quinta-feira, 2 de abril de 2015

Leitores Silenciosos - 02



O próprio Agostinho, numa passagem essencial das Confissões, descreve o momento em que as duas leituras - em voz alta e em silêncio - acontecem quase simultaneamente. Angustiado pela indecisão, furioso com seus pecados do passado, assustado com o fato de que finalmente havia chegado o momento do ajuste de contas, Agostinho afasta-se do amigo Alípio, com quem estivera lendo (em voz alta) em seu jardim de verão, e joga-se ao chão, sob uma figueira, para chorar. De repente, vinda de uma casa próxima, ele ouve a voz de uma criança - menino ou menina, não consegue saber - cantando uma canção cujo estribilho é tolle, lege, "pega e lê". Acreditando que a voz fala com ele, Agostinho corre de volta para onde Alípio ainda está sentado e pega o livro que deixara inacabado, um volume das Epístolas de Paulo. Agostinho diz: "Peguei o livro e o abri, e, em silêncio, li a primeira seção sobre a qual caíram meus olhos". O trecho que ele lê em silêncio é de Romanos 13: "Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não vos preocupeis com a carne para satisfazer os seus desejos". Estupefato, chega ao fim da frase. A "luz da fé" inunda seu coração e "a escuridão da dúvida" dispersa-se. Alípio, surpreso, pergunta a Agostinho o que o afetou tanto. Agostinho (que, num gesto tão familiar para nós séculos depois, marcou com um dedo a página que estava lendo e fechou o livro) mostra o texto ao amigo. "Indiquei-o e ele leu [em voz alta, supostamente] adiante do trecho que eu lera. Eu não tinha idéia do que vinha depois, que era isto: Acolhei aquele que é fraco na fé." Essa admoestação, Agostinho nos diz, é suficiente para dar a Alípio a força espiritual há muito buscada. Ali, naquele jardim de Milão, num certo dia de agosto do ano de 386, Agostinho e seu amigo leram as Epístolas de Paulo de uma maneira muito parecida com a que leríamos o livro hoje: em silêncio, para o aprendizado privado; o outro em voz alta, para compartilhar com sua companhia a revelação do texto. Curiosamente, enquanto a prolongada leitura silenciosa de Ambrósio parecera inexplicável a Agostinho, ele não considerou surpreendente sua própria leitura em silêncio, talvez porque tivesse apenas olhado para algumas palavras essenciais.

Agostinho, professor de retórica versado em poética e nos ritmos da prosa, um erudito que odiava o grego, mas amava o latim, tinha o hábito comum a muitos leitores - de ler qualquer coisa escrita que achasse, pelo puro prazer dos sons. Seguindo os ensinamentos de Aristóteles, sabia que as letras, "inventadas para que possamos conversar até mesmo com o ausente, eram "signos de sons" que, por sua vez, eram "signos das coisas que pensamos“. O texto escrito era uma conversação, posta no papel para que o parceiro ausente pudesse pronunciar as palavras destinadas a ele.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004