quinta-feira, 2 de abril de 2015

O leitor movente, fragmentado



É o leitor que surge pós Revolução Industrial, aquele que viu as locomotivas trazendo esperanças em formato de produtos produzidos em grande escala, que ganharam horários rígidos nas fábricas e que tudo isso, junto com o cinema, a luz elétrica, o telégrafo, depois os jornais, revistas e tudo que poderia cercar as pessoas com informações. Todos os lugares tinham textos que acendiam e apagavam nos luminosos dos estabelecimentos comerciais dos mais diversos tipos, além de cartazes de propaganda, rótulos de produtos, fachadas, automóveis, placas de sinalização. Médicos, veterinários e advogados viraram produtos também. Os centros comerciais e as ruas e passaram a ser grandes vitrines com todo tipo de informação, que é lida rapidamente e sem intimidade, numa batida de olhos, onde pessoas passam a todo momento praticamente que despercebidas entre o leitor e elas, que também podem ser leitores desse tipo. Imagens e textos que seduzem e fazem produtos serem vendidos ou simplesmente desejados. Todo mundo (leitores moventes) lendo tudo ao redor, rapidamente e com menos concentração e com a pressa que a vida pós Revolução Industrial foi emprestando pra todos. É o leitor intermediário entre o contemplativo e o imerso.

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O leitor imerso, virtual



Com todos os aparatos digitais e possibilidades, não é difícil de imaginar como é esse tipo de leitor. Nada de rolos de papel como na Antiguidade, nem de grandes blocos de papel, nem objetos que o fazem tropeçar em diversos elementos que podem ser lidos e notados, como na letra de “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso. Nada de ordem para ler. O leitor imerso está a todo tempo em prontidão para receber e ler novas informações, traçando seu próprio caminho em navegações alienares ou multilineares. É o leitor que passeia por várias dimensões de conteúdos através dos nós que as une, que pode ter uma leitura que não tem fim, que entrecruza os dados com outros textos, os compara e gera um terceiro ou um quarto conteúdo.

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O leitor e o narrador solidário



O narrador, distante dos fatos narrados, não se interpõe entre o leitor e o texto, pelo contrario, propõe um distanciamento, e o leitor obriga-se a compreender a historia, a partir das poucas indicações dadas.

Os narradores assumem postura democrática ou, por não se darem conta da complexidade de algumas personagens, cedem-lhes a voz e elas assumem a narração. Quem vive a ação pode ser o porta-voz dos fatos, propiciando mais veracidade ao relato, e ainda priorizando a liberdade. A apresentação de diferentes perspectivas de um mesmo fato pode ser entendida como um ato de solidariedade ao leitor. Além disso, quando outras personagens contam suas historias, podemos dizer que o leitor encontra brechas que lhe permitem sair da trama da narrativa.

Ao se deparar com estes narradores, o leitor encontra algo que lhe é util. Essa utilidade pode consistir num preceito moral, numa sugestão pratica, num provérbio ou num principio de vida que constituirão um padrão de comportamento assentado na generosidade, na tolerância, no respeito, na solidariedade. A partir desses valores, o leitor poderá apresentar virtudes que se erguem contra a intransigência e a opressão. Mesmo assim, esse dar conselhos parece ao leitor algo inadequado, já que as experiências estão deixando de ser comunicáveis. Portanto, esse leitor se depara com um narrador que verbaliza a comunicação narrativa de uma forma que ele se encontra nela e assim alcança a sabedoria que lhe será util. Dessa forma, aconselhar e menos responder a uma pergunta do que fazer uma sugestão ao leitor sobre a continuação de uma historia que esta sendo narrada. Para obter essa sugestão, o narrador necessita saber narrar a historia (sem contar que um homem só e receptivo a um conselho na medida em que verbaliza a sua situação). Narrador e leitor interagem, são cúmplices, e o conselho tecido na substancia viva da existência passa a ter um nome: sabedoria (Ibidem, p. 200).

O leitor, muitas vezes, não precisa refletir, já que encontra personagens e situações que se revelam diretamente a ele sem a intervenção do narrador, mas deixa que os fatos atuem sobre a sua sensibilidade, através do discurso direto, privilegiado pelas narrativas, com sua capacidade de comunicação em reproduzir as palavras das personagens sem subordiná-las as do narrador. Assim, a utilização progressiva desse recurso aproxima-se da estrutura dialogada. Esse modo de expressão lingüística acentua a situação vital de cada uma das protagonistas, que são descritas em uma linguagem mais próxima da vida real e que se entregam ao leitor em um jogo afetivo.

Quando encontra vocábulos aparentemente desconhecidos, o leitor é capaz de preencher brechas trazidas pela narrativa. Como no exemplo em que Alice não tinha a menor ideia do que fosse uma latitude ou uma longitude. Nesse trecho da obra, o narrador não explica o significado dessas palavras, deixando que o leitor construa a sua significação. Esse leitor apreende significados de novos vocábulos sem que isto seja feito de maneira explicativa, porque e capaz de realizar associações. Em Narizinho Arrebitado, o narrador apresenta o seguinte episodio: “Nisto apareceu ao longe um formidável espadarte. Vinha com o seu comprido esporão de pontaria feita para o cetáceo, que e como os sábios chamam a baleia” (LOBATO, 2005, p. 12). Ele traz uma explicação para cetáceo. Assim o leitor amplia o seu vocabulário. Essa situação aponta solidariedade.

O leitor contemplativo, meditativo



Desde Idade Média, quando se instituiu que a leitura nas bibliotecas seria feita em silêncio, uma grande mudança ocorreu no processo de entendimento de um texto: depois de séculos a leitura passaria a ser algo muito mais íntimo e pessoal, sem a presença de um orador, sem interferências externa e apenas feita pelo movimento dos olhos e o virar das páginas. É nesse momento que nasce o leitor contemplativo. Esse tipo de leitor se isenta de situações mundanas para se concentrar na leitura, numa atividade solitária, que pode ser interrompida para reflexão, retornada, feita novamente por dezenas de vezes até que o entendimento seja feito do modo desejado. É o leitor que procurou o isolamento para absorção do conteúdo, que não se preocupa com quanto tempo faz que esteja lendo nem tem pressa pra terminar. Da mesma maneira poderiam “ler” quadros ou esculturas numa galeria ou admirar e perceber a arquitetura que o cerca.

