaça de uma tartaruga; o amante lendo cegamente o corpo amado à noite, sob os lençóis; o psiquiatra ajudando os pacientes a ler seus sonhos pertubadores; o pescador havaiano lendo as correntes do oceano ao mergulhar a mão na água; o agricultor lendo o tempo no céu - todos eles compartilham com os leitores de livros a arte de decifrar e traduzir signos. Algumas dessas leituras são coloridas pelo conhecimento de que a coisa lida foi criada para aquele propósito específico por outros seres humanos...

E, contudo, em cada caso é o leitor que confere a um objeto, lugar ou acontecimento certa legibilidade possível, ou que a reconhece neles; é o leitor que deve atribuir significado a um sistema de signos e depois decifrá-lo. Lemos a nós mesmos e ao mundo à nossa volta para vislumbrar o que somos e onde estamos. Lemos para compreender, ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase como respirar, é nossa função essencial.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Leitura tem uma história



Uma coisa pode ser dita da história da leitura. Sua cronologia não pode ser a mesma da história política. O escriba sumério para quem a leitura era uma prerrogativa muito valorizada tinha um sentimento mais intenso de responsabilidade do que o leitor de hoje em Nova York ou Santiago, pois um artigo da lei ou um acerto de contas dependia de sua exclusiva interpretação. Os métodos de leitura da Idade Média, definindo quando e como ler, distinguindo, por exemplo, entre o texto a ser lido em voz alta e aquele a ser lido em silêncio, estavam muito mais claramente estabelecidos do que aqueles ensinados na Viena fin-de-siècle ou na Inglaterra eduardiana. Uma história da leitura também não pode seguir a sucessão coerente da história da crítica literária; os receios expressos pela mística do século XIX Anna Katharina Emmerich (de que o texto impresso jamais se equipararia à sua própria experiência) foram expressos de forma muito mais forte 2 mil anos antes, por Sócrates (para quem os livros eram um empecilho à aprendizagem), e, em nossa época, pelo crítico alemão Hans Magnus Enzensberger (que elogiou o analfabetismo e propôs a volta à criatividade original da literatura oral). Essa posição foi refutada, entre outros, pelo ensaísta americano Allan Bloom. Com esplêndido anacronismo, Bloom foi emendado e melhorado por seu precursor, Charles Lamb, o qual confessou, em 1833, que amava perder-se "na mente de outros homens. Quando não estou andando, estou lendo; não posso sentar e pensar, os livros pensam para mim. A história da leitura também não corresponde às cronologias das histórias da literatura, pois a história da leitura de um determinado autor encontra muitas vezes um começo não com o primeiro livro desse autor, mas com um dos futuros leitores dele: o marquês de Sade foi resgatado das estantes condenadas da literatura pornográfica, onde seus livros jaziam havia mais de 150 anos, pelo bibliófilo Maurice Heine e pelos surrealistas franceses. William Blake, ignorado por mais de dois séculos, começa em nossa época com o entusiasmo de sir Geoffrey Keynes e Northrop Frye, que o tornaram leitura obrigatória em todos os currículos escolares.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004