quinta-feira, 2 de abril de 2015

Leitores Silenciosos - 03



As palavras escritas, desde os tempos das primeiras tabuletas sumérias, destinavam-se a ser pronunciadas em voz alta, uma vez que os signos traziam implícito, como se fosse sua alma, um som particular. A frase clássica scripta manent, verba volant - que veio a significar em nossa época, "a escrita fica, as palavras voam” – costumava expressar exatamente o contrário: foi cunhada como elogio à palavra dita em voz alta, que tem asas e pode voar, em comparação com a palavra silenciosa na página, que está parada, morta. Diante de um texto escrito, o leitor tem o dever de emprestar voz às letras silenciosas, a scripta, e permitir que elas se tornem, na delicada distinção bíblica, verba, palavras faladas - espírito. As línguas primordiais da Bíblia - aramaico e hebreu – não fazem diferença entre o ato de ler e o ato de falar; dão a ambos o mesmo nome.

Nos textos sagrados, nos quais cada letra e o número de letras e sua ordem eram ditados pela divindade, a compreensão plena exigia não apenas os olhos, mas também o resto do corpo: balançar na cadência das frases e levar aos lábios as palavras sagradas, de tal forma que nada do divino possa se perder na leitura. Minha avó lia o Velho Testamento dessa maneira, pronunciando as palavras e movendo o corpo de um lado para o outro, ao ritmo da prece. Posso vê-la em seu apartamento sombrio no Barrio del Once, o bairro judeu de Buenos Aires, entoando as palavras antigas do único livro da casa, a Bíblia, cuja capa preta lembrava a textura de sua própria tez pálida amolecida pela idade. Também entre os muçulmanos o corpo inteiro participa da leitura sagrada. No islã, saber se um texto sagrado é para ser ouvido ou lido é uma questão de importância essencial.

O psicólogo americano Julian Jaynes, em um estudo controvertido sobre a origem da consciência, afirmou que a mente bicameral – na qual um dos hemisférios torna-se especializado na leitura silenciosa – é um desenvolvimento tardio da evolução da humanidade e que o processo pelo qual essa função se desenvolve ainda está mudando. Ele sugeriu que a leitura possa ter sido inicialmente uma percepção aural, e não visual. “A leitura no terceiro milênio antes de Cristo pode, portanto, ter sido uma questão de ouvir o cuneiforme, isto é, uma alucinação do discurso a partir do movimento do olhar para suas figuras-símbolos, em vez de uma leitura visual de sílabas, no nosso sentido."

Até boa parte da Idade Média, os escritores supunham que seus leitores iriam escutar, em vez de simplesmente ver o texto, tal como eles pronunciavam em voz alta as palavras à medida que as compunham. Uma vez que, em termos comparativos, poucas pessoas sabiam ler, as leituras públicas eram comuns e os textos medievais repetidamente apelavam à audiência para que "prestasse ouvidos" à história. Talvez um eco ancestral dessas práticas de leitura persista em algumas de nossas expressões idiomáticas, como quando dizemos “Ouvi por aí” (significando "li em algum lugar"),  ou “fulano disse" (significando "fulano escreveu"), ou "este texto não soa bem” (significando "não está bem escrito").

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004