quinta-feira, 2 de abril de 2015

Leitores Silenciosos - 06



Os primeiros regulamentos exigindo que os escribas ficassem em silêncio nos scriptoriums dos conventos datam do século IX. Até então, haviam trabalhado com ditados ou lendo para si mesmos, em voz alta, o texto que estavam copiando. Às vezes o próprio autor ou um "editor" ditava o livro. Um escriba anônimo, concluindo uma cópia no século VIII, escreveu: "Ninguém pode saber que esforços são exigidos. Três dedos escrevem, dois olhos vêem. Uma língua fala, o corpo inteiro labuta". Uma língua fala enquanto o copista trabalha, enunciando as palavras que está transcrevendo. Depois que a leitura silenciosa tornou-se norma no scriptorium, a comunicação entre os escribas passou a ser feita por sinais: se queria um novo livro para copiar, o escriba virava páginas imaginárias; se precisava especificamente de um Livro dos Salmos, colocava as mãos sobre a cabeça, em forma de coroa (referência ao rei Davi); um lecionário era indicado enxugando-se a cera imaginária de velas; um missal, pelo sinalda- cruz; uma obra pagã, pelo gesto de coçar-se como um cachorro.

Mas, com a leitura silenciosa, o leitor podia ao menos estabelecer uma relação sem restrições com o livro e as palavras. As palavras não precisavam mais ocupar o tempo exigido para pronunciá-las. Podiam existir em um espaço interior, passando rapidamente ou apenas se insinuando plenamente decifradas ou ditas pela metade, enquanto os pensamentos do leitor as inspecionavam à vontade, retirando novas noções delas, permitindo comparações de memória com outros livros deixados abertos para consulta simultânea. O leitor tinha tempo para considerar e reconsiderar as preciosas palavras cujos sons - ele sabia agora - podiam ecoar tanto dentro como fora. E o próprio texto, protegido de estranhos por suas capas, tornava-se posse do Leitor, conhecimento íntimo do leitor, fosse na azáfama do scriptorium, no mercado ou em casa.

Alguns dogmatistas ficaram desconfiados da nova moda; a leitura silenciosa abria espaço para sonhar acordado. Mas a leitura em silêncio trouxe com ela outro perigo que os padres cristãos não tinham previsto. Um livro que pode ser lido em particular e sobre o qual se pode refletir enquanto os olhos revelam o sentido das palavras não está mais sujeito às orientações ou esclarecimentos, à censura ou condenação imediata de um ouvinte. A leitura silenciosa permite a comunicação sem testemunhas entre o livro e o Leitor e o singular "refrescamento da mente", na feliz expressão de Agostinho.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004