quinta-feira, 2 de abril de 2015

Incunábulos



Os incunábulos – do latim “in cuna” (no berço) foram os primeiros livros impressos na invenção da imprensa tipográfica dentre o período de 1455 a 1500 quando surgiu um novo método de impressão.
Os incunábulos são os precursores do livro como hoje conhecemos; representam a evolução da arte da impressão até atingir a sua maturidade, a transição das tradições artísticas e eruditas para métodos mais modernos e profissionais. Os primeiros incunábulos se assemelhavam aos manuscritos: não havia nenhuma informação na primeira folha, os tipos imitavam a caligrafia da época, inclusiva nas ligaduras e abreviações.

Fonte
MONOGRAFIA DE CONCLUSÃO DO CURSO DE BIBLIOTECONOMIA
AUTOR: FERNANDO MUSTAFÁ COSTA
Orientador: Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro
São Paulo, 05 de dezembro de 2009
TCC_Bibliofilia_Fernando Mustafa
Endereço para PDF na integra:

Formato livro -06



A invenção de novas formas para livros é provavelmente infinita e, contudo poucas formas estranhas sobrevivem. O livro em forma de coração feito por volta de 1475 por um clérigo obre, Jean de Montchenu, contendo poesias líricas iluminadas; o minúsculo livrete na mão direita de uma jovem holandesa da metade do século XVII, pintada por Bartholomeus van der Helst; o menor livro do mundo, o Bloemhofje ou Jardim fechado, que foi escrito na Holanda em 1673 e mede 0,8 por 1,25 centímetro, menor que um selo comum; o descomunal in-fólio de James Audubon, Birds of Arnerica [Pássaros da América], publicado entre 1827 e 1838, levando o autor a morrer pobre, sozinho e louco; o par de volumes de tamanho liliputiano e gigantesco das Viagens de Gulliver, criados em 1950 por Bruce Rogers para o Clube das Edições Limitadas de Nova York - nenhum desses perdurou, exceto como curiosidade. Mas os formatos essenciais - aqueles que permitem ao leitor sentir o peso físico do conhecimento, o esplendor de grandes ilustrações ou o prazer de poder carregar um livro numa caminhada ou levá-lo para a cama – esses permanecem.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Formato livro -05



Em Devon, o editor inglês Allen Lane, esperando o trem para voltar a Londres, procurou algo para ler na banca de livros da estação. Não achou nada que o atraísse entre as revistas populares, os livros de capa dura, e a ficção barata, ocorrendo-lhe então que era necessária uma linha de livros de bolso baratos, mas bons. De volta a The Bodley Head, onde trabalhava com seus dois irmãos, Lane pôs o plano em ação. Publicariam uma coleção de reimpressões dos melhores autores em brochuras bem coloridas. Elas não atrairiam apenas o leitor comum: seriam uma tentação para todos que soubessem ler, intelectuais ou ignorantes. Os livros seriam vendidos não apenas em livrarias e bancas de livros, mas em papelarias, tabacarias e casas de chá.

Na The Bodley Head, o projeto foi recebido com desprezo pelos colegas mais velhos de Lane e pelos editores, que não tinham interesse em vender-lhe direitos de reimpressão de seus sucessos em capa dura. Os livreiros também não se entusiasmaram, pois seus lucros diminuiriam e os livros seriam "embolsados", no sentido condenável da palavra. Mas Lane perseverou e acabou obtendo permissão para reimprimir vários títulos: dois já publicados por The Bodley Head - Ariel, de André Maurois, e The mysterious affair at Styles, de Agatha Christie - e outros de autores de sucesso, como Ernest Hemingway e Dorothy L. Sayers, além de obras de escritores atualmente menos conhecidos como Susan Ertz e E. H. Young.  Agora Lane precisava de um nome para sua coleção, "não um nome impressionante como World Classics, nem meio condescendente como Everyman". As primeiras escolhas foram zoológicas: um golfinho, depois uma toninha (já usada pela Faber & Faber) e finalmente um pingüim. Ficou assim: Penguin.

Em 30 de julho de 1935, os primeiros dez livros da Penguin foram lançados a 6 pence cada volume. Lane havia calculado que quebraria mesmo se vendesse 17 mil exemplares de cada título, mas as primeiras vendas não passaram nem de 7 mil. Ele então foi visitar o comprador da enorme cadeia de lojas Woolworth, um tal de Clifford Prescott, que vacilou: a idéia de vender livros como qualquer outra mercadoria, junto com pares de meias e latas de chá, parecia-lhe um tanto ridícula. Por acaso, naquele exato momento a senhora Prescott entrou no escritório do marido. Consultada sobre o que achava da idéia, manifestou-se com entusiasmo. Por que não, perguntou ela? Por que não tratar os livros como objetos do dia-a-dia, tão necessários e tão disponíveis quanto meias e chá? Graças à senhora Prescott, fechou-se o negócio. George Orwell resumiu sua reação, como leitor e como autor, a essa novidade: "Na qualidade de leitor, aplaudo os Penguin Books; na qualidade de escritor, excomungo-os. [...] O resultado poderá ser uma inundação de reimpressões baratas que irão prejudicar as bibliotecas circulantes (a madrasta do romancista) e restringir a publicação de novos romances. Isso seria uma coisa excelente para a literatura, mas péssima para o negócio”. Orwell estava errado. Mais do que suas qualidades específicas (a ampla distribuição, o custo baixo, a excelência e variedade dos títulos), a grande realização da Penguin foi simbólica: saber que uma coleção imensa de literatura podia ser comprada por quase todas as pessoas em quase todos os lugares, deu aos leitores um símbolo de sua própria ambigüidade.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Formato livro -04



Uma vez que eram mais baratos do que os manuscritos, em especial os iluminados, e tendo em vista que se podia comprar um substituto idêntico caso algum exemplar se perdesse ou fosse danificado, esses livros tornaram-se, aos olhos dos novos leitores, símbolos não tanto de riqueza mas de aristocracia intelectual, além de ferramentas essenciais de estudo. Os livreiros e papeleiros haviam produzido, no tempo da Roma antiga e nos primórdios da Idade Média, livros como mercadoria a ser comerciada, mas o custo e o ritmo de sua produção engrandeciam os leitores com uma sensação de privilégio por possuírem algo único. Depois de Guttenberg, pela primeira vez na história centenas de leitores possuíam exemplares idênticos do mesmo livro, e (até que um leitor imprimisse no volume marcas particulares e uma história pessoal) o - livro lido por alguém em Madri era o mesmo lido por alguém em Veneza. O empreendimento de Aldus teve tanto sucesso que suas edições logo foram imitadas em toda a Europa: na França, por Gryphius, em Lyon, bem como por Colines e Robert Estienne em Paris: nos Países Baixos, por Plantin em Antuérpia e Elzevir em Leiden, Haia Utrecht e Amsterdã. Quando Aldus morreu, em 1515, os humanistas que compareceram ao funeral colocaram em torno de seu caixão, como sentinelas eruditas, os livros que escolhera com tanto carinho para imprimir.

