quinta-feira, 2 de abril de 2015

Leitura na imagem



Não sabemos como era o mosteiro de são Nilo nem onde se localizava exatamente, mas em uma de suas muitas cartas, ele descreve certos traços ideais da decoração eclesiástica que, podemos supor, foram usadas em sua própria capela. O bispo Olimpidoro consultara-o sobre a construção de uma igreja que desejava decorar com imagens de santos, cenas de caça, pássaros e animais. São Nilo aprovava a representação de santos, mas condenava as cenas de caçada e de animais como "frívolas e indignas de uma alma cristã viril", sugerindo, em vez disso, cenas do Velho e do Novo Testamento, "pintadas pela mão de um artista bem-dotado". Tais cenas argumentavam dispostas em ambos os lados da Santa Cruz, serviriam "como livros para os iletrados, ensinando-lhes a história bíblica e incutindo neles a crônica da misericórdia de Deus".

São Nilo imaginava os crentes analfabetos aproximando-se dessas cenas em sua igreja funcional e lendo-as como se fossem as palavras de um livro. Imaginava-os olhando a decoração não mais constituída de "adornos frívolos"; imaginava-os identificando as imagens preciosas, ligando-as mentalmente umas às outras, inventando histórias para elas ou associando as imagens familiares associações com os sermões que tinham ouvido, ou então se não fossem totalmente "iletrados", com exegeses das Escrituras.

Dois séculos depois, o papa Gregório, o Grande, faria eco às idéias de Nilo: "Uma coisa é adorar imagens, outra é aprender em profundidade, por meio de imagens, uma história venerável. Pois o que a escrita toma presente para o leitor, as imagens tomam presente para o analfabeto, para aqueles que só percebem visualmente, porque nas imagens os ignorantes vêem a história que têm de seguir, e aqueles que não sabem as letras descobrem que podem, de certo modo, ler. Portanto, especialmente para a gente comum, as imagens são equivalentes à leitura".

Para os antigos romanos, o símbolo de um deus (a águia para Júpiter, por exemplo) era um substituto do próprio deus. Nos raros casos em que Júpiter é representado junto com sua águia, ela não é uma repetição da presença do deus, mas torna-se seu atributo, tal como o raio. Para os cristãos primitivos, os símbolos tinham essa dupla qualidade, não representando apenas os temas (a ovelha como Cristo, a pomba como o Espírito Santo), mas também aspectos específicos do tema (a ovelha como o Cristo sacrificado, a pomba como a promessa de libertação do Espírito Santo). Não se destinavam a ser lidos como sinônimos dos conceitos ou meras duplicatas das divindades. Em vez disso, expandiam Graficamente certas qualidades da imagem central, comentavam-nas, sublinhavam-nas, tornavam-nas temas por si mesmos.

Evidentemente, não era isso que são Nilo tinha em mente. Em 787, o Sétimo Concilio da Igreja, em Nicéia, deixou claro que a congregação não tinha liberdade para interpretar as figuras mostradas na igreja, nem o pintor estava livre para dar ao seu trabalho qualquer significado ou solução particular: "A execução de pinturas não é uma invenção do pintor, mas uma proclamação reconhecida das leis e da tradição de toda a Igreja. Os padres antigos fizeram com que fossem executadas nas paredes das igrejas; é o pensamento e a tradição deles que vemos, não os do pintor. Ao pintor cabe a arte, mas a disposição pertence aos Pais da Igreja".

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004