quinta-feira, 2 de abril de 2015

Leitores Silenciosos - 01



Ambrósio era um leitor extraordinário. Nas palavras de Agostinho: "Quando ele lia, seus olhos exploravam a página e seu coração buscava o sentido, mas sua voz ficava em silêncio e sua língua quieta. Qualquer um podia aproximar-se dele livremente, e em geral os convidados não eram anunciados; assim, com freqüência, quando chegávamos para visitá-lo nós o encontrávamos lendo em silêncio, pois jamais lia em voz alta". Olhos explorando a página, língua quieta: é exatamente assim que eu descreveria um leitor de hoje, sentado com um livro num café em frente à igreja de Santo Ambrósio em Milão, lendo, talvez, as Confissões de santo Agostinho. Tal como Ambrósio, o leitor tornou-se cego e surdo ao mundo, às multidões de passantes, às fachadas desbotadas dos edifícios. Ninguém parece notar um leitor que se concentra: retirado, absorto, o leitor torna-se lugar-comum.

Porém, aos olhos de Agostinho, essa maneira de ler parecia suficientemente estranha para que ele a registrasse em suas Confissões. A implicação é que esse método de leitura, esse silencioso exame da página, era em sua época algo fora do comum, sendo a leitura normal a que se fazia em voz alta. Ainda que se possam encontrar exemplos anteriores de leitura silenciosa, foi somente no século X que esse modo de ler se tornou usual no Ocidente.

A descrição que Agostinho faz da leitura silenciosa de Ambrósio (inclusive a observação de que ele jamais lia em voz alta) é o primeiro caso indiscutível registrado na literatura ocidental. Exemplos anteriores são muito mais incertos. No século V a.C., duas peças mostram personagens lendo no palco: no Hipólito, de Eurípedes, Teseu lê em silêncio uma carta presa na mão da esposa morta; em Os cavaleiros, de Aristófanes, Demóstenes olha para uma tabuleta mandada por um oráculo e, sem dizer em voz alta o que contém, parece ficar surpreso com o que leu. Segundo Plutarco, Alexandre, o Grande, leu em silêncio uma carta de sua mãe no século IV a.C., para espanto de seus soldados. Cláudio Ptolomeu, no século II d.C., observou em Sobre o Critério (um livro que Agostinho talvez conhecesse) que às vezes as pessoas lêem em silêncio quando estão se concentrando muito, porque dizer as palavras em voz alta distrai o pensamento. Quase quatro séculos depois, São Cirilo de Jerusalém, numa palestra catequética feita provavelmente na Quaresma de 349, suplica às mulheres na igreja que leiam enquanto aguardam as cerimônias, porém quietas, de modo que, enquanto seus lábios falam, nenhum outro ouvido possa ouvir o que dizem. Uma leitura sussurrada, talvez, na qual os lábios vibravam com sons abafados.

Na década de 1970, na bela Biblioteca Ambrosiana de Milão, não havia nada o silêncio solene da British Library, em Londres, ou da Biblioteca Nacional de Paris. Os leitores na Ambrosiana falavam uns com os outros; de tempos em tempos alguém gritava uma pergunta ou um nome, um volume pesado fechava-se com estrondo, um carrinho de livros passava chacoalhando. Atualmente, nem a British Library, nem a Biblioteca Nacional ficam em completo silêncio: a leitura silenciosa é pontuada pelos estalidos dos computadores portáteis, como se bandos de pica-paus morassem dentro das salas cheias de livros. Seria diferente então, nos dias de Atenas e Pérgamo, tentar concentrar-se com dezenas de leitores espalhando tabuletas ou desenrolando pergaminhos, murmurando para si mesmos uma infinidade de histórias diferentes? Talvez não escutassem o alarido; talvez não soubessem que era possível ler de outra maneira. De qualquer modo, não temos exemplos registrados de leitores queixando-se do barulho nas bibliotecas gregas ou romanas - como Sêneca, escrevendo no século I da era cristã, queixou-se de ter de estudar em seus alojamentos privados barulhentos.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004