O exemplo de Aldus e de outros como ele estabeleceu o padrão para no mínimo cem anos de impressão na Europa. Mas, nos dois séculos seguintes, as exigências dos leitores mudaram novamente. As numerosas edições de livros de todo tipo ofereciam uma escolha ampla demais; a competição entre editores, que até então apenas estimulara edições melhores e o interesse maior do público, começou a produzir livros de qualidade muitíssimo inferior. Na metade do século XVI, um leitor poderia escolher entre mais de 8 milhões de livros impressos, "talvez mais do que todos os escribas da Europa haviam  produzido desde que Constantino fundara sua cidade no ano de 330". Obviamente, essas mudanças não foram súbitas nem ocorreram em toda a Europa, mas, em geral, a partir do final do século XVI "os livreiros-editores já não estavam preocupados em prestigiar o mundo das letras: buscavam apenas publicar livros cuja venda fosse garantida. Os mais ricos fizeram fortuna em cima de livros com mercado garantido, reimpressões de velhos sucessos, obras religiosas tradicionais e, sobretudo, dos Pais da Igreja". Outros monopolizaram o mercado escolar com glosas de palestras eruditas, manuais de gramática e folhas para hornbooks, uma espécie de cartilha.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Formato livro -03



O súbito aumento da produção de livros depois de Gutenberg enfatizou a relação entre o conteúdo e a forma física de um livro. Por exemplo: uma vez que se destinava a imitar os caros volumes feitos à mão da época, a Bíblia de Gutenberg era comprada em folhas reunidas e encadernada pelos compradores em grandes e imponentes tomos - em geral in-quartos medindo cerca de trinta por quarenta centímetros destinados a ficar expostos sobre um atril. Mas a produção rápida e barata levou a um mercado maior, composto por gente que podia comprar exemplares para ler em particular e que, portanto, não precisava de livros com tipos e formatos grandes; os sucessores de Gutenberg começaram então a produzir volumes menores, volumes que cabiam no bolso.

À medida que as bibliotecas particulares cresciam, os leitores começaram a achar os volumes grandes não apenas difíceis de manusear e desconfortáveis para levar de um lado a outro, como inconvenientes para guardar. Em 1501, confiante no sucesso de suas primeiras publicações, Aldus respondeu à demanda dos leitores produzindo uma coleção de livros de bolso in-octavo - metade do tamanho do in-quarto -, impressos com elegância e editados meticulosamente. Para manter baixos os custos da produção, decidiu imprimir mil exemplares de cada vez, e, para usar a página de forma mais econômica, utilizou um tipo recém-desenhado, o itálico ou grifo, criado pelo talhador e fundidor de tipos Francesco Griffo, que também talhou o primeiro tipo romano no qual as maiúsculas eram menores do que as letras ascendentes (altura total) da caixa baixa, a fim de assegurar uma linha mais equilibrada. O resultado foi um livro que parecia muito mais simples do que as edições manuscritas ornamentadas, aquelas que haviam sido populares durante toda a Idade Média. O mais importante para o possuidor de uma edição de bolso de Aldus era o texto, impresso com clareza e erudição - não um objeto ricamente decorado. Um sinal de sua popularidade pode ser visto na Lista de preços das prostitutas de Veneza, de 1536 - um catálogo das melhores e piores madames profissionais da cidade, no qual o viajante era informado sobre certa Lucrezia Squarcia, "que se diz amante da poesia" e sempre "traz consigo um livreto de Petrarca, um Virgílio e às vezes até um Homero".

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Formato livro -02



Os efeitos da invenção de Gutenberg foram instantâneos e de alcance extraordinário, pois quase imediatamente muitos leitores perceberam suas grandes vantagens: rapidez, uniformidade de textos e preço relativamente barato. Poucos anos depois da impressão da primeira Bíblia, máquinas impressoras estavam instaladas em toda a Europa: em 1465 na Itália, 1470 na França, 1472 na Espanha, 1475 na Holanda e na Inglaterra, 1489 na Dinamarca. (A imprensa demorou mais para alcançar o Novo Mundo: os primeiros prelos chegaram em 1533 à Cidade do México e em 1638 a Cambridge, Massachusetts.) Calculou-se que mais de 30 mil in cunabula (palavra latina do século XVII que significa "relacionado ao berço", usada para descrever os livros impressos antes de 1500) foram produzidos nesses prelos. Visto que as edições do século XV costumaram ser de menos de 250 exemplares e dificilmente chegavam a mil, a façanha de Gutenberg deve ser considerada prodigiosa. De repente, pela primeira vez desde a invenção da escrita, era possível produzir material de leitura rapidamente e em grandes quantidades.

Talvez seja útil não esquecer que a imprensa, apesar das óbvias previsões de "fim do mundo", não erradicou o gosto pelo texto escrito à mão. Ao contrário, Gutenberg e seus seguidores tentaram imitar a arte dos escribas, e a maioria dos incunabula tem uma aparência de manuscrito. No final do século XV, embora a imprensa estivesse bem estabelecida, a preocupação com o traço elegante não desaparecera e alguns dos exemplos mais memoráveis de caligrafia ainda estavam por vir. Ao mesmo tempo em que os livros se tornavam de acesso mais fácil e mais gente aprendia a ler, mais pessoas também aprendiam a escrever, freqüentemente com estilo e grande distinção; o século XVI tornou-se não apenas a era da palavra escrita, como também o século dos grandes manuais de caligrafia. É interessante observar a freqüência com que um avanço tecnológico -como o de Gutenberg - antes promove do que elimina aquilo que supostamente deve substituir, levado-nos a perceber virtudes fora de moda que de outra forma não teríamos notado ou que consideraríamos sem importância. Em nosso tempo, a tecnologia dos computadores e a proliferação de livros em CD-Rom não afetaram – até onde mostram as estatísticas - a produção e venda de livros na antiquada forma de códice.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Formato livro -01



A argila era conveniente para fazer tabuletas e o papiro (as hastes secas e divididas de uma espécie de junco) podia ser transformado em rolos manuseáveis; ambos eram relativamente portáteis. Mas nenhum dos dois era próprio para a forma de livro que substituiu tabuletas e rolos: o códice, ou feixe de páginas encadernadas. Um códice de tabuletas de argila seria pesado e impraticável, e, embora tenha havido códices feitos de papiro, esse material era quebradiço demais para ser dobrado em brochuras. Por outro lado, o pergaminho ou o velino (ambos feitos de peles de animais, mediante procedimentos diferentes) podiam ser cortados ou dobrados em diversos tamanhos. Segundo Plínio, o Velho, o rei Ptolomeu do Egito, desejando manter como segredo nacional a produção do papiro, a fim de favorecer sua biblioteca de Alexandria, proibiu a exportação do produto, forçando assim seu rival Eumenes, soberano de Pérgamo, a descobrir um outro material para os livros de sua biblioteca. A crer em Plínio, o édito do rei Ptolomeu levou à invenção do pergaminho em Pérgamo no século II a. C., embora os documentos mais antigos em pergaminho que conhecemos hoje datem de um século antes. Esses materiais não eram usados exclusivamente para um tipo de livro: havia rolos feitos de pergaminho e, como dissemos, códices feitos de papiros, mas eram raros e pouco práticos. No século IV e até o aparecimento do papel na Itália, oito séculos depois, o pergaminho foi o material preferido em toda a Europa para fazer livros. Era mais resistente e macio que o papiro, como também mais barato, uma vez que o leitor que quisesse livros escritos em papiro (apesar do decreto de Ptolomeu) teria de importá-los do Egito a um custo considerável.