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Níveis de leitura



Para Adler, existem quatro níveis de leitura. Repare que são "níveis" e não "tipos", porque os níveis mais altos absorvem os mais baixos. São eles, do mais baixo para o mais alto:
   1.   Leitura Elementar - corresponde ao nível ensinado na escola primária. A preocupação de quem lê nesse nível é com a linguagem em si, a decodificação da escrita, que com qualquer outra coisa. A pergunta que norteia esse nível é: "O que a frase diz?".
   2.   Leitura Averiguativa (também chamada de "pré-leitura" ou "garimpagem") - este nível é voltado para a melhor avaliação possível de um texto ou livro num período curto de tempo. Por exemplo, quando estamos de passagem por uma livraria, vemos um livro que parece interessante e precisamos saber se ele é bom antes de decidirmos se vamos comprá-lo. Existem alguns bons macetes para isso, dos quais trataremos mais adiante. Por ora, basta saber que a pergunta básica deste nível é: "Este livro é sobre o quê?".
   3.   Leitura Analítica - é a leitura completa, a melhor que se pode fazer, ativa por excelência. No dizer de Adler, "se a leitura averiguativa é a melhor que se pode fazer num determinado período de tempo, então a leitura analítica é a melhor leitura possível quando não existe limite de tempo". É um nível de leitura voltado basicamente para a compreensão, de modo que, se seu objetivo é apenas informação ou entretenimento, ele pode não ser necessário.

   4.   Leitura Sintópica ou Comparativa - implica a leitura de muitos livros sobre um certo tema, pondo-os em relação uns com os outros e com o tema. Estudantes de Ciências Humanas são obrigados a se familiarizar com ela. É o nível mais difícil de se alcançar, e não há pleno acordo sobre suas regras. Porém, é também o mais recompensador de todos os níveis.

Livros Raros



Ao longo de um ano, milhares de livros são publicados e estão à disposição de bibliotecas, sebos e livrarias físicas ou digitais com material diverso. No entanto, mesmo com tanta disponibilidade dos bibliófilos de encontrarem livros, existem algumas peculiaridades na coleção de livros que fazem com que alguns deles sejam mais procurados e almejados que outros. Essas peculiaridades são: raridade, condição (estado físico do livro), primeiras edições, e outras características como erratas e autógrafos, inscrições, marginália, ex-líbris e o quanto é procurado. De certa forma, as peculiaridades citadas também valem para outros tipos de coleções em geral.
Raridade: Quando se trata de raridade, deve-se tomar cuidado porque ela é relativa e depende de alguns fatores. A primeira grande impressão é pensar que livros velhos são raros. Livro velho nem sempre é raro, existem livros velhos que nada valem, mas livros antigos publicados no berço da invenção da tipografia de Gutenberg ou anteriores a 1504, os incunábulos, como são conhecidos, que são raros, pois sobreviveram ao castigo do tempo e foram preservados por gerações de bibliófilos e bibliotecários.
Um livro não é valioso porque é antigo, toda biblioteca pública está cheia de livros antigos, que, se fossem postos à venda, não valeriam mais que o seu peso como papel velho. O valor de um livro nada tem que ver com a sua idade.
Unicidade: outra característica importante que pode tornar um livro em raridade é sua unicidade. Entretanto, o fato de um livro ser único também não indica que é raro, pois é impossível pré-determinar as características de um livro raro, porque cada livro é um universo restrito de manifestações culturais – originais e acrescentados.

Condição: o estado de um livro e sua conservação também é importante. Mas, a conservação de livros não se aplica somente ao papel, mas também ao tipo de matéria usada na encadernação e, se for original, o livro pode valer mais ainda.
Primeiras edições: as primeiras edições também são características muito almejadas pelos amantes dos livros. O livreiro A.S.W. Rosenbach (1873-1946), um dos maiores caçadores de obras raras americanas e um dos primeiros a usar a coleção de livros como fonte de investimento financeiro, certa vez disse: “uma primeira edição para um autor é tão seu trabalho original quanto uma pintura é para um pintor”. A esse fator podemos lincar a popularidade do autor e a aceitação do público pela obra.
Outras características: Livros também costumam a ser valorizados quando possuem assinaturas, dedicatórias ou comentários do autor sobre a primeira edição impressa, ou comentários de outros escritores.

Ex-líbris são selos ou figuras ricamente ilustradas e com citações geralmente em latim feitas para identificar o dono do livro. É como um carimbo que marca a posse da obra – em geral rara. Os ex-líbris ajudam a identificar o valor do livro e também são objetos em si de colecionismo.

Erratas também podem tornar livros raros, como no caso da bíblia inglesa de 1631, que vale muito dinheiro, simplesmente por que o tipógrafo esqueceu o ‘não’ ao Imprimir o Sétimo Mandamento ‘Não cometerás adultério’. A brincadeira custou trezentas libras ao gaiato e toda a edição foi queimada, com receio de que os leitores não percebessem o engano e seguissem o mandamento tal qual tinha sido impresso. Mas sobraram quatro exemplares.
Roger Chartier resume a maioria desses conceitos na afirmação:
Mesmo em tempos de massificação e de universalização, não se poderá impedir os colecionadores de construir a raridade. Porque apesar da raridade poder ser objetiva, ela é, de fato, com freqüência construída. Um livro é raro a partir do momento em que há bibliófilos para procurá-lo. Se não há ninguém interessado, mesmo que tenha sido publicado em um único exemplar, ele não é raro. É uma história absolutamente apaixonante a da bibliofilia, que começa no fim do século XVII ou no começo do século XVIII, nos meios financeiros, e supõe que seja definido o universo do colecionável. Podem ser todos os livros impressos antes de certa data, ou todos os livros que têm o mesmo suporte material, rico e luxuoso, ou todos os livros que pertencem ao mesmo gênero literário, ou ainda todos os livros saídos da mesma oficina tipográfica etc. Um critério de raridade se põe em marcha, definindo o colecionável pela série. Daí, livreiros que se especializam neste mercado publicam catálogos descrevendo as obras que são postas à venda segundo regras particulares, atentas às particularidades de cada exemplar. Progressivamente, o gosto desses colecionadores será conduzido com mais facilidade (mas não necessariamente) para os objetos mais custosos, fazendo do livro raro um investimento.

