quinta-feira, 2 de abril de 2015

Bibliofágos, Bibliotáfios e os Bibliocastas



Bibliofágos, Bibliotáfios e os Bibliocastas
Se os bibliófilos são famosos por amarem seus livros e às vezes gastarem verdadeiras fortunas por exemplares velhos, empoeirados e sujos; e bibliomaniacos têm compulsões megalomaníacas em adquirir e possuir livros e que bibliocleptomaniacos roubam livros Precisamos destacar mais três comportamentos que apresentam certo grau de curiosidade – os bibliofágos, bibliotáfios e os bibliocastas.

Bibliofágos são os mais conhecidos e bizarros da espécie. Muito se escreve humoristicamente sobre eles, pois são devoradores de livros, literalmente. Não existem razões claras para afirmar o que faz com que pessoas comam papel. Segundo Raabe as pessoas comem porque pensam que dessa forma aumentarão sua compreensão ao conteúdo. Mas não é só no ramo dos livros que se ingere papel: um exemplo são as pílulas de Frei Galvão, que na verdade são papéis de arroz com inscrições e orações, distribuídas pelas irmãs do Mosteiro da Luz de São Paulo, para cura, milagres e para ajudar as fieis engravidarem.

Bibliotáfios – táfios (tumbas) - colecionam seus livros, mas em oposição aos bibliófilos e bibliomanicos que os exibem, preferem esconde-los e têm o hábito de enterrá-los. O motivo que leva uma pessoa em sã consciência a fazer isso ainda não foi descoberto: testemunhas relatam que é por pensarem na preservação do conhecimento para gerações futuras. Como John Steward, que enterrou algumas obras nas quais acreditava estava contido um novo evangelho para salvação da humanidade. O caso extremo é quando essas pessoas possuem o desejo de, ao morrerem, for enterradas com seus livros favoritos.

Bibliocastia é uma das loucuras mais perigosas relacionadas ao livro, que consiste na destruição de livros e bibliotecas. O escritor venezuelano Fernando Baez em sua História Universal da Destruição das Bibliotecas, percorre ao longo da história da humanidade, os motivos e impactos da destruição de livros. Na maioria das vezes, a destruição de livros é motivada por motivos religiosos (de cunho fanático) e políticos (censura). Assim como no período medieval, muitos livros foram preservados, muitos livros também foram queimados (às vezes junto a seus donos) por conterem conteúdos considerados hereges, contrários a fé cristã ou muçulmana. Na Alemanha nazista, a queima de livros precedeu a morte de milhares de pessoas. E também não faz muito tempo, uma igreja de segmento protestante dos Estados Unidos realizou uma grande queima de livros da Harry Potter da escritora britânica J.K. Rowling por fazer alusões à bruxaria.
  
Fonte
MONOGRAFIA DE CONCLUSÃO DO CURSO DE BIBLIOTECONOMIA
AUTOR: FERNANDO MUSTAFÁ COSTA
Orientador: Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro
São Paulo, 05 de dezembro de 2009
TCC_Bibliofilia_Fernando Mustafa
Endereço para PDF na integra:

Bibliocleptomania



BIBLIOCLEPTOMANIA
Não se sabe ao certo a origem desta palavra, mas o dicionário Houaiss de língua portuguesa o define como “compulsão, vício ou mania de furtar livros”.
Bibliocleptas ou bibliocleptomaniacos preferem as bibliotecas por parecerem mais fáceis e acessíveis ao invés de livrarias ou museus, por exemplo. Lawrence S. Thompson em Notes on Bibliobleptomania relata nomes de ladrões famosos desde a Antiguidade aos tempos modernos. O interessante, é que geralmente estes pertencem às mais altas classes da sociedade ou são intelectuais. Mas na história da bibliocleptomania existe outra espécies de ladrão: o criminoso, aquele que rouba para depois vender.

A história da bibliocleptomania é tão antiga quanto à história das bibliotecas e seus motivos podem ser mais bem entendidos com o contexto de cada época.
As primeiras bibliotecas romanas foram formadas por saques de toda a Grécia. A Biblioteca Real Macedônia, a Biblioteca de Mitridates do Ponto, a da Apelicão de Teos por exemplo. Na Idade Média, o livro era um objeto raro e luxuoso, que praticamente só era encontrado nos mosteiros. É evidente que analfabetos não roubariam os livros, se assim fosse não saberiam exatamente seus valores, mas como sabemos naquela época ter um livro era privilégio de poucos.

Na Idade Média foram produzidos os mais belos incunábulos, de 1455 a 1500. Ladrões de livros nesta época eram verdadeiras pragas. E a arma mais usada para combatê-los eram as maldições. O mosteiro de St. Máximim ameaçava os ladrões com pragas parecidas com as de Judas e Pilatos. As penas mais graves eram a excomunhão e a possibilidade de ter o nome riscado do Livro da Vida.
Na Renascença, com a larga impressão de livros, estes não eram mais objetos tão cobiçados. No entanto, a sede do conhecimento fez com que as bibliotecas tivessem muito trabalho no policiamento.
Parece-nos que a religião cristã sempre foi veemente contra tais atos, sendo que o papa Benedito XIV lançou uma bula em 1752, excomungando quem roubasse livros, tamanha era a praga. No entanto, os clérigos são uns dos maiores ladrões de livros segundo Thompson (1944, p. 22) como o Cardeal Pamfilio, que se tornou o papa conhecido como Inocente X, ou Don Vicent e o Pastor Tinius. Abaixo dos clérigos, os estudantes. Estes visavam pesquisas. Mas, acima de todos, a profissão que mais formou ladrões de livros foi sem dúvida a dos bibliotecários.