Em algum momento da década de 1440, um jovem gravador e lapidador do arcebispado da Mogúncia, cujo nome completo era Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg (que o espírito prático do mundo dos negócios abreviou para Johann Gutenberg), percebeu que se poderia ganhar em rapidez e eficiência se as letras do alfabeto fossem cortadas na forma de tipos reutilizáveis, e não como os blocos de xilogravura então usados ocasionalmente para imprimir ilustrações. Gutenberg experimentou durante muitos anos, tomando emprestadas grandes quantias de dinheiro para financiar o empreendimento. Conseguiu criar todos os elementos essenciais da impressão tais como foram usados até o século XX: prismas de metal para moldar as faces das letras, uma prensa que combinava características daquelas utilizadas na fabricação de vinho e na encadernação, e uma tinta de base oleosa - nada que já existisse antes. Por fim, entre 1450 e 1455 Gutenberg produziu uma Bíblia com 42 linhas por página - o primeiro livro impresso com tipos - e levou as páginas impressas para a Feira Comercial de Frankfurt. Por um extraordinário golpe de sorte, temos uma carta de um certo Enea Silvio Piccolomini ao cardeal de Carvajal, datada de 12 de março de 1455, em Wiener Neustadt, contando a Sua Eminência que vira a Bíblia de Gutenberg na feira.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Ficção especulativa



Considerando-se o conteúdo das narrativas de ficção científica e dos textos especulativos, duas alternativas de futuro se desenham: as utopias, constituídas de mundos idílicos em que a superação das mistificações combina-se com justiça social e relações éticas idealizadas, e as distopias, apresentadas como descrições sombrias de lugares fora da história em que tensões sociais são resolvidas ou controladas por meio da violência ou da força. As utopias, “sonhos da razão”, se caracterizam por parecerem irreais, contrastando com a irracionalidade reinante nas relações sociais, enquanto as distopias, caracterizadas na imaginação literária do século XX pela fúria dominadora da racionalidade, assinalam que “o sonho da razão produziu monstros”.
As distopias induzem, assim, a uma reflexão crítica sobre discursos fundadores da modernidade: a noção de progresso e a fé na ciência e na tecnologia como solução para os problemas. A ambiguidade e a contradição com que a noção de “progresso” afetou vidas, sociedades, sistemas e meio ambiente ao longo do século XX resultam num questionamento imediato sobre o caos do progresso.
Ao trazer para o leitor a possibilidade de antecipar na imaginação as possíveis decorrências das ações, a ficção científica especulativa distópica, tem um caráter de narrativa mítica que leva o leitor a contemplar, no presente, “as ruínas do futuro”. Grandes dificuldades se apresentam a quem se dedica ao esforço de imaginar um futuro – de um presente em crise –, implicando também em diálogos com o passado, não num trabalho mnemônico que vise ao mero relato histórico, mas sim na tentativa de compreensão de suas trajetórias e percursos sociais, históricos, econômicos, ecológicos e éticos.
Olhar para o passado com a consciência do que aconteceu posteriormente requer sempre o apelo à relativização, posto que tal digressão pode induzir a anacronismos, mas tal tarefa se coloca e se impõe em momentos de crise e esta análise pode ser fundamental para uma revisão vital do olhar que se pode lançar não sobre o passado, mas sim sobre o devir e a construção do futuro.
A literatura de ficção científica também possibilita ao leitor o exercício imaginativo de se colocar no lugar do homem do futuro, de viver a realidade do cenário diegético, de sentir, pensar e agir num mundo virtual e de lá olhar o presente com os olhos do outro.
As distopias literárias constantemente abordam temas ou contextos que atingem pontos-chave dos perigos e temores que assombram a humanidade quando confrontada com o futuro, resultando na construção de cenários que são sínteses das questões fundamentais ligadas aos problemas e decorrências da civilização ocidental, bem como dos percursos por ela trilhados, fazendo refletir tanto para frente quanto para trás.
Assim, textos escritos há mais de um século já colocavam questões sociais e ambientais que se tornaram paulatinamente mais próximas da realidade dos leitores, ainda que no momento em que foram escritos tais contextos poderiam parecer prenúncios apocalípticos impossíveis.
Chamado a preencher os hiatos do percurso entre a sua atualidade concreta e o cenário futuro criado no texto de ficção literária, o leitor constrói trajetórias para a humanidade, para a sociedade planetária, ou mesmo para as comunidades interpretativas a que pertence, incluindo, nesta perspectiva, o que concerne ao possível e ao impossível, às aspirações, aos desejos projetados, aos medos e perigos prenunciados, à cíclica recorrência de fatos históricos ou ao temor do desconhecido. Como outros mitos, a ficção científica também tem uma dimensão cosmogênica, só que nela a cosmogenia é metafórica e se opera ao contrário: ao invés de organizar os mundos ancestrais e origens ontológicas, o mito criado na narrativa da ficção científica descreve acontecimentos futuros que se originam nas possíveis ações do presente.
Ao lidar com medos e temores contemporâneos, a ficção especulativa resulta abordando as consequências, trajetórias, decorrências, problemas históricos e atuais da civilização ocidental, conclamando o leitor à reflexão e implicando também num duplo envolvimento, tanto emocional quanto racional, com a temática abordada, o que sugere a literatura como ampliadora da capacidade de mobilização crítica do leitor frente à realidade e o aumento do grau de consciência dos problemas contemporâneos.

O medo faz parte das decorrências do progresso da civilização. À palavra “progresso” aproxima-se, de início, um campo semântico positivo, na significação de um avanço contínuo em direção a algo melhor, ligando-se à noção de êxito, de coisa desejável. Entretanto, ao progresso associa-se também o medo, sentimento ancestral humano que se relaciona a perigo, a algo a ser evitado, ao que não apenas se rejeita como também se deve fugir, com forte significação cultural negativa. Este duplo caráter do progresso e do avanço técnico-científico é a quinta-essência da civilização e do homem moderno, inserido numa sociabilidade fundada em paradoxos. E é o núcleo argumentativo da literatura especulativa.
Não se deve, contudo, pensar a literatura de ficção científica como instrumento de mera antecipação de questões científicas, sociais, tecnológicas, políticas, econômicas, ambientais ou de ferramenta para a proposição de possíveis soluções. Pelo contrário, o que há de se considerar é a imensa potencialidade que carrega para estabelecer, por meio do pulsar estético da arte, terrenos fecundos para o pensamento crítico sobre temas contemporâneos, como identidade, ética, responsabilidade, meio ambiente e futuro, mobilizando sujeitos-leitores para uma existência mais responsável e prudente. A catarse literária pode viabilizar a contemplação das ruínas do futuro e dar ao leitor a chance de uma reflexão crítica mais abrangente, uma visão imaginária das possibilidades (perversas ou utópicas) de construção coletiva do porvir. E a literatura de ficção científica, relacionando palavras, memória e futuro, pode alcançar, assim, funções heurísticas e educativas adicionais às estéticas.


