quinta-feira, 2 de abril de 2015

Leitores Silenciosos - 05



E na metade do século VII, o teólogo Isidoro de Sevilha estava familiarizado com a leitura silenciosa a ponto de poder elogiá-la como um método para "ler sem esforço, refletindo sobre o que foi lido, tornando sua fuga da memória mais difícil". Tal como Agostinho, Isidoro acreditava que a leitura possibilitava uma conversação que atravessava o tempo e o espaço, mas com uma distinção importante: "As letras têm o poder de nos transmitir silenciosamente os ditos daqueles que estão ausentes", escreveu ele e suas Etimologias. As letras de Isidoro não precisavam de sons. Os avatares da pontuação continuaram.

Depois do século VII, uma combinação de pontos e traços indicava uma parada plena, um ponto elevado ou alto equivalia a nossa vírgula, e o ponto-e-vírgula era usado como o utilizamos atualmente. No século IX, é provável que a leitura silenciosa fosse suficientemente comum no scriptorium para que os escribas começassem a separar cada palavra de suas vizinhas com vistas a simplificar a leitura de um texto - mas talvez também por motivos estéticos. Mais ou menos na mesma época, os escribas irlandeses, famosos em todo o mundo cristão por sua habilidade, começaram a isolar não somente partes do discurso, mas também os constituintes gramaticais dentro de uma frase, e introduziram muitos dos sinais de pontuação que usamos hoje. No século X, para facilitar ainda mais a tarefa do leitor silencioso, as primeiras linhas das seções principais de um texto (os livros da Bíblia, por exemplo) eram comumente escritas com tinta vermelha, assim como as rubricas ("vermelho", em latim), explicações independentes do texto propriamente dito. A prática antiga de começar um novo parágrafo com um traço divisório (paragraphos, em grego) ou cunha (diple) continuou; mais tarde, a primeira letra do novo parágrafo passou a ser escrita um pouco maior ou em maiúscula.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004