O maior bibliocleptomaníaco de todos os tempos foi Guglielmo Bruto Icilio Timoleone (1803-1869), o conde Libri-Carucci della Sommaia, o famoso conde Libri. que por sete anos roubou e vendeu obras raras. Com a Revolução de 1848, foi descoberto e fugiu para a Inglaterra com dezoito caixas de livros roubados, avaliados em 25 mil libras, uma pequena fortuna para época. Em 1850, foi condenado a dez anos de prisão e morreu preso e pobre na Itália, em 1869.
A Europa e os Estados Unidos são terras férteis para tais criminosos. Na maioria dos casos, funcionários de bibliotecas, bibliófilos e bibliomaniacos estão envolvidos. Em nossos tempos, observamos que os livros roubados de bibliotecas geralmente são os que possuem alto valor monetário.
Fonte
MONOGRAFIA DE CONCLUSÃO DO CURSO DE BIBLIOTECONOMIA
AUTOR: FERNANDO MUSTAFÁ COSTA
Orientador: Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro
São Paulo, 05 de dezembro de 2009
TCC_Bibliofilia_Fernando Mustafa
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Atribuir objetivos aos livros



Atribuir objetivos aos livros
Dos textos hebraicos preservados, o mais antigo em que se encontra um pensamento sistemático e especulativo - o Sefer Yezirah, escrito em algum momento do século III - afirma que Deus criou o mundo mediante 32 caminhos secretos de sabedoria, dez Sefirot ou números e 22 letras. Do Sefirot criaram-se todas as coisas abstratas; das 22 letras foram criados todos os seres reais e as três camadas do cosmo - o mundo, o tempo e o corpo humano. O universo, na tradição judaico-cristã, é concebido como um Livro feito de números e letras. A chave para compreender o universo está em nossa capacidade de lê-los adequadamente e dominar suas combinações e, assim, aprender a dar vida a alguma parte daquele texto colossal, numa imitação de nosso Criador. (Segundo uma lenda medieval, Hanani e Hoshaiah, profundos conhecedores do Talmude, estudavam uma vez por semana o Sefer Yezirah e, mediante a combinação correta de letras, criavam um bezerro de três anos que então comiam no jantar.) Espinosa, em seu Tractatus theologico-politicus, de 1650 (denunciado pela Igreja Católica Romana como obra "forjada no inferno por um judeu renegado e pelo diabo"), já observara: "Acontece com freqüência que em livros diferentes lemos histórias em si mesmas semelhantes, mas que julgamos de forma muito diferente, segundo as opiniões que formamos sobre os autores”. Lembro de ter lido certa vez em algum livro que um homem chamado Orlando Furioso costumava montar uma espécie de monstro alado pelos ares, voar sobre qualquer terra que quisesse e matar sem ajuda um vasto número de homens e gigantes e outras fantasias desse tipo, as quais, do ponto de vista da razão, são obviamente absurdas. Li uma história muito parecida em Ovídio, sobre Perseu, e também no livro dos Juízes e Reis, sobre Sansão, que sozinho e desarmado matou milhares de homens, e sobre Elias, que voou pelo ar e foi finalmente ao céu, num carro de fogo com cavalos ígneos. Todas essas histórias são obviamente parecidas, mas julgamo-las de modo muito diferente. A primeira buscava divertir, a segunda tinha um objetivo político, a terceira, um motivo religioso". Eu também, durante muito tempo, atribuí objetivos aos livros que lia, esperando, por exemplo, que o Pilgrim's progress de Bunyan me faria uma pregação porque haviam me dito que era uma alegoria religiosa - como se eu fosse capaz de ouvir o que estava acontecendo na mente do autor no momento da criação e de obter provas de que o autor estava, com efeito, falando a verdade. A experiência e uma dose de senso comum ainda não me curaram completamente desse vício supersticioso.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Aprender a ler é um rito de passagem-03



Aprender a ler é um rito de passagem - 03
Kafka desenvolveu uma maneira de ler que lhe permitia decifrar as palavras ao mesmo tempo em que questionava sua capacidade de decifrá-las, persistindo em compreender o livro e contudo, não confundindo as circunstâncias do livro com as suas próprias - como se estivesse respondendo tanto ao velho professor, que ridicularizava sua falta de experiência para entender o texto, como aos seus ancestrais rabínicos, para os quais um texto precisa provocar continuamente o leitor com a revelação.

Uma vez, andando por Praga com o filho de um colega, parou diante da vitrine de uma livraria. Vendo o jovem companheiro inclinar a cabeça de um lado para o outro a fim de ler o título dos livros enfileirados, ele riu: "Então você também é louco por livros, sua cabeça sacode de tanta leitura?". O amigo assentiu: "Acho que eu não poderia viver sem livros. Para mim eles são o mundo". Kafka ficou sério. "Isso é um erro", disse. "Um livro não pode tomar o lugar do mundo. É impossível. Na vida tudo tem seu sentido e seu propósito, e para isso não há substituto permanente. Um homem não pode, por exemplo, dominar sua própria experiência por meio de outra personalidade. É assim que está o mundo em relação aos livros. Tentamos aprisionar a vida num livro, como um canário na gaiola, mas não funciona."