Ficção científica, interdisciplinar



A digressão é a alma do intelecto.  (Ray Bradbury).
A análise de temas associados à literatura de ficção científica implica numa ponderação inicial sobre o lugar marginal a que a crítica comumente a tem condenado. Constantemente considerada pouco digna de estudos acadêmicos ou relegada à condição de “subliteratura”, a ficção científica tem enfrentado a pecha de mero diletantismo barato, literatura pulp, “dime novel”. O autor de Fahrenheit 451, Ray Bradbury, inicia seu posfácio num tom que ironiza tais críticas: “Eu não sabia, mas estava literalmente escrevendo um romance barato. Na primavera de 1950, escrever e finalizar a primeira versão de The Fire Man, que mais tarde se tornou Fahrenheit 451, custou-me nove dólares”. Este gênero de narrativa literária tem sido acusado de simplificações na narrativa, a que afirmam ser pouco elaborada em sua forma, voltada a uma grande massa de leitores e, portanto, condenada, a priori, a uma suposta mediocridade, a despeito de um ou outro autor (ou obra) que se mencione como exceção. Se tais argumentos aparentemente a desclassificam, por um lado, como objeto “sério” de estudo literário, por outro também sugerem a necessidade de uma inversão na ótica de análise valorizando-se mais o conteúdo diegético que o discurso narrativo, ampliando a ênfase do significado e atribuindo-se maior significância ao texto como forma simbólica e ao seu teor interdisciplinar ativado no processo de leitura e na construção de memórias.
O cerne dessa forma de escrita é o estabelecimento de um cenário virtual situado num futuro inexistente, mas plausível frente aos indícios do presente. Em tal construção diegética (que abrange, como em outras narrativas literárias, personagens, eventos, temporalidade, espacialidade e sociabilidade) operam elementos míticos que, via de regra, relacionam-se à representação do mundo moderno em seus arquétipos mais recorrentes: automação, tecnologia, robótica, dominação, alienação...
A elaboração estética da linguagem, a essência do texto literário, neste caso, é posta a serviço da construção do cenário futurista, utilizando-se, muitas vezes, uma linguagem mais próxima das situações de fala da comunicação cotidiana, ou mesmo abdicando-se do uso de formas mais elaboradas ou complexas encontradas em outros tipos de textos literários. Podendo se servir de discursos orientados pela clareza da comunicação em detrimento de uma linguagem mais rebuscada em que predomine a conotação ou a ênfase no significante, a literatura de ficção científica orienta, com constância, a sua elaboração estética pela valorização do significado. Organiza sua base sintática, semântica e estrutural em função do que é, em essência, seu objetivo maior: o conteúdo, a ocupação do presente por um futuro imaginário que se revela ao leitor entrelaçado nas formas mais simples da linguagem do cotidiano, utilizada, no geral, fora do âmbito da arte, e aqui, a serviço dela.

Em outras palavras, o predomínio do significado pode ser considerado uma das particularidades estéticas da literatura de ficção científica. No ato de ler, o repertório individual do leitor é acionado, entrando em contato com marcas, pistas e indícios textuais, que funcionam como uma espécie de roteiro, que faz com que o leitor não se perca e a leitura seja pertinente. Embora cada leitor, por ter acumulado experiências distintas, siga pistas diferentes e construa livremente sentidos sobre o que lê, existem fios que conduzem a rede de construção de significado.
Por outro lado, a própria natureza da linguagem impossibilita abarcar a totalidade do que é expresso: o texto tem vazios e o leitor suplementa a obra de acordo com o que quer fazer dela no momento e no contexto da leitura. Nesse processo, duas vontades se encontram: a do leitor e a do autor. Segundo Iser (1996, p. 78), “o papel do leitor se realiza histórica e individualmente, de acordo com as vivências e a compreensão previamente constituída que os leitores introduzem na leitura”. Na perspectiva estética fenomenológica de Iser, a leitura é vista como um acontecimento, se efetuando na interação do plano do texto com o plano do leitor, no momento em que o leitor passa a preencher os vazios do texto: é no trânsito entre o polo artístico (do texto, relacionado à estrutura verbal) e o polo estético (do leitor, pertinente à estrutura de afeto) que significado e obra se concretizam.
Para que essa digressão (fundamental à ficção científica) seja possível, deve haver pontos de interseção entre o universo diegético e o mundo contemporâneo do leitor, elementos presentes tanto na fantasia alegórica do futuro quanto na realidade contemporânea, servindo de referência e de base remissiva para um futuro diegético que, sendo pura fantasia e devaneio, seja plausível. Por esse motivo, a teoria fenomenológica da arte enfatiza que o estudo de um texto não pode dedicar-se apenas à configuração do texto em si, mas, na mesma medida, aos atos de sua apreensão.
Na medida em que se volta prioritariamente para a construção desse cenário virtual (repleto de elementos coerentes frente a uma existência possível), o texto de ficção científica adquire sua plena significação, se inserindo na trama social contemporânea do leitor, por meio da utilização de linguagem próxima à coloquial. Há uma implícita cumplicidade estética com o leitor: o que se busca é o mergulho na mágica da compreensão simbólica.
A tentativa de dimensionar o grau de complexidade da síntese literária que precisa ser feita para que se garanta uma transcendência do real imediato em direção a um futuro virtual dá uma medida da imensa tarefa interdisciplinar do trabalho estético-imaginativo do autor. Em cada obra de ficção científica, para que se possa construir um todo verossímil para o cenário do futuro, precisam se mesclar coerentemente aspectos sociais, científicos, culturais, econômicos, tecnológicos, políticos, ambientais, espaciais, geográficos, morais, éticos e das mais variadas áreas, mas sempre de maneira a dialogar com o que existe no presente, posto que deve ser percebido como decorrência dele.

Sendo a literatura de ficção científica capaz de estabelecer realidades futuras que serão aceitas pelo leitor como possíveis, ela resulta atuando também como construtora de mitologias especulativas sobre o porvir da humanidade, induzindo o leitor a uma narração de origem às avessas, cujo início é o presente, tempo-espaço em que se situa o marco primordial dos acontecimentos que conduzirão ao cenário futuro da narrativa ficcional especulativa. O leitor é chamado a preencher, com sua imaginação, as lacunas das trajetórias virtuais que conduzem ao cenário imaginado descrito na ficção. Quando as estratégias interpretativas dessa trilha temporal às inversas se põem em operação, o leitor é içado a um percurso imaginário que conduz do futuro ao presente.


Fases do Leitor



Fase da Pré-Leitura - Fase da descoberta do mundo concreto e do mundo da linguagem, estabelecimento de relações entre imagens e palavras. Fase da leitura visual e preferência por livros que propõem vivências radicadas no cotidiano familiar, cenas individualizadas e textos com rimas.

Fase da Leitura Iniciante - Nesta fase o leitor inicia o processo de socialização e de racionalização da realidade e tem preferência por histórias bem-humoradas, em que a astúcia vence a prepotência, histórias de animais, fantasia e problemas infantis.

