quinta-feira, 2 de abril de 2015

Leitura, leitor, autor e semiótica



Quando se pensa em leitura, pode-se concebê-la como um processo abstrato que tem como sujeito concreto mais próximo o leitor. Ela é um processo que não existe sem “leitor” e “autor”, que podem ser pensados individualmente ou de forma coletiva. Portanto, quando inicialmente se fala em leitura, é necessário misturar todas essas instâncias: leitura, leitor, autor. Essas seriam as instâncias internas da leitura, quer dizer, imanentes ao texto no qual se dá a leitura. Depois, há a instâncias externas ao texto: contexto pensado como um texto maior no qual se insere o texto que está sendo, naquele momento, objeto da leitura. O contexto abrange os fatores históricos, sociais (externos ao sujeito) e psicológicos e filosóficos (internos ao sujeito). Ler é atribuir um significado a um significante, o que não pode ser feito sem se levar em conta a cultura em que se insere o sujeito leitor.
A leitura constrói o leitor na medida em que o faz atualizar o significado do texto e também na medida em que, ao fazer isso, leva-o a buscar os contextos que ele possui e nos quais aquele texto possa ser inserido.

Para Bertrand (2003) a teoria semiótica pode contribuir com os estudos sobre leitura na medida em que se interessa pela manifestação do sentido, apreendido por meio das formas da linguagem. Seu estudo do texto em níveis de geração de sentido permite a apreensão estruturada das significações. Por meio da apreensão do sentido do texto amparada por sua isotopia figurativa e temática é que o leitor será “guiado” em sua viagem pela obra, na apreensão de seu sentido. Bertrand (2003, p.31) afirma ainda que as estruturas imanentes nas formas trazem consigo convenções de uso e regras explícitas, e elas moldam as expectativas dos leitores e os ajudam a prever o conteúdo, as hipóteses e as inferências de leitura.

A semiótica também liga-se com a leitura no nível discursivo do texto, o nível da manifestação, que está relacionado com o mundo exterior ao texto, o contexto. A dimensão figurativa do discurso é responsável pela relação do discurso com o mundo, à medida que “estabelece, na leitura, uma relação imediata, uma semelhança, uma correspondência entre as figuras semânticas que desfilam sob os olhos do leitor e as do mundo (...).” (Bertrand, 2003, p.29)
Bertrand entende que a figuratividade seja o que mais aproxima o leitor da “verdade” de uma obra. É a concretização de temas em figuras que estabelece o contrato de veridicção e de crença entre os parceiros da comunicação (2003, p. 408). A presença figurativa coloca, para o autor, as imagens do mundo sob os sentidos, construindo a “tela do parecer”, entendida como portadora dos sentidos do mundo.

Para que aconteça a leitura é preciso que seja estabelecido um pacto entre o leitor e o autor do texto. O enunciatário precisa aceitar o contrato proposto pelo enunciador para que prossiga a leitura do texto escolhido. Para Jouve (2002) cada obra institui seu modo de leitura filiando-se a um gênero que seja reconhecido dentro da tradição literária de uma sociedade e que oriente as expectativas do público. Um exemplo para ilustrar o pacto criado pelo reconhecimento do gênero é o de que um leitor aceita sem problemas ver mortos ressuscitarem numa narrativa fantástica, mas não em um romance policial.