Fonte
MONOGRAFIA DE CONCLUSÃO DO CURSO DE BIBLIOTECONOMIA
AUTOR: FERNANDO MUSTAFÁ COSTA
Orientador: Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro
São Paulo, 05 de dezembro de 2009
TCC_Bibliofilia_Fernando Mustafa
Endereço para PDF na integra:

Ler, quase como respirar



Cego, Jorge Luis Borges aperta os olhos para melhor escutar as palavras de um leitor que não se vê. Aos quatro anos de idade descobri pela primeira vez que podia ler. Eu tinha visto uma infinidade de vezes as letras que sabia (porque tinham me dito) serem os nomes das figuras colocadas sob elas. Foi como adquirir um sentido inteiramente novo, de tal forma que as coisas não consistiam mais apenas no que os meus olhos podiam ver, meus ouvidos podiam ouvir, minha língua podia saborear, meu nariz podia cheirar e meus dedos podiam sentir, mas no que o meu corpo todo podia decifrar, traduzir, dar voz a, ler... Ler as letras de uma página é apenas um de seus muitos disfarces. O astrônomo lendo um mapa de estrelas que não existem mais; o arquiteto japonês lendo a terra sobre a qual será erguida uma casa, de modo a protegê-la das forças malignas; o zoólogo lendo os rastros de animais na floresta; o jogador lendo os gestos do parceiro antes de jogar a carta vencedora; a dançarina lendo as notações do coreógrafo e o público lendo os movimentos da dançarina no palco; o Tecelão lendo o desenho intrincado de um tapete sendo tecido; o organista lendo várias linhas musicais simultâneas orquestradas na página; os pais lendo no rosto do bebê sinais de alegria, medo, admiração; o adivinho chinês lendo as marcas antigas na carapaça de uma tartaruga; o amante lendo cegamente o corpo amado à noite, sob os lençóis; o psiquiatra ajudando os pacientes a ler seus sonhos pertubadores; o pescador havaiano lendo as correntes do oceano ao mergulhar a mão na água; o agricultor lendo o tempo no céu - todos eles compartilham com os leitores de livros a arte de decifrar e traduzir signos. Algumas dessas leituras são coloridas pelo conhecimento de que a coisa lida foi criada para aquele propósito específico por outros seres humanos...

E, contudo, em cada caso é o leitor que confere a um objeto, lugar ou acontecimento certa legibilidade possível, ou que a reconhece neles; é o leitor que deve atribuir significado a um sistema de signos e depois decifrá-lo. Lemos a nós mesmos e ao mundo à nossa volta para vislumbrar o que somos e onde estamos. Lemos para compreender, ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase como respirar, é nossa função essencial.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Leitura tem uma história



Uma coisa pode ser dita da história da leitura. Sua cronologia não pode ser a mesma da história política. O escriba sumério para quem a leitura era uma prerrogativa muito valorizada tinha um sentimento mais intenso de responsabilidade do que o leitor de hoje em Nova York ou Santiago, pois um artigo da lei ou um acerto de contas dependia de sua exclusiva interpretação. Os métodos de leitura da Idade Média, definindo quando e como ler, distinguindo, por exemplo, entre o texto a ser lido em voz alta e aquele a ser lido em silêncio, estavam muito mais claramente estabelecidos do que aqueles ensinados na Viena fin-de-siècle ou na Inglaterra eduardiana. Uma história da leitura também não pode seguir a sucessão coerente da história da crítica literária; os receios expressos pela mística do século XIX Anna Katharina Emmerich (de que o texto impresso jamais se equipararia à sua própria experiência) foram expressos de forma muito mais forte 2 mil anos antes, por Sócrates (para quem os livros eram um empecilho à aprendizagem), e, em nossa época, pelo crítico alemão Hans Magnus Enzensberger (que elogiou o analfabetismo e propôs a volta à criatividade original da literatura oral). Essa posição foi refutada, entre outros, pelo ensaísta americano Allan Bloom. Com esplêndido anacronismo, Bloom foi emendado e melhorado por seu precursor, Charles Lamb, o qual confessou, em 1833, que amava perder-se "na mente de outros homens. Quando não estou andando, estou lendo; não posso sentar e pensar, os livros pensam para mim. A história da leitura também não corresponde às cronologias das histórias da literatura, pois a história da leitura de um determinado autor encontra muitas vezes um começo não com o primeiro livro desse autor, mas com um dos futuros leitores dele: o marquês de Sade foi resgatado das estantes condenadas da literatura pornográfica, onde seus livros jaziam havia mais de 150 anos, pelo bibliófilo Maurice Heine e pelos surrealistas franceses. William Blake, ignorado por mais de dois séculos, começa em nossa época com o entusiasmo de sir Geoffrey Keynes e Northrop Frye, que o tornaram leitura obrigatória em todos os currículos escolares.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Leitura superficial



Essa leitura é realizada após a leitura de averiguação onde você será capaz de obter muito sobre o livro, e se ele vale uma leitura analítica. Se não valer, nem por isso deixará de saber as idéias principais do autor, que tipo de obra escreveu e ampliar sua cultura geral, quem sabe deixando o livro para uma consulta futura.

Mas suponhamos que o livro valha a pena e você opte por lê-lo de fato, ou, o que é bem possível, simplesmente tenha de lê-lo por obrigação. Ao fim de algumas páginas atentas, você descobre que a obra é complexa. Muito complexa. Você chega à página 15 e se dá conta de que não está entendendo as coisas como deveria, e torna a ler do começo. Esbarra em algumas palavras ou frases obscuras, tenta decifrá-las e descobre que está perdendo muito mais tempo do que gostaria empacado nas primeiras páginas. E a leitura se torna uma angústia.

Os leitores de primeira viagem de literatura clássica talvez se identifiquem com essa situação. Qualquer curioso mediano que, na adolescência, tenha tentado ler Shakespeare ou Camões, ou simplesmente um poema nas aulas de Literatura, foi sério candidato a esse tipo de frustração. Para alguns, entender a Teoria da Relatividade pode ser muito mais simples que ler Machado de Assis.
"O enorme prazer que vem de ler Machado de Assis, por exemplo, foi estragado para gerações de estudantes secundários que eram forçados a avançar pagina a pagina, decifrando todas as palavras estranhas num glossário e estudando todas as notas acadêmicas de rodapé. O resultado disso é que eles nunca leram de fato Machado de Assis. Quando eles chegavam ao final, já tinham esquecido o início e já tinham perdido a visão de conjunto. Em vez de serem forçados a adotar essa abordagem pedante, eles deveriam ser encorajados a ler de uma vez só e discutir o que tivessem assimilado desta primeira e rápida leitura. Só então eles estariam prontos para estudar o livro cuidadosamente, porque já teriam entendido o suficiente sobre ele para aprenderem mais."

Leia sem se angustiar pelos pontos obscuros, pelas notas de rodapé herméticas, pelos neologismos mal-explicados e as referências exóticas. Essa primeira leitura, aqui chamada de "superficial" no sentido positivo, serve para nos familiarizar com a obra em todos os seus aspectos: idéias centrais, estilo, vocabulário etc. Ela vai identificar os pontos mais ou menos difíceis, vai nos sinalizar para o tipo de ajuda de que talvez possamos precisar, vai nos preparar, enfim, para a segunda leitura e o alargamento da compreensão -- o benefício mais duradouro de uma boa leitura.