Fase da Leitura em Processo - Fase em que o leitor já domina o mecanismo da leitura, acentuando-se o interesse pelo conhecimento das coisas. Tem atração pelos desafios e pelos questionamentos de toda a natureza. Preferência pelos contos fantásticos, contos de fadas, folclore, histórias de humor e animismo.

Fase da Leitura Fluente - Fase da consolidação do domínio do mecanismo da leitura. Desenvolvimento da capacidade de abstração aliada ao pensamento formal e reflexivo. Preferência pelos heróis ou heroínas que lutam por ideais humanitários e justos. O leitor também aprecia aventuras sensacionalistas de detetives e fantasmas, ficção científica, histórias da atualidade e de amor.

Fase da Leitura Crítica - Fase de total domínio da leitura e da linguagem escrita. Desenvolvimento do pensamento crítico e reflexivo. Capacidade de assimilar idéias e ler nas entre linhas. Preferência por aventuras intelectualizadas, viagens, conflitos psicológicos, crônicas e contos.

Espírito visual – (02)



Espírito visual – (02)
Galeno sugeriu que visão, audição, olfato, gosto e tato alimentavam-se de um repositório sensorial geral localizado no cérebro, uma área conhecida às vezes como "senso comum", da qual derivava não apenas a memória, mas também o conhecimento, as fantasias e os sonhos. Assim, atribuiu-se aos sentidos um parentesco direto com o cérebro, enquanto se declarava que o coração, em última instância, era o senhor do corpo. Um manuscrito em alemão do tratado de Aristóteles sobre lógica e filosofia natural, datado do final do século XIV, retrata a cabeça de um homem, olhos e boca abertos, narinas alargadas, uma orelha cuidadosamente realçada. Dentro do cérebro estão cinco pequenos círculos conectados que representam, da esquerda para a direita, a sede principal do senso comum e, na seqüência, as sedes da imaginação, da fantasia, do poder cogitativo e da memória. De acordo com o comentário que acompanha a ilustração, o círculo do senso comum relaciona-se ainda com o coração, também representado no desenho. Esse esquema é um bom exemplo de como se imaginava o processo da percepção no final da Idade Média, com um pequeno adendo: embora não esteja presente nessa ilustração, supunha-se comumente (com base em Galeno) que na base do cérebro havia uma "rede maravilhosa" – rete mirabile - de pequenos vasos que agiam como canais de comunicação quando qualquer coisa que chegasse ao cérebro era refinada. Essa rete mirabile aparece no desenho de um cérebro que Leonardo da Vínci fez por volta de 1508, marcando claramente os ventrículos separados e atribuindo as várias faculdades mentais a seções diferentes. Segundo Leonardo, "o senso comune é que julga as impressões transmitidas pelos outros sentidos [...] e seu lugar é no meio da cabeça, entre a impresiva [centro das impressões] e a memoria [centro da memória]. Os objetos circundantes transmitem suas imagens para os sentidos e estes as passam para a impresiva. A impresiva comunica-os ao senso comume e dali elas são impressas na memória, onde se tornam mais ou menos fixas, de acordo com a importância e a força do Objeto em questão.” A mente humana, na época de Leonardo, era considerado um pequeno laboratório onde o material recolhido pelos olhos, ouvidos e outros órgãos da percepção tornavam-se "impressões" no cérebro, sendo então canalizadas através do centro do senso comum e depois transformadas em umas das várias faculdades - como a memória - sob a influência do coração supervisor. A visão de letras negras (para usar uma imagem alquímica) tornou-se, por meio desse processo, o ouro do conhecimento.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Espírito visual (01)



Espírito visual (01)
Empédocles, no século v a.C., descreveu os olhos como nascidos da deusa Afrodite, que "confinou um fogo nas membranas e tecidos delicados; estes seguraram a águia profunda. Que fluía em torno, mas deixaram passar as chamas internas para fora". Um século depois, Epicuro imaginou essas chamas como películas finas de átomos que fluíam da superfície de cada objeto e entravam em nossos olhos e mentes como uma chuva constante e ascendente, encharcando-nos de todas as qualidades do objeto. Euclides, contemporâneo de Epicuro, propôs uma teoria oposta: dos olhos do observador saem raios para apreender o objeto observado. Problemas aparentemente insuperáveis infestavam ambas as teorias. Por exemplo, no caso da primeira, a assim chamada teoria da "intromissão", como poderia a película de átomos emitida por um objeto grande — um elefante ou o monte Olimpo entrar num espaço tão pequeno como o olho humano? Quanto à segunda, a teoria da "extromissão", que raio poderia sair dos olhos e, numa fração de segundo, alcançar às longínquas estrelas todas as noites? Algumas décadas antes, Arístóteles sugerira outra teoria. Antecipando e corrigindo Epicuro, ele afirmara que eram as qualidades das coisas observadas — e não uma película de átomos — que viajavam através do ar (ou de algum outro meio) até os olhos do observador assim, o que se apreendia não eram as dimensões reais, mas o tamanho e a forma relativos de uma montanha. O olho humano, segundo Aristóteles, era como um camaleão, assumindo a forma e a cor do objeto observado e passando essa informação, via humores do olho.

Seis séculos mais tarde, o médico grego Galeno apresentou uma quarta solução, contradizendo Epicuro e seguindo Euclides. Galeno propôs que um "espírito visual", nascido no cérebro, cruzava o olho através do nervo ótico e saía para o ar. O próprio ar tornava-se então capaz de percepção, apreendendo as qualidades dos objetos percebidos, por mais longe que estivessem. Através do olho, essas qualidades eram retransmitidas de volta ao cérebro e desciam pela medula aos nervos dos sentidos e do movimento. Para Aristóteles, o observador era uma entidade passiva que recebia pelo ar a coisa observada, sendo esta em seguida comunicada ao coração, sede de todas as sensações, inclusive a visão. Para Galeno, o observador, tornando o ar sensível, desempenhava um papel ativo, e a raiz de onde nascia à visão estava no fundo do cérebro.

Os estudiosos medievais, para quem Galeno e Aristóteles eram as fontes do conhecimento científico, acreditavam em geral que se poderia encontrar uma relação hierárquica entre essas duas teorias. Não se tratava de uma teoria superar a outra: o importante era extrair de cada uma delas a compreensão de como as diferentes partes do corpo relacionavam-se com as percepções do mundo externo - e também com essas partes relacionavam-se umas com as outras. Gentile da Foligno, médico italiano do século XIV, sentenciou que essa compreensão era “um passo tão essencial para a medicina quanto o é o alfabeto para a leitura" e recordou que santo Agostinho, um dos primeiros Pais da Igreja, já dedicara atenção cuidadosa à questão. Para ele, cérebro e coração funcionavam como pastores daquilo que os sentidos armazenavam na nossa memória, e ele usou o verbo colligere (significando ao mesmo tempo coletar e resumir) para descrever como essas impressões eram recolhidas de compartimentos separados da memória e "guiadas para fora de suas velhas tocas, porque não há nenhum outro lugar para onde possam ir".

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Enredo - História - Tema



Enredo - História - Tema
Enredo - Enredo é o que acontece em uma história de ficção. Está relacionado à linha de ação e à movimentação dos personagens na narrativa. O enredo é físico, concreto, objetivo.