A intuição de Kafka de que, se o mundo tem coerência, é uma coerência que não podemos compreender plenamente - se o mundo oferece esperança, ela "não é para nós? Num ensaio famoso, Walter Benjamin observou que para entender a visão de mundo de Kafka "não se deve esquecer o modo de ler de Kafka", comparado por Benjamin ao do Grande Inquisidor de Dostoievski no conto alegórico de Os irmãos Karamazov: "Temos perante nós", diz o Inquisidor ao Cristo retornado à Terra, "um mistério que não podemos apreender e, justo por ser um mistério, tivemos o direito de pregá-lo, de ensinar ao povo que o que importa não é a liberdade nem o amor, mas o enigma, o segredo, o mistério diante do qual eles devem se curvar - sem reflexão e mesmo sem consciência". Um amigo que viu Kafka ler em sua escrivaninha disse que ele lembrava a figura angustiada de um leitor de Dostoievski, que parece em transe enquanto lê o livro que segura.

Ernst Pawel, no final de sua lúcida biografia de Kafka, escrita em 1984, nota que "a literatura que trata de Kafka e sua obra compreende atualmente cerca de 15 mil títulos, na maioria das principais línguas do mundo". Kafka tem sido lido literalmente, alegoricamente, politicamente, psicologicamente. Dizer que as leituras sempre ultrapassam em quantidade os textos que as geram é uma observação banal, mas algo de revelador sobre a natureza criativa do ato de ler está presente no fato de que um leitor pode se desesperar e outro rir exatamente na mesma página. O fato é que as histórias de Kafka, nutridas pela experiência de leitura dele, ao mesmo tempo oferecem e tiram a ilusão de compreensão. É como se elas corroessem a arte do Kafka escritor a fim de satisfazer o Kafka leitor.

Em 1904, Kafka escreveu a seu amigo Oskar Pollak: "No fim das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam e piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos ao trabalho de lê-lo? Para que nos faça feliz, como diz você? Meu Deus, seríamos felizes da mesma forma se não tivéssemos livros. Livros que nos façam felizes, em caso de necessidade, poderíamos escrevê-los nós mesmos. Precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios. É nisso que acredito".

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Aprender é um rito de passagem-02



Aprender a ler é um rito de passagem - 02
Por volta de 1316, em uma carta famosa ao vigário imperial Can Grande della Scala, Dante sustentou que um texto tem pelo menos duas leituras, "pois obtemos um sentido da letra dele e outro daquilo que a letra significa; a primeira é chamada de literal, a outra de alegórica ou mística". Dante prossegue sugerindo que o sentido alegórico compreende três outras leituras. Apresentando como exemplo o Verso bíblico "Quando Israel saiu do Egito e a casa de Jacó se apartou de um povo bárbaro, Judá tornou-se o santuário do Senhor e Israel o seu reino", Dante explica: “Se olharmos apenas a letra, o que é posto diante de nós é o êxodo dos filhos de Israel no tempo de Moisés; se a alegoria, nossa redenção forjada por Cristo; se o sentido analógico vê a conversão da alma do sofrimento e da desgraça do pecado para o estado de graça; se o anagógico mostra-nos a partida da alma santa da servidão dessa corrupção para a liberdade da glória eterna. E embora esses significados místicos recebam vários nomes, todos podem ser chamados de alegóricos, uma vez que diferem do literal e do histórico". São todas leituras possíveis. Alguns leitores podem achar uma ou várias delas falsas; talvez desconfiem de uma leitura "histórica", se não conhecerem o contexto do trecho; podem fazer objeções à leitura "alegórica", considerando a referência a Cristo anacrônica; talvez julguem as leituras "analógica" (por meio de analogias) e "anagógica" (mediante interpretações bíblicas) fantasiosas ou forçadas demais. Mesmo a leitura "literal" pode ser suspeita. O que significa exatamente "saiu"? Ou "casa"? Ou "reino"? Parece que mesmo para ler no nível mais superficial o leitor precisa de informações sobre a criação do texto, o pano de fundo histórico, o vocabulário especializado e até sobre a mais misteriosa das coisas, o que santo Tomás de Aquino chamava de quem auctor intendit, a intenção do autor. Contudo, desde que leitor e texto compartilhem uma linguagem comum, qualquer leitor pode descobrir algum sentido em qualquer texto: narrativa hermética, manuais de computador e até na linguagem bombástica da política. "Lemos para fazer perguntas", disse Kafka certa vez a um amigo.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Aprender a ler é rito de passagem-01


Aprender a ler é um rito de passagem - 01
Uma sociedade pode existir sem escrever, mas nenhuma pode existir sem ler. De acordo com o etnólogo Philippe Descola, as sociedades sem escrita têm sentido linear do tempo, enquanto nas sociedades ditas letradas o sentido do tempo é cumulativo; ambas as sociedades movem-se dentro desses tempos diferentes, mas igualmente complexos, lendo uma infinidade de sinais que o mundo tem a oferecer. Mesmo em sociedades que deixaram registros de sua passagem, a leitura precede à escrita.