Pode ser que tenham nos ensinado justamente o contrário. Muitos pais e instrutores bem intencionados ensinam a procurar no dicionário qualquer termo obscuro, ou pesquisar sobre algum tema desconhecido que surja no texto. Isso não está errado, mas deve ser feito no momento certo, sem interromper a leitura inicial. Especialmente porque esses detalhes geram uma angústia que tornam a leitura uma atividade penosa.

Leitura segundo Jouve



Para Jouve (2002, p. 17) “a leitura é uma atividade complexa, plural, que se desenvolve em várias direções” e é um processo que possui cinco dimensões. Primeiro, um processo neurofisiológico, levando-se em conta o aparelho visual e as diferentes funções do cérebro. “Ler é, anteriormente a qualquer análise de conteúdo, uma operação de percepção, de identificação e de memorização de signos”. Em segundo lugar, trata-se de um processo cognitivo, que é quando o leitor, depois de perceber e decifrar os signos, “tenta entender do que se trata”.

Nesse momento, é solicitada a competência do leitor. O terceiro processo é afetivo. “As emoções estão de fato na base do princípio de identificação, motor essencial da leitura de ficção.” (p. 19) São as emoções provocadas pelo texto ficcional no leitor que selam com ele o contrato que o levará a continuar a leitura. Para a semiótica, pode-se dizer que aí entram os estudos da paixão no texto. Em quarto lugar, a leitura é considerada por Jouve um processo argumentativo, um discurso de um autor que quer convencer seu leitor de algo. “Qualquer que seja o tipo de texto, o leitor, de forma mais ou menos nítida, é sempre interpelado. Trata-se para ele de assumir ou não para si próprio a argumentação desenvolvida.” (p. 22). Essa afirmativa corrobora a idéia da existência de um contrato de continuidade de leitura feito entre autor e leitor. É preciso que esse contrato seja aceito pelo leitor para que aconteça e se valide a leitura. O quinto e último processo é colocado como simbólico, querendo-se falar com isso da interação da leitura com a cultura e com os esquemas dominantes de um meio ou uma época. A época modifica o modo de leitura de uma obra, e uma obra pode também, por sua vez, modificar o modo de ler dos leitores de determinada época.

Leitura Passiva e Ativa



A leitura passiva seria aquela em que predomina a mera recepção de informações. Você decodifica o texto, não pensa sobre ele. É ler com a postura com que geralmente costumamos ver televisão. Um caso extremo é quando lemos um texto de maneira superficial, "passando os olhos", sem realmente nos interessarmos por ele. O resultado é apenas uma memorização mais ou menos superficial do que se leu.

A leitura ativa digna desse nome é aquela em que o leitor se esforça ao máximo para captar a mensagem que o autor tenta lhe transmitir. Ele dialoga com o texto que tem diante dos olhos, tenta determinar suas idéias centrais e a ligação entre elas. Enfim, o leitor verdadeiramente ativo é aquele que "está presente" na leitura, alerta, empenhado em compreender a mensagem do autor. Quanto mais ativo ele é, mais eficaz será sua leitura.

Resumindo: A qualidade de uma leitura depende do esforço investido nela, pelo menos em se tratando de livros inicialmente acima de nossa capacidade e que por isso são capazes de nos levar à transição de um estado de entender menos para um estado de entender mais.

http://pt.scribd.com/doc/55141972/A-Arte-de-Ler-Mortimer-j-Adler#page=10

Leitura na imagem



Não sabemos como era o mosteiro de são Nilo nem onde se localizava exatamente, mas em uma de suas muitas cartas, ele descreve certos traços ideais da decoração eclesiástica que, podemos supor, foram usadas em sua própria capela. O bispo Olimpidoro consultara-o sobre a construção de uma igreja que desejava decorar com imagens de santos, cenas de caça, pássaros e animais. São Nilo aprovava a representação de santos, mas condenava as cenas de caçada e de animais como "frívolas e indignas de uma alma cristã viril", sugerindo, em vez disso, cenas do Velho e do Novo Testamento, "pintadas pela mão de um artista bem-dotado". Tais cenas argumentavam dispostas em ambos os lados da Santa Cruz, serviriam "como livros para os iletrados, ensinando-lhes a história bíblica e incutindo neles a crônica da misericórdia de Deus".

São Nilo imaginava os crentes analfabetos aproximando-se dessas cenas em sua igreja funcional e lendo-as como se fossem as palavras de um livro. Imaginava-os olhando a decoração não mais constituída de "adornos frívolos"; imaginava-os identificando as imagens preciosas, ligando-as mentalmente umas às outras, inventando histórias para elas ou associando as imagens familiares associações com os sermões que tinham ouvido, ou então se não fossem totalmente "iletrados", com exegeses das Escrituras.

Dois séculos depois, o papa Gregório, o Grande, faria eco às idéias de Nilo: "Uma coisa é adorar imagens, outra é aprender em profundidade, por meio de imagens, uma história venerável. Pois o que a escrita toma presente para o leitor, as imagens tomam presente para o analfabeto, para aqueles que só percebem visualmente, porque nas imagens os ignorantes vêem a história que têm de seguir, e aqueles que não sabem as letras descobrem que podem, de certo modo, ler. Portanto, especialmente para a gente comum, as imagens são equivalentes à leitura".

Para os antigos romanos, o símbolo de um deus (a águia para Júpiter, por exemplo) era um substituto do próprio deus. Nos raros casos em que Júpiter é representado junto com sua águia, ela não é uma repetição da presença do deus, mas torna-se seu atributo, tal como o raio. Para os cristãos primitivos, os símbolos tinham essa dupla qualidade, não representando apenas os temas (a ovelha como Cristo, a pomba como o Espírito Santo), mas também aspectos específicos do tema (a ovelha como o Cristo sacrificado, a pomba como a promessa de libertação do Espírito Santo). Não se destinavam a ser lidos como sinônimos dos conceitos ou meras duplicatas das divindades. Em vez disso, expandiam Graficamente certas qualidades da imagem central, comentavam-nas, sublinhavam-nas, tornavam-nas temas por si mesmos.

Evidentemente, não era isso que são Nilo tinha em mente. Em 787, o Sétimo Concilio da Igreja, em Nicéia, deixou claro que a congregação não tinha liberdade para interpretar as figuras mostradas na igreja, nem o pintor estava livre para dar ao seu trabalho qualquer significado ou solução particular: "A execução de pinturas não é uma invenção do pintor, mas uma proclamação reconhecida das leis e da tradição de toda a Igreja. Os padres antigos fizeram com que fossem executadas nas paredes das igrejas; é o pensamento e a tradição deles que vemos, não os do pintor. Ao pintor cabe a arte, mas a disposição pertence aos Pais da Igreja".