História - História é como os personagens principais se sentem em relação ao que acontece com eles no enredo. Está relacionada à reação emocional do protagonista aos conflitos e obstáculos da narrativa. A história é mental, abstrata, subjetiva.

Tema - Tema é o assunto principal que a história apresenta. Está relacionado ao conflito central da narrativa. O tema é dramático, sujeito à interpretação do leitor. Ele sugere uma verdade humana que emerge da experiência vivida pelos personagens.

Capturamos as letras? Ou as letras vêm a nós? - 05



Capturamos as letras? Ou as letras vêm a nós? (05)
Percebemos não apenas as letras e os espaços em branco entre as palavras que compõem o texto. Para extrair uma mensagem desse sistema de sinais brancos e pretos, apreendo primeiro o sistema de uma maneira aparentemente errática, com olhos volúveis, e depois reconstruo o código de sinais mediante uma cadeia conectiva de neurônios processadores em meu cérebro, cadeia que varia de acordo com a natureza do texto que estou lendo e impregna o texto com algo - emoção, sensibilidade física, intuição, conhecimento, alma - que depende de quem sou eu de como me tornei o que sou. "Para compreender um texto”, escreveu o Dr. Merlin C. Wittrock na década de 1980, "nós não apenas o lemos, no sentido estrito da palavra: nós construímos um significado para ele”. Nesse processo complexo, "os leitores cuidam do texto. Criam imagens e transformações verbais para representar seu significado. E o que é mais impressionante: eles geram significado à medida que lêem, construindo relações entre seu conhecimento, sua memória da experiência, e as frases, parágrafos e trechos escritos”. Ler, então, não é um processo automático de capturar um texto como um papel fotossensível captura a luz, mas um processo de reconstrução desconcertante, labiríntico, comum e, contudo pessoal. Os pesquisadores ainda não sabem se a leitura é independente, por exemplo, da audição, se é um conjunto único e distinto de processos psicológicos ou se consiste de uma grande variedade desses processos, mas muitos acreditam que sua complexidade pode ser tão grande quanto a do próprio pensamento. Ler, segundo o dr. Wittrock, "não é um fenômeno idiossincrático, anárquico. Mas também não é um processo monolítico, unitário, no qual apenas um significado está correto. Ao contrário, trata-se de um processo generativo que reflete a tentativa disciplinada do leitor de construir um ou mais sentidos dentro das regras da linguagem”.

"Chegar a uma análise completa do que fizemos ao ler", admitiu o pesquisador americano E. B. Huey na virada do século seria o auge das realizações do psicólogo, pois seria descrever muitos dos funcionamentos mais complexos da mente humana. Ainda estamos longe de uma resposta. Misteriosamente, continuamos a ler sem uma definição satisfatória do que estamos fazendo. Sabemos que a leitura não é um processo que possa ser explicado por meio de um modelo mecânico; sabemos que ocorre em certas áreas definidas do cérebro, mas sabemos também que essas áreas não são as únicas a participar; sabemos que o processo de ler, tal como o de pensar, depende da nossa capacidade de decifrar e fazer uso da linguagem, do estofo de palavras que compõe texto e pensamento. O medo que os pesquisadores parecem sentir é o de que sua conclusão possa questionar a própria linguagem na qual a expressam: que a linguagem talvez seja em si mesma um absurdo arbitrário, que talvez não possa comunicar nada exceto em sua essência tartamudeante, que talvez dependa quase inteiramente, para existir, não de seus enunciadores, mas de seus intérpretes, e que o papel dos leitores talvez seja tornar visível - na fina expressão de Alhazen - aquilo que a escrita sugere em alusões e sombras.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Capturamos as letras? Ou as letras vêm a nós? - 04



Capturamos as letras? Ou as letras vêm a nós? (04)
Concordando com Alhazen, o professor Lecours concluiu que o processo de ler compreendia pelo menos dois estágios: ver a palavra e levá-la em consideração de acordo com informações conhecidas. Tal como o escriba sumério de milhares de anos atrás, eu encaro as palavras. Eu olho as palavras, vejo as palavras, e o que vejo organiza-se de acordo com um código ou sistema que aprendi e que compartilho com outros leitores do meu tempo e lugar - um código que se estabelecem em seções específicas do meu cérebro. Afirma o professor Lecours: "É como se as informações que os olhos recebem da página viajassem pelo cérebro através de uma série de conglomerados de neurônios especializados, cada conglomerado ocupando certa seção do cérebro e desempenhando uma função específica. Ainda não sabemos o que é exatamente cada uma dessas funções, mas, em certos casos de lesões cerebrais, um ou vários desses conglomerados ficam, digamos, desconectados da cadeia, de tal modo que o paciente se torna incapaz de ler certas palavras, ou determinado tipo de linguagem, ou de ler em voz alta, ou substitui um conjunto de palavras por outro. As desconexões possíveis parecem infinitas".

Tampouco o ato primário de perscrutar a página com os olhos é um processo contínuo e sistemático. A suposição usual é que durante a leitura nossos olhos viajam suavemente, sem interrupções, ao longo das linhas da página, e que ao ler escritas ocidentais, por exemplo, nossos olhos vão da esquerda para a direita. Não é assim. Há um século, o oftalmologista francês Émile Javal descobriu que nossos olhos na verdade saltam pela página; esses saltos ou sofreamentos acontecem três ou quatro vezes por segundo, numa velocidade de cerca de duzentos graus por segundo. A velocidade do movimento do olho pela página - mas não o movimento em si - interfere na percepção, e é somente durante a breve pausa entre movimentos que nós realmente lemos. Por que nossa sensação de leitura está relacionada com a continuidade do texto sobre a página ou com o desenrolar do texto na tela, assimilando frases ou pensamentos inteiros, e não com o movimento real dos olhos, eis uma questão para a qual os cientistas ainda não têm resposta.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Capturamos as letras? Ou as letras vêm a nós? - 03



Capturamos as letras? Ou as letras vêm a nós? (03)
De acordo com o professor André Roch Lecours, do hospital Côte-des-Neiges, em Montreal, a exposição somente à linguagem oral pode não ser suficiente para que algum dos hemisférios desenvolva plenamente as funções da linguagem; para que nosso cérebro permita esse desenvolvimento, talvez devamos ser ensinados a reconhecer um sistema compartilhado de signos visuais. E em outras palavras, precisamos aprender a ler.

Na década de 1980, quando trabalhava no Brasil, o professor Lecours chegou à conclusão de que o programa genético que levava à predominância mais comum do hemisfério cerebral esquerdo era desenvolvido nos cérebros daqueles que não tinham aprendido a ler do que nos alfabetizados. Isso sugeriu a ele que o processo da leitura poderia ser explorado através de casos de pacientes nos quais a faculdade de ler havia sido comprometida. (Há séculos, Galeno dizia que uma doença não indica apenas a falha do corpo em seu desempenho, mas também lança luz sobre o próprio desempenho ausente.) Alguns anos depois, em Montreal, estudando pacientes que sofriam de impedimentos de fala ou leitura, o professor Lecours conseguiu fazer uma série de observações relacionadas com o mecanismo da leitura. Em casos de afasia, por exemplo, nos quais os pacientes tinham perdido parcial ou completamente a capacidade de compreender a palavra falada, ele descobriu que determinadas lesões específicas no cérebro causavam determinados defeitos de fala que eram curiosamente específicos.