Em todas as sociedades letradas, aprender a ler tem algo de iniciação, de passagem ritualizada para fora de um estado de dependência e comunicação rudimentar. A criança, aprendendo a ler, é admitida na memória comunal por meio de livros, familiarizando-se assim com um passado comum que ela renova, em maior ou menor grau, a cada leitura. Na sociedade judaica medieval, por exemplo, o ritual de aprender a ler era celebrado explicitamente. Na festa de Shavuot, quando Moisés recebia a Torá das mãos de Deus, o menino a ser iniciado era envolvido num xale de orações e levado por seu pai ao professor. Este sentava o menino no colo e mostrava-lhe uma lousa onde estava escrito o alfabeto hebraico, um trecho das Escrituras e a frase "Possa a Torá ser tua ocupação.” O professor lia em voz alta cada palavra e o menino as repetia. A lousa então era coberta com mel e a criança a lambia, assimilando assim corporalmente, as palavras sagradas. Da mesma forma, versos bíblicos eram escritos em ovos e tortas de mel, que a criança comeria depois de ler os versos em voz alta para o mestre.

Sócrates afirmava que somente o que o leitor já conhece pode ganhar vida com uma leitura, e, para ele, o conhecimento não pode ser adquirido através de letras mortas. Os primeiros eruditos medievais buscavam na leitura uma infinidade de vozes que, em última instância, ecoavam uma única voz: o logos de Deus. Para os humanistas da Idade Média tardia, o texto e os sucessivos comentários das diversas gerações de leitores implicavam tacitamente que era possível haver não apenas uma, mas um número quase infinito de leituras, todas alimentando-se reciprocamente.  O livro na minha estante não me conhece até que eu o abra, e no entanto tenho certeza de que ele se dirige a mim - a mim e a cada leitor - pelo nome; está à espera de nossos comentários e opiniões. Eu estou pressuposto em Platão, assim como cada livro me pressupõe, mesmo aqueles que nunca lerei.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Leitura Ouvida





A Leitura ouvida
Dar aos sons supremacia sobre o sentido, ao mesmo tempo enriquece e empobrece o ato de ler. Permitir que alguém pronuncie as palavras de uma página para nós é uma experiência muito menos pessoal do que segurar o livro e seguir o texto com nossos próprios olhos. Render-se à voz do leitor - exceto quando a personalidade do ouvinte é dominadora - retira nossa capacidade de estabelecer um certo ritmo para o livro, um tom, uma entonação que é exclusiva de cada um. O ouvido é condenado à língua de outra pessoa, e nesse ato estabelece-se uma hierarquia (às vezes tornada aparente pela posição privilegiada do leitor, numa cadeira separada ou num pódio) que coloca o ouvinte nas mãos do leitor até fisicamente, o ouvinte seguirá amiúde o exemplo do leitor.
 
Ao mesmo tempo, o ato de ler em voz alta para um ouvinte atento força frequentemente o leitor a se tornar mais meticuloso, a ler sem pular e sem voltar a um trecho anterior, fixando o texto por meio de uma certa formalidade ritual. Nos mosteiros beneditinos ou nas salas de inverno da baixa Idade Média, nas estalagens e cozinhas da Renascença – ou ouvindo um ator ler um livro em MP3 enquanto dirigimos - a cerimônia de ouvir alguém ler sem dúvida priva o ouvinte de um pouco da liberdade inerente ao ato de ler - escolher um tom, sublinhar um ponto, retornar às passagens preferidas -, mas também dá ao texto versátil uma identidade respeitável, um sentido de unidade no tempo e uma existência no espaço que ele raramente tem nas mãos volúveis de um leitor solitário.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

sábado, 21 de março de 2015

Sobre Leitura - 05




      Ler é estabelecer relações, no plural. Relações entre o que se conhece e o que se apresenta como novo. Basicamente ler é uma capacidade adquirida e aperfeiçoada pela experiência, quer se fale canonicamente em leitura ou mesmo quando se fala, metaforicamente, de leitura de mundo. Ao falar em estabelecimento de relações, é necessário que se tenha um sujeito que execute esse processo. Esse sujeito é o leitor.

     Mas como se estabelece a diferença entre o leitor e o interlocutor, uma vez que ambos são os receptores de uma comunicação, e os responsáveis parciais pelo sentido que aí se constrói? A primeira e maior diferença entre os dois é que, enquanto o interlocutor está presente no momento da comunicação, o leitor a recebe posteriormente ao momento da produção, fato que torna essa comunicação possuidora de algumas particularidades. Na comunicação imediata, entre interlocutores, há outros fatores que podem ser levados em conta, como gestos, expressões faciais, tom de voz. Na comunicação por meio de um texto escrito, diminuem-se consideravelmente esses outros fatores que influenciam na apreensão da significação de um ato de comunicação e, portanto, são necessários cuidados adicionais para que a mensagem original preserve da melhor maneira possível o significado atribuído a ela por seu produtor. Acreditamos ser esse um dos fatores mais intrigantes da leitura: a ausência do destinatário no momento da produção do texto e a ausência do destinador no momento da recepção do texto.