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Leitura de Averiguação



Trata-se de uma pré-leitura, uma inspeção mais ou menos rápida de um material de que, por limitações de tempo, você não pode dar conta por inteiro ainda. Isso não significa que seja pouco útil, muito pelo contrário. Pessoas que têm uma grande carga de leitura sejam profissionais ou estudantes, podem se beneficiar muito com o conhecimento de técnicas simples da leitura de averiguação.
Aqui vai uma lista de sugestões para uma boa garimpagem, divididas em duas fases para fins didáticos. A primeira tem como finalidade saber se o livro merece uma leitura mais atenta; a segunda, facilitar a leitura de um livro difícil:
»   Comece pela capa e pela folha de rosto. Muitos livros hoje têm títulos comerciais que não dizem nada sobre seu conteúdo, mas deixam uma pista no subtítulo. Veja o que ele diz, se houver um. Livros expositivos, de não-ficção, normalmente têm um. Também preste atenção ao nome do autor. Soa familiar? Existe alguma referência extra? Livros de autores de algum renome freqüentemente mostram ao lado do seu nome uma indicação do tipo "Autor de [nome de obra mais conhecida]". Também verifique a edição do livro; uma obra com várias edições e/ou reimpressões certamente é bem-sucedida e pode dar uma idéia da sua popularidade.
   »   No verso da folha de rosto costuma ficar a ficha catalográfica do livro, com a notação bibliográfica e os tópicos que ele aborda. Isso é muito importante, especialmente quando se trata de livros de caráter mais acadêmicos. Por exemplo, na ficha catalográfica do excelente "A Educação dos Sentidos", de Peter Gay, editado pela Companhia das Letras, ficamos sabendo que o livro trata de:
1. Classe média - História - século 19. 2. Sexo (Psicologia) - Aspectos sociais - século 19.
Ou seja, em uma ou duas linhas, ficamos sabendo que o livro trata da história dos aspectos sociais e da psicologia do sexo das classes médias no século 19. E ainda nem lemos uma única frase que realmente tenha sido escrita pelo autor

   »   Em linhas gerais agora você sabe do que trata o livro, passando aos detalhes -- o índice. É o mapa da estrutura do livro e há autores que se esmeram na sua confecção, especialmente quando se trata de ensaios e trabalhos acadêmicos. Obras antigas eram extremamente minuciosas nos seus índices, com títulos que chegavam a ser verdadeiras sinopses. Porém, hoje em dia, esse é um hábito que caiu em desuso, e os velhos índices analíticos muitas vezes dão lugar a índices com títulos misteriosos que mais parecem peças publicitárias. Ainda assim, você só vai saber se o índice é bom conferindo-o, então convém fazê-lo.
   »   Além do índice tradicional, algumas obras contêm índices onomásticos ou remissivos nas suas últimas páginas. Ali estarão listados nomes e temáticas de forma específica, bem como as páginas onde são citados. É uma boa fonte para ter um panorama dos assuntos tratados pelo autor e pode ser útil usá-lo para identificar passagens potencialmente interessantes e fazer uma leitura rápida. Naturalmente, a importância de um assunto pode ser avaliada pelo número de vezes em que é citado e se isso acontece muitas vezes é possível que ele seja um dos pontos centrais do livro.
   »   Leia a contracapa do livro. Algumas vezes contém trechos da introdução, em outras, como em livros americanos, referências elogiosas publicadas na imprensa. O mais provável, em se tratando de uma obra brasileira, é que você encontre uma sinopse do livro feita pela editora.
   »   Leia a orelha. Livros mais recentes costumam trazer uma breve resenha da obra, assinada por alguém importante na área temática em questão, ou uma sinopse mais aprofundada que a da contracapa. Também é comum encontrarmos uma nota biográfica do autor: onde nasceu, suas credenciais acadêmicas e/ou profissionais, outras obras que tenha escrito. Isso é especialmente útil em obras de não-ficção.
   »   Dê uma olhada na bibliografia, se houver. Ali você pode ter uma idéia da erudição da obra que tem em mãos, bem como ter referências sobre o mesmo assunto ou outros a ele relacionados. É até possível que encontre uma indicação que seja mais importante para o tema que o livro que tem ora em mãos. Cruzando os autores ali indicados com o índice onomástico, pode-se ter uma idéia de quais das obras listadas foram mais importantes para o autor do livro que você está examinando.
   »   O livro contém apêndices? Obras históricas ou jornalísticas, por exemplo, costumam deixar a reprodução mais extensa de fontes documentais ou iconográficas para essa parte do livro. Também é freqüente encontrar estatísticas, tabelas, e outros dados que podem ser muito pesados para serem transcritos no corpo da obra. Às vezes, trata-se de uma abordagem mais profunda de subtemáticas muito específicas. Em todo o caso, se há apêndices, dar uma olhada neles pode ser crucial para sua decisão sobre o livro valer ou não a pena.
   »   Folheie o livro. Leia alguns parágrafos, talvez duas ou três páginas, se o tempo permitir. Os últimos parágrafos de um capítulo muitas vezes contêm uma síntese do que foi abordado nos anteriores,e os do último capítulo -- não necessariamente o epílogo, quando existe -- podem conter uma síntese das idéias centrais do livro todo.

   »   E, por último mas não menos importante, ao folhear o livro, veja se a estética o agrada. Isso pode ser irrelevante para obras recentes, com apenas uma edição disponível, mas pode fazer muita diferença para aquelas mais antigas ou clássicas, disponíveis em várias edições, por várias editores ou, no caso de autores estrangeiros, em várias traduções. A fonte utilizada torna a leitura agradável? A impressão é boa ou há falhas? A paginação está correta? A diagramação (organização dos blocos de textos na página) é bem feita? A encadernação é de boa qualidade ou o livro parece estar prester a soltar páginas? No caso da tradução, em se tratando de obras literárias ou mais técnicas, pode ser conveniente procurar uma referência antes. Se toda tradução é uma traição, como dizia Voltaire, algumas traições são particularmente sórdidas e podem distorcer o pensamento do autor. Obras de filosofia e psicanálise vertidas do alemão, repletas de neologismos difíceis de traduzir para o português, por exemplo, costumam esbarrar nesse problema, como os leitores de Freud e Kant devem saber. A escolha da edição, nesse caso, se torna particularmente importante, especialmente quando algumas obras não são traduzidas do original, mas de outra tradução, geralmente inglesa ou francesa, e não raro antigas e "ajustadas" ao gosto da época.