Alguns pacientes tornavam-se incapazes de ler ou escrever somente palavras de grafia irregular; outros não conseguiam ler palavras inventadas; outros ainda podiam ver, mas não pronunciar, certas palavras agrupadas de forma estranha ou palavras dispostas de maneira desigual na página. Às vezes esses pacientes podiam ler palavras inteiras, mas não sílabas; em certos casos, liam substituindo determinadas palavras por outras. Lemuel Gulliver, descrevendo os Struldbrugg de Laputa, observava que, aos noventa anos, esses ilustres anciãos não podem mais se divertir com a leitura, porque sua Memória não consegue levá-los do Começo ao Fim de uma Frase; e, devido a esse defeito, estão privados do único entretenimento de que poderiam gozar. Vários pacientes do professor Lecours sofriam exatamente desse problema. Para complicar as coisas, em estudos semelhantes na China e no japão, os pesquisadores observaram que pacientes acostumados a ler ideogramas em vez de alfabetos fonéticos reagiam de forma diferente às investigações, como se essas funções de linguagem específicas fossem predominantes em áreas diferentes do cérebro.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Capturamos as letras? Ou as letras vêm a nós? - 02



Capturamos as letras? Ou as letras vêm a nós? - 02

Os estudos modernos de neurolingüística, a relação entre cérebro e linguagem, começaram quase oito séculos e meio depois de Alhazen, em 1865. Naquele ano, dois cientistas franceses, Michel Dax e Paul Brocat sugeriram em estudos simultâneos, mas separados, que a grande maioria da humanidade, em consequência de um processo genético que começa na concepção, nasce com um hemisfério cerebral esquerdo que se tornará a parte dominante do cérebro para codificar e decodificar a linguagem; uma proporção muito menor, em sua maioria canhotos ou ambidestros, desenvolve essa função no hemisfério direito. Em uns poucos casos (pessoas predispostas geneticamente a um hemisfério esquerdo dominante), danos precoces ao hemisfério esquerdo resultam numa reprogramação cerebral e levam ao desenvolvimento da função da linguagem no hemisfério direito. Mas nenhum dos hemisférios atuará como codificador e decodificador enquanto a pessoa não for exposta efetivamente à linguagem. No momento em que o primeiro escriba arranhou e murmurou as primeiras letras, o corpo humano já era capaz de executar os atos de escrever e ler que ainda estavam no futuro. Ou seja, o corpo era capaz de armazenar, recordar e decifrar todos os tipos de sensação, inclusive os sinais arbitrários da linguagem escrita ainda por ser inventados. Essa noção de que somos capazes de ler antes de ler de fato - na verdade, antes mesmo de vermos uma página aberta diante de nós - leva-nos de volta à idéia platônica do conhecimento preexistente dentro de nós antes de a coisa ser percebida. A própria fala desenvolve-se seguindo um padrão semelhante. "Descobrimos" uma palavra porque o objeto ou idéia que ela representa já está em nossa mente, pronto para ser ligado à palavra. É como se nos fosse oferecido um presente do mundo externo (por nossos antepassados, por aqueles que primeiro falam conosco), mas a capacidade de apreender o presente é nossa. Nesse sentido, as palavras ditas (e, mais tarde, as palavras lidas) não pertencem a nós nem aos nossos pais, aos nossos autores: elas ocupam um espaço de significado compartilhado, um limiar comum que está no começo da nossa relação com as artes da conversação e da leitura.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Capturamos as letras? Ou as letras vêm a nós? - 01



Capturamos as letras? Ou as letras vêm a nós? (01)
Somos nós que nos estendemos e capturamos as letras numa página, de acordo com as teorias de Euclides e Galeno? Ou são as letras que vêm aos nossos sentidos, como Epicuro e Aristóteles afirmaram? Para Leonardo e seus contemporâneos, a resposta (ou indícios de resposta) poderia ser encontrada numa tradução do século XIII de um livro escrito duzentos anos antes (tão demoradas são às vezes as hesitações da erudição), no Egito, pelo estudioso de Basra al-Hasan ibn al-Haytham, conhecido no Ocidente como Alhazen.

De acordo com Alhazen, todas as percepções do mundo externo envolvem certa influência deliberada que deriva da nossa faculdade de julgar. Para desenvolver essa teoria, Alhazen seguiu o argumento básico da teoria da intromissão de Aristóteles - segundo a qual as qualidades do que vemos entram no olho por meio do ar – e fundamentou sua escolha com explicações físicas, matemáticas e fisiológicas precisas. Mas, de forma mais radical, Alhazen fez uma distinção entre "sensação pura" e "percepção”, sendo a primeira inconsciente ou involuntária - ver a luz fora da minha janela e as formas cambiantes da tarde – e exigindo a segunda um ato voluntário de reconhecimento ao seguir um texto numa página. A importância do argumento de Alhazen estava em identificar pela primeira vez, no ato de perceber, uma gradação da ação consciente que vai do ver ao decifrar ou ler.

Alhazen morreu no Cairo, em 1038. Dois séculos mais tarde, o erudito inglês Roger Bacon - tentando justificar o estudo da ótica ao Papa Clemente IV numa época em que certas facções da Igreja Católica sustentavam violentamente que a pesquisa científica era contrária ao dogma cristão – ofereceu um resumo revisado da teoria Alhazen. Segundo Alhazen (e, ao mesmo tempo, minimizando a importância da sabedoria islâmica), Bacon explicou a Sua Santidade a mecânica da teoria da intromissão. Segundo Bacon, quando olhamos para um objeto (uma árvore ou as letras SOL), forma-se uma pirâmide visual que tem sua base no objeto e seu ápice no centro da curvatura da córnea. Nós "vemos" quando a pirâmide entra em nosso olho e seus raios são dispostos sobre a superfície do nosso globo ocular, refratados de tal forma que não se cruzam. Ver, para Bacon, era o processo ativo pelo qual uma imagem do objeto entrava no olho e era então apreendida pelos "poderes visuais" dele.

Mas como essa percepção se torna leitura? Como o ato de apreender letras relaciona-se com um processo que envolve não somente visão e percepção, mas inferência, julgamento, memória, reconhecimento, conhecimento, experiência, prática? Alhazen sabia (e Bacon certamente concordava) que todos esses elementos necessários para realizar o ato de ler conferiam-lhe uma complexidade impressionante, cujo desempenho satisfatório exigia a coordenação de centenas de habilidades diferentes. E não apenas essas habilidades, mas o momento, o lugar e a plaquinha, o rolo, a página ou a tela sobre a qual o ato é realizado afetam a leitura...

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Bibliomania



BIBLIOMANIA
A principal diferença entre bibliofilia e bibliomania está baseada na motivação. Enquanto que para os bibliomaniacos não existe limite ou controle para o ato de se comprar e acumular quantos livros for possível, os bibliófilos, que também são famosos por acumularem livros, os compram pelo apreço e conhecimento. É como se os primeiros se importassem com a quantidade enquanto que os segundos pela qualidade, importância e valor do livro.