     Outras questões pertinentes sobre leitura são: de onde vem, o sentido daquilo que se lê? Quem é responsável pela construção do sentido na obra: o autor, o leitor ou o texto Um pouco em cada um, e nunca completamente em nenhum. A obra, o texto, guia o leitor para que ele encontre seu significado. O leitor, guiado pela obra e pelo autor, adiciona ou subtrai da obra significados de acordo com sua própria experiência. O autor, como construtor do texto, é responsável por parte do seu significado, mas não consegue controlar toda significação produzida ali.

     Eco (1993) nos fala de livros seus cujos leitores encontraram referências sobre as quais ele não tinha pensado, mas que ele não podia negar que estavam ali construídas como significados em sua obra.

     Eco menciona também que, como autor, “escondeu” no texto certos significados que só poderiam ser descobertos por um leitor mais arguto, justificando que o texto também poderia ter sido compreendido por alguém que não conhecesse aquelas referências, mas que se tornaria mais saboroso àqueles que as reconhecessem.


Sobre Leitura - 04


     Toda vez que você começa a ler uma história, seu cérebro está à procura de razões para continuar investindo seu tempo nesse texto, ao invés de fazer alguma coisa mais divertida. Nesse processo, a história é avaliada por quatro grupos diferentes: seus instintos, suas emoções, seus pensamentos e suas intuições. Cada um deles funciona como um cérebro semi-independente, com preocupações e vontades próprias. Lógico que essa subdivisão é apenas teórica, mas ajuda a entender o processo da leitura em nosso cérebro.

Cérebro Instintivo
Quer me matar? Vai me dar prazer? É de comer? 
Seu principal objetivo é proteção da nossa integridade física. Ele está sempre atento aos estímulos do ambiente em que nos encontramos, determinando potenciais ameaças, fontes de prazer, e fontes de nutrição. O cérebro instintivo é responsável por eliminar informações desnecessárias, e focar apenas no que pode colocar nossa vida em risco, trazer prazer imediato, ou servir de alimento. Qualquer história que parecer inofensiva, desinteressante, ou inútil será descartada pelo cérebro instintivo. As histórias que estimulam o cérebro instintivo criam conflitos que coloquem em risco algo importante na vida do protagonista. Usando figuras de linguagem para dar mais sabor ao texto. Despertando perguntas intrigantes na mente do leitor sobre um tema específico.

Cérebro Emocional
Tem alguma relação com a minha vida?
Quando uma mensagem é percebida como importante, interessante ou excitante, ela é transferida do cérebro instintivo para o emocional. Seu principal objetivo é encontrar benefícios emocionais e sociais nos estímulos recebidos, tais como sensações de conforto, segurança, pertencimento, status, estima. Qualquer história que não mexer com alguma dessas sensações será descartada pelo cérebro emocional. As histórias que estimulam o cérebro emocional criam conflitos que permitam as pessoas refletirem sobre suas relações pessoais e sociais. Incluindo cenas que mostram o que está acontecendo, ao invés de apenas contar o que está acontecendo. Fazendo com que o protagonista aprenda algo sobre si, sobre as pessoas, e sobre o mundo ao final da história.

Cérebro Racional
Qual é o sentido disso tudo?
Depois de ultrapassar os filtros dos dois cérebros anteriores, o estímulo chega na parte da mente que pensa de forma lógica e complexa. Em muitos casos, decisões são tomadas pelos dois cérebros anteriores, e racionalizadas por este cérebro para justificá-las. Seu principal objetivo é reavaliar de forma sistemática a validade das informações que chegaram até ele. Qualquer história que não seja clara e coerente será descartada pelo cérebro racional. As histórias que estimulam o cérebro racional criam conflitos que estabeleçam uma sequência lógica de acontecimentos, onde cada ação/decisão do protagonista resulte em uma consequência. Usando linguagem clara e adequada à história que está sendo contada. Desenvolvendo um protagonista verossímil, contextualizando suas emoções e comportamentos.

Cérebro Intuitivo
Alguma coisa me diz que isso está certo.
Quando uma mensagem traz uma recompensa emocional, mas não conseguimos explicá-la usando somente lógica, o cérebro intuitivo entra em ação. Seu objetivo é acomodar o inexplicável, é tranquilizar os cérebros anteriores com a ideia de que nem todas as emoções e sensações podem ser explicadas racionalmente. Os estímulos que chegam até o cérebro intuitivo mexem com nossos valores morais e nossa espiritualidade. As histórias que estimulam o cérebro intuitivo criam conflitos e personagens baseados em arquétipos. Incluindo passagens que permitam ao leitor reflitir sobre sua mortalidade e humanidade. Apresentando uma verdade humana que ofereça um sentido para tudo o que o protagonista viveu durante a história.

Sobre Leitura - 03




      De acordo com a perspectiva cognitiva a leitura é um processamento de informações. Essa visão revela um caráter, fundamentalmente, mecânico do ato de ler. Faz-se essa descrição porque é importante compreender a leitura como atividade mental, ou seja, intelectual.

1ª ETAPA
Essa perspectiva teórica também considera o processo de leitura por etapas. Observa-se que, para ler o mundo e as palavras, o leitor o faz a partir de seus sentidos: audição, paladar, olfato, tato e, sobretudo, visão. Etapa determinada como momento da percepção da palavra, do objeto, dos fatos lidos. O ato de ler, neste momento, ainda não é completo.

2ª ETAPA
Segue-se a segunda etapa que compreende o processo de levar as informações apreendidas para a memória intermediária, onde elas serão organizadas em unidades significativas. Durante o ato de leitura, automaticamente a memória de trabalho aciona os conhecimentos que já estão sedimentados em grupos maiores e envia para junto destes as informações lidas, que têm relação com a experiência e com a necessidade do leitor, ou seja, são significativas. O conhecimento adquirido segue para a memória profunda ou memória semântica.

E a intermediária fica pronta novamente para receber outras informações, num processo contínuo. A esse processo de seleção do conhecimento para registro na memória chama-se fatiamento. Outra forma de esvaziar a memória intermediária é o descarte das informações que o leitor julga desnecessárias; o leitor reage dessa maneira em relação às informações que julga insignificante.

3ª ETAPA
Compreende-se como a terceira etapa a recepção do conhecimento pela memória profunda, momento em que há a compreensão real e a re-elaboração do objeto, texto lido por parte do sujeito. Percebe-se que a memória intermediária é a que trabalha ininterruptamente em um processo de esvaziamento e escolha para armazenamento de informações lidas. Logo, se o sujeito, no momento de leitura, não consegue agir de forma seletiva para armazenar informações, significa que ele descartará todas as informações lidas ou que as novas informações não fazem sentido para ele e por isso mesmo ele não conseguirá estabelecer um nexo com as unidades significativas maiores já sedimentadas. Percebe-se que a leitura é “atividade cognitiva por excelência pelo fato de envolver todos os processos mentais” 

Sobre Leitura - 02




     Extrair informação da escrita não é apenas decodificar letra por letra, palavra por palavra, mas leitura fluente só se dá quando o leitor utiliza de estratégias como: selecionar, antecipar, inferir e verificar. “É o uso, desses procedimentos que permite controlar o que vai sendo lido, tomar decisões diante das dificuldades de compreensão, arriscar-se diante do desconhecido, buscar no texto a comprovação das suposições feitas, etc.”

     Estratégias de leitura são mecanismos que cada leitor individualmente desenvolve. Nessa estratégia de seleção o leitor escolhe o que é relevante para si e descarta o que é irrelevante.

Estratégia de antecipação: é aplicada pelo leitor a cada vez que ele é capaz de prever o que está “lá na frente”, aonde seus olhos ainda não chegaram.

Estratégia de inferência: entra em ação no momento que o leitor compreende o que não está explícito no texto, isto é, o que está “nas entrelinhas” do texto.

Estratégia de verificação: se dá quando o leitor avalia se o uso das estratégias anteriores está contribuindo ou não para alcançar o seu objetivo, se as hipóteses levantadas a partir das inferências e previsões feitas podem ser confirmadas. 

Sobre Leitura - 01




    A leitura em voz alta, primeiro veio na Igreja, depois na escola. Na primeira para convencer, na segunda... para convencer também. Na escola lia-se em voz alta, tanto para convencer de que se devia ler, quanto para se ensinar o que se ler. Escolhendo o que deveria ser lido e como deveria ser lido, a escola pretendia desenvolver o gosto pela leitura. Mais que isso, a escola, e todos os que a circundavam, os inspetores e as legislações, estabeleciam critérios. O primeiro deles era o de que toda leitura deveria dar lugar a trabalho e ser, ela mesma, parte de um trabalho. Nada de se confundir leitura com ociosidade. O segundo, que dizia respeito às qualidades do que se lia, era o de que um texto seria bom se ele pudesse ser partilhado, se ele pudesse ser mostrado, lido em público. Uma leitura era, assim, uma má leitura se praticava escondido e dela se envergonharia em público, mas também era uma má leitura aquela sem controle, que poderia criar enganos no seu trabalho de interpretação, pois se feita fora das redes de sociabilidades, que sempre prevêem e fixam certo sentido e um sentido certo.

     A leitura em voz alta e pública fosse feita na escola, na igreja, na família ou mesmo em reuniões explicitamente realizadas para esse fim, criava uma pedagogia da compreensão que pretendia, assim, garantir a justa recepção. Pode-se dizer que a leitura pública não fazia parte de uma teatralização, mas de uma transmissão controlada de sentidos. A entonação do leitor, suas acentuações, seus silêncios, sua emoção, falavam pelo texto.

     Da leitura, tal como a praticamos hoje, no tempinho em que o sinal está vermelho, no ônibus, no trem, dois minutos na cama antes de desfalecer de cansaço, como companhia durante o almoço ou o café da manhã, poderia se dizer que é questão de intimidade com a leitura, com o livro, com o autor de sua preferência. 

    A partir do século 14 todo o aparato da leitura que na Antigüidade era predominantemente um ato sonoro e coletivo (voz alta), transforma-se em um ato solitário. O leitor silencioso, em geral, confunde-se com o leitor extensivo, qual seja, aquele que tem à sua disposição um número muito grande de títulos para se apropriar, comparar e fundar a partir de seus comentários e novos textos. É o oposto do leitor intensivo, predominante em toda a Idade Média, ou seja, um leitor que dispõe apenas de um pequeno número de livros, e que fazia da leitura destes textos um ato sagrado.

    O advento da imprensa de tipos móveis, criou condições para que o leitor silencioso proliferasse por toda a Europa, uma verdadeira cultura letrada desenvolveu-se à medida que os originais se multiplicavam e que a oferta de títulos aumentava vertiginosamente. Enquanto a leitura em voz alta permanecia forte nos meios populares, dedicando-se a um pequeno número de obras, em geral romances, contos populares e poemas, a leitura com os olhos se dedicava à mais ampla gama de assuntos, em especial os científicos e filosóficos, era portanto, praticada por um seleto grupo de leitores.

    No século vinte um, proliferaram dezenas de novos modelos de suporte para leitura. Desta vez tinha-se a impressão de que voltaríamos ao passado. Sim, porque o texto estava mais uma vez rolando em algo, desta vez, não através do Vólumen mas pelo Écran (tela do computador) e com a ajuda da barra de rolagem. O texto eletrônico permite, de alguma forma, que possamos ler num suporte muito próximo ao modelo do caderno, em termos de tamanho e peso, porém como se fosse em rolos. O Vólumen levava os pensamentos ali escritos em uma unidade. O caderno, tão moderno e tão sofisticado em si, leva folhas presas, grampeadas ou costuradas. Da evolução do Vólumen ao Écran, passamos pelo Códex e chegamos aos eBooks.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Ler e-book, sim ou Não?!


... Para o leitor tradicionalista, publicações em papel têm um apelo sensorial; e também o da coleção. É como se ele precisasse, de alguma forma, materializar e possuir para sempre os objetos de suas paixões... Para ele, os bons textos lidos devem enfeitar, além da alma, também as prateleiras. De minha parte, quando julgo oportuno conservar algo concreto de um livro, prefiro o arquivo eletrônico, pois com ele posso achar facilmente eventuais trechos que desejo rememorar...

O conforto na leitura é um dos argumentos não emocionais mais comumente usados pelos defensores das publicações em papel, mas, a meu ver, um dos mais fracos. O volume encadernado teria maior manuseabilidade, seria de leitura mais fácil e se adaptaria a qualquer situação e lugar (ônibus, praia, cama etc.). Seria tudo isso verdade? Vejamos… Para ganhar uma boa empunhadura, não raro o livro físico precisa ser esgarçado na lombada, liberando minimamente as mãos do esforço de mantê-lo aberto (algo impensável se o leitor pretende preservar a boa aparência de seu futuro enfeite de estante). Em ambientes pouco iluminados, o papel – incapaz de emanar luz própria – exige artifícios como abajures ou lâmpadas bem posicionadas, ao contrário dos displays digitais (os mais modernos utilizam a tecnologia da tinta eletrônica e têm iluminação reflexiva, não agressiva aos olhos). Além disso, não há recursos no livro físico para aumentar fontes originalmente pequenas. Não foram poucas as vezes em que desisti de ler (ou forcei desconfortavelmente a vista) por estar em local escuro, por não ter como ajustar a lâmpada na direção necessária, por não conseguir adaptar meus olhos às letras ou por estar sem posição (ou “sem mão”) para segurar o livro com conforto. Nada disso aconteceria com um e-book reader, que é tão facilmente transportável quanto qualquer publicação física, com a vantagem adicional de um único aparelho armazenar incontáveis títulos. Leva-se uma biblioteca na bolsa.


Diante de tantas vantagens a favor dos e-books, talvez esteja faltando apenas uma fase de adaptação e desapego (como a experimentada pelos audiófilos) para o público abraçar de vez a leitura digital. Mas as editoras e os fabricantes dos readers também precisam fazer a sua parte. Muitos leitores adaptados ao e-book (e a parcela dos reticentes que gostaria de dar uma chance ao novo formato) reclamam da pouca oferta de títulos digitais e dos preços cobrados por eles, que podem chegar a inexplicáveis 70% em relação às versões físicas. E os aparelhos ainda representam um custo considerável para aqueles que desejam se tornar definitivamente um leitor dos novos tempos. Superando-se essas e outras barreiras, é bem provável uma inversão de papeis em breve: o e-book pode passar a ser o padrão; o livro físico, a alternativa.

Texto “E-books: ter ou não ter, eis a questão” de Sergio Carmach 

Fonte: APED Editora - Texto na íntegra AQUI!


Leitura Auditiva



Recentemente descobri o site Ciência Hoje, e comecei a realizar o que chamo de “LEITURA AUDITIVA”. Sabendo que tudo passa rapidamente na rede, tratei logo de baixar uma dezena de arquivos para ouvir. Não estou falando de livros falados! Falo de entrevistas fantásticas sobre temas sensacionais com gente pra lá de articulada e cabeça. Tudinho em arquivo MP3. Espero aquele momento de entrar no ônibus ou na fila do banco, colocar o fone e dele leitura. Esses são alguns temas que baixei: 

A Influência da computação na educação.
A origem das línguas.
Ciência e ficção.
Línguas ameaçadas.
O mensageiro do cérebro.
Uma nova espécie humana entre nós?
Entre o físico e o virtual.
Mitologia mecanismo de memória.

Abaixo está o link, escolha um tema e faça a experiência, leia com os ouvidos, ou, como diria o personagem Mestre do livro Ordem dos Fantasmas: “veja com os ouvidos”!


Gostamos desse texto!


Para compreender, adequadamente, a importância da leitura e da escrita em nossas vidas, precisamos compreender que assim como o nosso corpo material precisa de alimento, o espiritual também. É importante aqui corrigir uma falsa ideia, a de que os termos 'espiritual' ou 'espiritualidade' referem-se exclusivamente ao seu sentido religioso. É compreensível que isso ocorra, por que é aí que os que têm fé na divindade elaboram e abrigam suas idéias e sentimentos em relação ao sagrado.

Entretanto, ateus também tem fé em um mundo melhor e de que as pessoas podem mudar. Possuem seu lado espiritual, só que no sentido não religioso do termo, onde elaboram idéias, afetos, esperanças. E também espiritualidade, no sentido de ligação com a natureza, com o Cosmo...

Outra falsa ideia é que podemos comunicar a verdade. Podemos percebê-la, mas ao comunicar sobre ela, levamos junto uma parte da nossa subjetividade como observador. Então, não existe comunicação imparcial. O que é verdadeiro para um pode não ser para o outro... Por que não existe uma pessoa igual à outra, e também não pode existir verdade única, religião única, pensamento único. E isso inclui esta própria afirmação que acabo de fazer, daí a dificuldade de se andar em terreno firme e seguro quando o assunto é a subjetividade.


Então, ler e escrever é muito mais que dominar técnicas literárias, é obter as chaves desse mundo interior, de nossa verdade, e ter acesso a dos outros. Uma forma de nos ajudar a perceber, compreender e elaborar nossa própria subjetividade contribuindo para dar sentido ao mundo, a nós próprios e aos outros. Claro que existem outras formas de fazer isso, principalmente nas culturas orais, mas na cultura letrada, ler e escrever são fundamentais para ser e sentir-se adequadamente inseridos no mundo. 

Precisamos disso, pois ao contrário do que possa imaginar, o processo de formação do sujeito é na verdade uma auto-formação. A educação, os livros, a cultura, os meios de comunicação exercem influências sobre nós, mas o que somos resulta de nossas escolhas. Comunicadores em geral, educadores, e escritores, em particular, cumprem com o papel social de nos ajudar a construir nossa subjetividade, nossa compreensão da verdade e utopias e, embora não escolham por nos, contribuem para iluminar nossos caminhos. 

Outra falsa ideia é que a pratica é mais importante que a teoria. A prática começa nas idéias. A motivação para agir não está na própria ação, mas em nosso mundo interior. E como a leitura e a escrita nos conectam a este mundo, nos incentivam - ou não - a agir seja para manter as coisas como estão ou para mudá-las. Por essa razão, jornalistas, artistas e escritores são os primeiros a sofrer censura e prisão em regimes opressores, idéias podem ser armas mais poderosas que fuzis e granadas. Não é por acaso que nos regimes democráticos exista tanta preocupação em controlar os meios de comunicação...


Expressar-se na forma escrita não é um simples ato de colocar palavras num papel ou digitar num teclado. A maior parte da ação de escrever é invisível para os olhos, acontece no mundo interior de quem escreve e pode refletir este esforço de buscar o equilíbrio entre as emoções, o pensamento e as praticas... a internet, os novos celulares, a banda larga, tem facilitado a vida de quem gosta de escrever e quer ser lido. Publicar deixou de ser privilégio de poucos... 

O ideal é quando o escritor consegue reunir à sua volta pessoas que compreendem que o ato de escrever não é apenas físico, mas requer recolhimento, silêncio interior, para ouvir-se e ouvir seus fantasmas, angústias, desejos, 'conversar' com seus amigos espirituais... assim como construímos redes de afetos no mundo físico, também o fazemos no mundo espiritual. Os escritores que gostamos formam nossa espécie de rede de 'amigos' espirituais, com os quais compartilha ideias, afinidades e valores, ainda que muitos já possam ter morrido a milênios ou vivam do outro lado do Planeta. Por isso, um escritor nunca esta só em seu mundo interior ... 

Mais que escrever para seu próprio prazer escreve-se por necessidade e dever. Escrever é a função social do escritor, seja para entreter, seja para ajudar na analise da conjuntura, mostrar alternativas, denunciar as falsas idéias e injustiças. Por isso, um texto não está completo quando é divulgado, mas quando é lido. E quando isso acontece, nenhum texto é igual ao outro, pois ao passar pelos olhos e pelo mundo interior do leitor, ganha nuances e identidade própria e particular... Sem os leitores, os textos não vão a lugar algum, não transformam coisa alguma, não amam nem são felizes. Não são os textos que mudam as coisas. São as pessoas. 

Texto de Vilmar Sidnei Demamam Berna 
Fonte: Vilmarberna.com.br 
Texto na íntegra AQUI!


Literatura com Ciência!


O poeta e crítico norte-americano Ezra Pound preconizou, que os artistas estão em tal sintonia com a profundidade do mundo que são capazes de “prever o futuro”. Você sabia que nosso Machado de Assis está entre esses escritores das mais diferentes estirpes, gêneros e nacionalidades que rivalizam com seus colegas de ficção científica e fazendo antecipações dignas de Júlio Verne!

Saiba mais AQUI!