Leitores Silenciosos - 06



Os primeiros regulamentos exigindo que os escribas ficassem em silêncio nos scriptoriums dos conventos datam do século IX. Até então, haviam trabalhado com ditados ou lendo para si mesmos, em voz alta, o texto que estavam copiando. Às vezes o próprio autor ou um "editor" ditava o livro. Um escriba anônimo, concluindo uma cópia no século VIII, escreveu: "Ninguém pode saber que esforços são exigidos. Três dedos escrevem, dois olhos vêem. Uma língua fala, o corpo inteiro labuta". Uma língua fala enquanto o copista trabalha, enunciando as palavras que está transcrevendo. Depois que a leitura silenciosa tornou-se norma no scriptorium, a comunicação entre os escribas passou a ser feita por sinais: se queria um novo livro para copiar, o escriba virava páginas imaginárias; se precisava especificamente de um Livro dos Salmos, colocava as mãos sobre a cabeça, em forma de coroa (referência ao rei Davi); um lecionário era indicado enxugando-se a cera imaginária de velas; um missal, pelo sinalda- cruz; uma obra pagã, pelo gesto de coçar-se como um cachorro.

Mas, com a leitura silenciosa, o leitor podia ao menos estabelecer uma relação sem restrições com o livro e as palavras. As palavras não precisavam mais ocupar o tempo exigido para pronunciá-las. Podiam existir em um espaço interior, passando rapidamente ou apenas se insinuando plenamente decifradas ou ditas pela metade, enquanto os pensamentos do leitor as inspecionavam à vontade, retirando novas noções delas, permitindo comparações de memória com outros livros deixados abertos para consulta simultânea. O leitor tinha tempo para considerar e reconsiderar as preciosas palavras cujos sons - ele sabia agora - podiam ecoar tanto dentro como fora. E o próprio texto, protegido de estranhos por suas capas, tornava-se posse do Leitor, conhecimento íntimo do leitor, fosse na azáfama do scriptorium, no mercado ou em casa.

Alguns dogmatistas ficaram desconfiados da nova moda; a leitura silenciosa abria espaço para sonhar acordado. Mas a leitura em silêncio trouxe com ela outro perigo que os padres cristãos não tinham previsto. Um livro que pode ser lido em particular e sobre o qual se pode refletir enquanto os olhos revelam o sentido das palavras não está mais sujeito às orientações ou esclarecimentos, à censura ou condenação imediata de um ouvinte. A leitura silenciosa permite a comunicação sem testemunhas entre o livro e o Leitor e o singular "refrescamento da mente", na feliz expressão de Agostinho.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Leitores Silenciosos - 05



E na metade do século VII, o teólogo Isidoro de Sevilha estava familiarizado com a leitura silenciosa a ponto de poder elogiá-la como um método para "ler sem esforço, refletindo sobre o que foi lido, tornando sua fuga da memória mais difícil". Tal como Agostinho, Isidoro acreditava que a leitura possibilitava uma conversação que atravessava o tempo e o espaço, mas com uma distinção importante: "As letras têm o poder de nos transmitir silenciosamente os ditos daqueles que estão ausentes", escreveu ele e suas Etimologias. As letras de Isidoro não precisavam de sons. Os avatares da pontuação continuaram.

Depois do século VII, uma combinação de pontos e traços indicava uma parada plena, um ponto elevado ou alto equivalia a nossa vírgula, e o ponto-e-vírgula era usado como o utilizamos atualmente. No século IX, é provável que a leitura silenciosa fosse suficientemente comum no scriptorium para que os escribas começassem a separar cada palavra de suas vizinhas com vistas a simplificar a leitura de um texto - mas talvez também por motivos estéticos. Mais ou menos na mesma época, os escribas irlandeses, famosos em todo o mundo cristão por sua habilidade, começaram a isolar não somente partes do discurso, mas também os constituintes gramaticais dentro de uma frase, e introduziram muitos dos sinais de pontuação que usamos hoje. No século X, para facilitar ainda mais a tarefa do leitor silencioso, as primeiras linhas das seções principais de um texto (os livros da Bíblia, por exemplo) eram comumente escritas com tinta vermelha, assim como as rubricas ("vermelho", em latim), explicações independentes do texto propriamente dito. A prática antiga de começar um novo parágrafo com um traço divisório (paragraphos, em grego) ou cunha (diple) continuou; mais tarde, a primeira letra do novo parágrafo passou a ser escrita um pouco maior ou em maiúscula.

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Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Leitores Silenciosos - 04



Se os livros eram principalmente lidos em voz alta, as letras que os compunham não precisavam ser separadas em unidades fonéticas; bastava amarrá-las juntas em frases contínuas. A direção em que os olhos deveriam seguir esses carretéis de letras variava de lugar para lugar e de época para época; o modo como atualmente lemos um texto no mundo ocidental - da esquerda para a direita e de cima para baixo - não é de forma alguma universal. Alguns escritos eram lidos da direita para a esquerda (hebreu e árabe), outros em colunas, de cima para baixo (chinês e japonês); uns poucos eram lidos em pares de colunas verticais (maia); alguns tinham linhas alternadas lidas em direções opostas, de um lado para o outro - método chamado boustrophedon, como um boi dá voltas para arar, na Grécia antiga. Outros ainda serpenteavam pela página, como um jogo de trilha, sendo a direção indicada por linhas ou pontos (asteca).

As Epístolas de Paulo, quando lidas por Agostinho, não eram um rolo, mas um códice, um papiro encadernado e manuscrito em escrita contínua, na nova letra uncial ou semi-uncial que aparecera nos documentos romanos nos últimos anos do século III. O códice foi uma invenção pagã. Segundo Suetônio, Júlio César foi o primeiro a dobrar um rolo em páginas, para despachos a suas tropas. Os cristãos primitivos adotaram o códice porque descobriram que era muito prático para carregar escondidos em suas vestes, textos que estavam proibidos pelas autoridades romanas. As páginas podiam ser numeradas, permitindo ao leitor acesso fácil às seções, e textos separados, como as Epístolas, podiam ser facilmente encadernadas em um pacote conveniente. A separação das letras em palavras e frases desenvolveu-se muito gradualmente. Para a maioria das primeiras escritas - hieróglifos egípcios, caracteres cuneiformes sumérios, sânscrito - essas divisões não tinham utilidade. Os escribas antigos estavam tão familiarizados com as convenções de sua arte que aparentemente precisavam muito pouco de auxílios visuais, e os primeiros monges cristãos amiúde sabiam de cor os textos que transcreviam. A fim de ajudar os que tinham pouca habilidade para ler os monges do scriptorium dos conventos usavam um método de escrita conhecido como per cola ET commata, no qual o texto era dividido em linhas de significado – uma forma primitiva de pontuação que ajudava o leitor inseguro a baixar ou elevar a voz no final de um bloco de pensamento. (Esse formato ajudava também os estudiosos a encontrar mais facilmente algum trecho que estivessem buscando). Foi São Jerônimo que, no final do século IV, tendo descoberto esse método em cópias de Demóstenes e Cícero, descreveu-o pela primeira vez no prólogo a sua tradução do Livro de Ezequiel, explicando que "o que está escrito per cola et commata transmite um significado mais óbvio aos leitores".

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Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Leitores Silenciosos - 03



As palavras escritas, desde os tempos das primeiras tabuletas sumérias, destinavam-se a ser pronunciadas em voz alta, uma vez que os signos traziam implícito, como se fosse sua alma, um som particular. A frase clássica scripta manent, verba volant - que veio a significar em nossa época, "a escrita fica, as palavras voam” – costumava expressar exatamente o contrário: foi cunhada como elogio à palavra dita em voz alta, que tem asas e pode voar, em comparação com a palavra silenciosa na página, que está parada, morta. Diante de um texto escrito, o leitor tem o dever de emprestar voz às letras silenciosas, a scripta, e permitir que elas se tornem, na delicada distinção bíblica, verba, palavras faladas - espírito. As línguas primordiais da Bíblia - aramaico e hebreu – não fazem diferença entre o ato de ler e o ato de falar; dão a ambos o mesmo nome.

Nos textos sagrados, nos quais cada letra e o número de letras e sua ordem eram ditados pela divindade, a compreensão plena exigia não apenas os olhos, mas também o resto do corpo: balançar na cadência das frases e levar aos lábios as palavras sagradas, de tal forma que nada do divino possa se perder na leitura. Minha avó lia o Velho Testamento dessa maneira, pronunciando as palavras e movendo o corpo de um lado para o outro, ao ritmo da prece. Posso vê-la em seu apartamento sombrio no Barrio del Once, o bairro judeu de Buenos Aires, entoando as palavras antigas do único livro da casa, a Bíblia, cuja capa preta lembrava a textura de sua própria tez pálida amolecida pela idade. Também entre os muçulmanos o corpo inteiro participa da leitura sagrada. No islã, saber se um texto sagrado é para ser ouvido ou lido é uma questão de importância essencial.

O psicólogo americano Julian Jaynes, em um estudo controvertido sobre a origem da consciência, afirmou que a mente bicameral – na qual um dos hemisférios torna-se especializado na leitura silenciosa – é um desenvolvimento tardio da evolução da humanidade e que o processo pelo qual essa função se desenvolve ainda está mudando. Ele sugeriu que a leitura possa ter sido inicialmente uma percepção aural, e não visual. “A leitura no terceiro milênio antes de Cristo pode, portanto, ter sido uma questão de ouvir o cuneiforme, isto é, uma alucinação do discurso a partir do movimento do olhar para suas figuras-símbolos, em vez de uma leitura visual de sílabas, no nosso sentido."

Até boa parte da Idade Média, os escritores supunham que seus leitores iriam escutar, em vez de simplesmente ver o texto, tal como eles pronunciavam em voz alta as palavras à medida que as compunham. Uma vez que, em termos comparativos, poucas pessoas sabiam ler, as leituras públicas eram comuns e os textos medievais repetidamente apelavam à audiência para que "prestasse ouvidos" à história. Talvez um eco ancestral dessas práticas de leitura persista em algumas de nossas expressões idiomáticas, como quando dizemos “Ouvi por aí” (significando "li em algum lugar"),  ou “fulano disse" (significando "fulano escreveu"), ou "este texto não soa bem” (significando "não está bem escrito").

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Leitores Silenciosos - 02



O próprio Agostinho, numa passagem essencial das Confissões, descreve o momento em que as duas leituras - em voz alta e em silêncio - acontecem quase simultaneamente. Angustiado pela indecisão, furioso com seus pecados do passado, assustado com o fato de que finalmente havia chegado o momento do ajuste de contas, Agostinho afasta-se do amigo Alípio, com quem estivera lendo (em voz alta) em seu jardim de verão, e joga-se ao chão, sob uma figueira, para chorar. De repente, vinda de uma casa próxima, ele ouve a voz de uma criança - menino ou menina, não consegue saber - cantando uma canção cujo estribilho é tolle, lege, "pega e lê". Acreditando que a voz fala com ele, Agostinho corre de volta para onde Alípio ainda está sentado e pega o livro que deixara inacabado, um volume das Epístolas de Paulo. Agostinho diz: "Peguei o livro e o abri, e, em silêncio, li a primeira seção sobre a qual caíram meus olhos". O trecho que ele lê em silêncio é de Romanos 13: "Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não vos preocupeis com a carne para satisfazer os seus desejos". Estupefato, chega ao fim da frase. A "luz da fé" inunda seu coração e "a escuridão da dúvida" dispersa-se. Alípio, surpreso, pergunta a Agostinho o que o afetou tanto. Agostinho (que, num gesto tão familiar para nós séculos depois, marcou com um dedo a página que estava lendo e fechou o livro) mostra o texto ao amigo. "Indiquei-o e ele leu [em voz alta, supostamente] adiante do trecho que eu lera. Eu não tinha idéia do que vinha depois, que era isto: Acolhei aquele que é fraco na fé." Essa admoestação, Agostinho nos diz, é suficiente para dar a Alípio a força espiritual há muito buscada. Ali, naquele jardim de Milão, num certo dia de agosto do ano de 386, Agostinho e seu amigo leram as Epístolas de Paulo de uma maneira muito parecida com a que leríamos o livro hoje: em silêncio, para o aprendizado privado; o outro em voz alta, para compartilhar com sua companhia a revelação do texto. Curiosamente, enquanto a prolongada leitura silenciosa de Ambrósio parecera inexplicável a Agostinho, ele não considerou surpreendente sua própria leitura em silêncio, talvez porque tivesse apenas olhado para algumas palavras essenciais.

Agostinho, professor de retórica versado em poética e nos ritmos da prosa, um erudito que odiava o grego, mas amava o latim, tinha o hábito comum a muitos leitores - de ler qualquer coisa escrita que achasse, pelo puro prazer dos sons. Seguindo os ensinamentos de Aristóteles, sabia que as letras, "inventadas para que possamos conversar até mesmo com o ausente, eram "signos de sons" que, por sua vez, eram "signos das coisas que pensamos“. O texto escrito era uma conversação, posta no papel para que o parceiro ausente pudesse pronunciar as palavras destinadas a ele.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Leitores Silenciosos - 01



Ambrósio era um leitor extraordinário. Nas palavras de Agostinho: "Quando ele lia, seus olhos exploravam a página e seu coração buscava o sentido, mas sua voz ficava em silêncio e sua língua quieta. Qualquer um podia aproximar-se dele livremente, e em geral os convidados não eram anunciados; assim, com freqüência, quando chegávamos para visitá-lo nós o encontrávamos lendo em silêncio, pois jamais lia em voz alta". Olhos explorando a página, língua quieta: é exatamente assim que eu descreveria um leitor de hoje, sentado com um livro num café em frente à igreja de Santo Ambrósio em Milão, lendo, talvez, as Confissões de santo Agostinho. Tal como Ambrósio, o leitor tornou-se cego e surdo ao mundo, às multidões de passantes, às fachadas desbotadas dos edifícios. Ninguém parece notar um leitor que se concentra: retirado, absorto, o leitor torna-se lugar-comum.