A diferença às vezes é muito tênue entre um ou outro e apesar de serem comportamentos muito antigos, são influenciados por características sociais, econômicas e culturais diferentes.

A diferença entre bibliófilo e bibliómano, não é a essência, mas o grau de intensidade. Muitas ocasiões, a bibliofilia degenera em bibliomania. E por isso, o bibliómano pode ser um homem ilustrado, um escritor, um investigador, sequioso de encontrar documentos e temas para os seus trabalhos. Qualquer destes indivíduos, porém, sente gosto em mostrar as suas coleções, experimenta vaidade em ter obras raras, que mais ninguém possua.
Por mais que seja estudada, ainda não há um consenso sobre a motivação de se comprar livros demasiadamente. Donald Dickinson diz que é uma necessidade e urgência de completar um desejo de controle e de reconhecimento. Em geral, coleções particulares de livros refletem os gostos literários de seus possuidores e nascem com o desejo particular de adquirir conhecimento sobre determinado assunto. Os bibliomaníacos não possuem esse crivo.
Pela sua formação etimológica, bibliomania pode ter o significado de loucura dos livros - biblio (livros) e mania (de loucura, excesso). Na literatura também encontramos autores que afirmam que é uma doença, um distúrbio, que na maioria das vezes pode ser tanto benéfico quanto maléfico e assim como procuramos distinguir as definições entre bibliofilia e bibliomania, muito se confundiu por amor e loucura pelos livros.

Existem algumas divergências também nas definições daqueles que foram contaminados pela mania de colecionar livros. W. T. Rogers, por exemplo, argumenta que “um bibliomaniaco é aquele que compra aleatoriamente e tem gosto em caçar as maiores raridades com o único objetivo de possuí-las” ao passo que Falcone Madan afirma “que os bibliomaniacos vivem apenas pela caça (sentido de aquisição) e por isso desprezam se são caros ou baratos”.

Dessa forma, podemos considerar características da bibliomania como uma excessiva consideração, estima e cuidado por livros; assim como uma obsessão ou paixão desordenada por muitos livros. Agora o que torna uma pessoa bibliomaniaca é uma questão difícil de responder por que não existe uma causa geral e de certa forma todas estão entrelaçadas entre si.

Outras causas que também contribuem para a bibliomania são: ganância, inveja, vaidade, orgulho e até mesmo medo. É importante realçar que a bibliomania, pode ser tanto adquirida por diversos fatores quanto pode também ter causas naturais, ou seja, a pessoa já nasce com os sintomas bibliomaniacos.

Fonte
MONOGRAFIA DE CONCLUSÃO DO CURSO DE BIBLIOTECONOMIA
AUTOR: FERNANDO MUSTAFÁ COSTA
Orientador: Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro
São Paulo, 05 de dezembro de 2009
TCC_Bibliofilia_Fernando Mustafa
Endereço para PDF na integra:

Bibliofilia



BIBLIOFILIA
Apesar de se ter noção de que o amor pelos livros e pela escrita remonta desde que a homem começou a colecionar manuscritos e a formar bibliotecas, a primeira grande menção na literatura surge na Idade Média, em 1344, por meio do arcebispo Richard de Bury, que também foi chanceler e tutor de Henrique II, na Inglaterra. Ele escreveu um verdadeiro tratado de amor e cuidado para com os livros que ficou mundialmente conhecido como Philobiblion, do grego – Philo (amor) e Biblion (livro). Na visão de Bury (2004, p. 9), “os livros são os maiores presentes de Deus à humanidade, sem eles o conhecimento estaria fadado ao esquecimento”. Ele também aconselha: “os livros devem ser amados acima de todas as riquezas e de todos os prazeres, qualquer que sejam”.
 
Ao longo do estudo e das leituras, encontramos algumas definições que refletem o estado de ser daqueles que possuem bibliofilia – ou seja, dos bibliófilos - bem como em algumas das definições, nota-se que os autores fazem a definição, diferenciando o bibliófilo do bibliomaniaco.

Dessa forma, o primeiro é sempre o puro de coração, tomado de um amor pelos seus livros, o que faz com que cuide deles como se fossem o maior tesouro do mundo, pela sua raridade, beleza, encadernação, pelo seu conteúdo etc., enquanto que o segundo é sempre visto como um indivíduo tomado pelo desejo incontrolável de possuir livros e mais livros, mas sem se importar em lê-los ou absorver algum conhecimento, em alguns casos tomados por ansiedade ou como um distúrbio mental.

Citando o bibliógrafo alemão Hans Bohaster: “O bibliófilo é o mestre de seus livros, o bibliomanico seu escravo”.

Segundo Charles Nodier:
Seguindo a mesma linha de raciocínio entre bibliófilo versus bibliomaniaco:
Traduzindo à letra, um bibliófilo (do Grego biblion, livro, e philos, amigo) é um amante de livros. E é de propósito que utilizo a definição dada por Morais [Dicionário da Lingua Portuguesa]. É que o substanctivo amante explica muito mais o bibliófilo do que o adjectivo amigo. Conheço muitos bibliomaníacos, com verdadeiras e colossais bibliotecas, mesmo com alguma raridades, para quem o livro constitui apenas um divertimento ou um investimento, compram livros como quem compra laranjas, pelo aspecto e pelo peso (o que, no caso do livro, se pode representar pela encadernação e data da edição). Ora o bibliófilo não é apenas aquele que tem livros do século XV e XVI, ou de outras épocas recuadas. Para os ter, basta possuir dinheiro (existe muitos bibliomaníacos com verdadeiras fortunas em livros, que deles não tiram qualquer proveito, pois nem sequer os sabem ler, ou têm tempo para os catalogar e arrumar. Contudo, ajudam a preservar o patrimônio). Pode-se até ser bibliófilo sem possuir nenhum livro dos séculos anteriores ao nosso. O que é então necessário para se ser bibliófilo? É necessário amor, carinho e estudo pelo livro que se comprou.
A bibliofilia também está intrinsecamente ligada à leitura, como ilustra a Castro Alcântara: Não se ama de fato os livros sem cultivar o costume da leitura. O verdadeiro bibliófilo é antes de mais nada um leitor contumaz. Distingue-se do bibliomâno, que se apraz em comprar e colecionar livros raros, pelo prazer da posse, sem valorizar os conteúdos. O colecionismo estéril, individualista, é apenas um ativo atraente e um símbolo de prestígio social, despojado da chama que anima a bibliofilia autêntica: o espírito do leitor.

No entanto, o que está por trás da Bibliofilia não é o apego excessivo à leitura, mas o amor pelos livros, simplesmente por serem livros, assim como existem pessoas que colecionam e admiram outras coisas como flores ou filmes, por exemplo.

Um bibliófilo não consegue viver sem seus livros, apesar de “loucura mansa”, geralmente não chega a ser um distúrbio, como na bibliomania.

Fonte
MONOGRAFIA DE CONCLUSÃO DO CURSO DE BIBLIOTECONOMIA
AUTOR: FERNANDO MUSTAFÁ COSTA
Orientador: Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro
São Paulo, 05 de dezembro de 2009
TCC_Bibliofilia_Fernando Mustafa
Endereço para PDF na integra: