quinta-feira, 2 de abril de 2015

Leitura superficial



Essa leitura é realizada após a leitura de averiguação onde você será capaz de obter muito sobre o livro, e se ele vale uma leitura analítica. Se não valer, nem por isso deixará de saber as idéias principais do autor, que tipo de obra escreveu e ampliar sua cultura geral, quem sabe deixando o livro para uma consulta futura.

Mas suponhamos que o livro valha a pena e você opte por lê-lo de fato, ou, o que é bem possível, simplesmente tenha de lê-lo por obrigação. Ao fim de algumas páginas atentas, você descobre que a obra é complexa. Muito complexa. Você chega à página 15 e se dá conta de que não está entendendo as coisas como deveria, e torna a ler do começo. Esbarra em algumas palavras ou frases obscuras, tenta decifrá-las e descobre que está perdendo muito mais tempo do que gostaria empacado nas primeiras páginas. E a leitura se torna uma angústia.

Os leitores de primeira viagem de literatura clássica talvez se identifiquem com essa situação. Qualquer curioso mediano que, na adolescência, tenha tentado ler Shakespeare ou Camões, ou simplesmente um poema nas aulas de Literatura, foi sério candidato a esse tipo de frustração. Para alguns, entender a Teoria da Relatividade pode ser muito mais simples que ler Machado de Assis.
"O enorme prazer que vem de ler Machado de Assis, por exemplo, foi estragado para gerações de estudantes secundários que eram forçados a avançar pagina a pagina, decifrando todas as palavras estranhas num glossário e estudando todas as notas acadêmicas de rodapé. O resultado disso é que eles nunca leram de fato Machado de Assis. Quando eles chegavam ao final, já tinham esquecido o início e já tinham perdido a visão de conjunto. Em vez de serem forçados a adotar essa abordagem pedante, eles deveriam ser encorajados a ler de uma vez só e discutir o que tivessem assimilado desta primeira e rápida leitura. Só então eles estariam prontos para estudar o livro cuidadosamente, porque já teriam entendido o suficiente sobre ele para aprenderem mais."

Leia sem se angustiar pelos pontos obscuros, pelas notas de rodapé herméticas, pelos neologismos mal-explicados e as referências exóticas. Essa primeira leitura, aqui chamada de "superficial" no sentido positivo, serve para nos familiarizar com a obra em todos os seus aspectos: idéias centrais, estilo, vocabulário etc. Ela vai identificar os pontos mais ou menos difíceis, vai nos sinalizar para o tipo de ajuda de que talvez possamos precisar, vai nos preparar, enfim, para a segunda leitura e o alargamento da compreensão -- o benefício mais duradouro de uma boa leitura.

Pode ser que tenham nos ensinado justamente o contrário. Muitos pais e instrutores bem intencionados ensinam a procurar no dicionário qualquer termo obscuro, ou pesquisar sobre algum tema desconhecido que surja no texto. Isso não está errado, mas deve ser feito no momento certo, sem interromper a leitura inicial. Especialmente porque esses detalhes geram uma angústia que tornam a leitura uma atividade penosa.

Leitura segundo Jouve



Para Jouve (2002, p. 17) “a leitura é uma atividade complexa, plural, que se desenvolve em várias direções” e é um processo que possui cinco dimensões. Primeiro, um processo neurofisiológico, levando-se em conta o aparelho visual e as diferentes funções do cérebro. “Ler é, anteriormente a qualquer análise de conteúdo, uma operação de percepção, de identificação e de memorização de signos”. Em segundo lugar, trata-se de um processo cognitivo, que é quando o leitor, depois de perceber e decifrar os signos, “tenta entender do que se trata”.

Nesse momento, é solicitada a competência do leitor. O terceiro processo é afetivo. “As emoções estão de fato na base do princípio de identificação, motor essencial da leitura de ficção.” (p. 19) São as emoções provocadas pelo texto ficcional no leitor que selam com ele o contrato que o levará a continuar a leitura. Para a semiótica, pode-se dizer que aí entram os estudos da paixão no texto. Em quarto lugar, a leitura é considerada por Jouve um processo argumentativo, um discurso de um autor que quer convencer seu leitor de algo. “Qualquer que seja o tipo de texto, o leitor, de forma mais ou menos nítida, é sempre interpelado. Trata-se para ele de assumir ou não para si próprio a argumentação desenvolvida.” (p. 22). Essa afirmativa corrobora a idéia da existência de um contrato de continuidade de leitura feito entre autor e leitor. É preciso que esse contrato seja aceito pelo leitor para que aconteça e se valide a leitura. O quinto e último processo é colocado como simbólico, querendo-se falar com isso da interação da leitura com a cultura e com os esquemas dominantes de um meio ou uma época. A época modifica o modo de leitura de uma obra, e uma obra pode também, por sua vez, modificar o modo de ler dos leitores de determinada época.