Porém, aos olhos de Agostinho, essa maneira de ler parecia suficientemente estranha para que ele a registrasse em suas Confissões. A implicação é que esse método de leitura, esse silencioso exame da página, era em sua época algo fora do comum, sendo a leitura normal a que se fazia em voz alta. Ainda que se possam encontrar exemplos anteriores de leitura silenciosa, foi somente no século X que esse modo de ler se tornou usual no Ocidente.

A descrição que Agostinho faz da leitura silenciosa de Ambrósio (inclusive a observação de que ele jamais lia em voz alta) é o primeiro caso indiscutível registrado na literatura ocidental. Exemplos anteriores são muito mais incertos. No século V a.C., duas peças mostram personagens lendo no palco: no Hipólito, de Eurípedes, Teseu lê em silêncio uma carta presa na mão da esposa morta; em Os cavaleiros, de Aristófanes, Demóstenes olha para uma tabuleta mandada por um oráculo e, sem dizer em voz alta o que contém, parece ficar surpreso com o que leu. Segundo Plutarco, Alexandre, o Grande, leu em silêncio uma carta de sua mãe no século IV a.C., para espanto de seus soldados. Cláudio Ptolomeu, no século II d.C., observou em Sobre o Critério (um livro que Agostinho talvez conhecesse) que às vezes as pessoas lêem em silêncio quando estão se concentrando muito, porque dizer as palavras em voz alta distrai o pensamento. Quase quatro séculos depois, São Cirilo de Jerusalém, numa palestra catequética feita provavelmente na Quaresma de 349, suplica às mulheres na igreja que leiam enquanto aguardam as cerimônias, porém quietas, de modo que, enquanto seus lábios falam, nenhum outro ouvido possa ouvir o que dizem. Uma leitura sussurrada, talvez, na qual os lábios vibravam com sons abafados.

Na década de 1970, na bela Biblioteca Ambrosiana de Milão, não havia nada o silêncio solene da British Library, em Londres, ou da Biblioteca Nacional de Paris. Os leitores na Ambrosiana falavam uns com os outros; de tempos em tempos alguém gritava uma pergunta ou um nome, um volume pesado fechava-se com estrondo, um carrinho de livros passava chacoalhando. Atualmente, nem a British Library, nem a Biblioteca Nacional ficam em completo silêncio: a leitura silenciosa é pontuada pelos estalidos dos computadores portáteis, como se bandos de pica-paus morassem dentro das salas cheias de livros. Seria diferente então, nos dias de Atenas e Pérgamo, tentar concentrar-se com dezenas de leitores espalhando tabuletas ou desenrolando pergaminhos, murmurando para si mesmos uma infinidade de histórias diferentes? Talvez não escutassem o alarido; talvez não soubessem que era possível ler de outra maneira. De qualquer modo, não temos exemplos registrados de leitores queixando-se do barulho nas bibliotecas gregas ou romanas - como Sêneca, escrevendo no século I da era cristã, queixou-se de ter de estudar em seus alojamentos privados barulhentos.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004

Leitura, leitor, autor e semiótica



Quando se pensa em leitura, pode-se concebê-la como um processo abstrato que tem como sujeito concreto mais próximo o leitor. Ela é um processo que não existe sem “leitor” e “autor”, que podem ser pensados individualmente ou de forma coletiva. Portanto, quando inicialmente se fala em leitura, é necessário misturar todas essas instâncias: leitura, leitor, autor. Essas seriam as instâncias internas da leitura, quer dizer, imanentes ao texto no qual se dá a leitura. Depois, há a instâncias externas ao texto: contexto pensado como um texto maior no qual se insere o texto que está sendo, naquele momento, objeto da leitura. O contexto abrange os fatores históricos, sociais (externos ao sujeito) e psicológicos e filosóficos (internos ao sujeito). Ler é atribuir um significado a um significante, o que não pode ser feito sem se levar em conta a cultura em que se insere o sujeito leitor.
A leitura constrói o leitor na medida em que o faz atualizar o significado do texto e também na medida em que, ao fazer isso, leva-o a buscar os contextos que ele possui e nos quais aquele texto possa ser inserido.

Para Bertrand (2003) a teoria semiótica pode contribuir com os estudos sobre leitura na medida em que se interessa pela manifestação do sentido, apreendido por meio das formas da linguagem. Seu estudo do texto em níveis de geração de sentido permite a apreensão estruturada das significações. Por meio da apreensão do sentido do texto amparada por sua isotopia figurativa e temática é que o leitor será “guiado” em sua viagem pela obra, na apreensão de seu sentido. Bertrand (2003, p.31) afirma ainda que as estruturas imanentes nas formas trazem consigo convenções de uso e regras explícitas, e elas moldam as expectativas dos leitores e os ajudam a prever o conteúdo, as hipóteses e as inferências de leitura.

A semiótica também liga-se com a leitura no nível discursivo do texto, o nível da manifestação, que está relacionado com o mundo exterior ao texto, o contexto. A dimensão figurativa do discurso é responsável pela relação do discurso com o mundo, à medida que “estabelece, na leitura, uma relação imediata, uma semelhança, uma correspondência entre as figuras semânticas que desfilam sob os olhos do leitor e as do mundo (...).” (Bertrand, 2003, p.29)
Bertrand entende que a figuratividade seja o que mais aproxima o leitor da “verdade” de uma obra. É a concretização de temas em figuras que estabelece o contrato de veridicção e de crença entre os parceiros da comunicação (2003, p. 408). A presença figurativa coloca, para o autor, as imagens do mundo sob os sentidos, construindo a “tela do parecer”, entendida como portadora dos sentidos do mundo.

Para que aconteça a leitura é preciso que seja estabelecido um pacto entre o leitor e o autor do texto. O enunciatário precisa aceitar o contrato proposto pelo enunciador para que prossiga a leitura do texto escolhido. Para Jouve (2002) cada obra institui seu modo de leitura filiando-se a um gênero que seja reconhecido dentro da tradição literária de uma sociedade e que oriente as expectativas do público. Um exemplo para ilustrar o pacto criado pelo reconhecimento do gênero é o de que um leitor aceita sem problemas ver mortos ressuscitarem numa narrativa fantástica, mas não em um romance policial.