quinta-feira, 2 de abril de 2015

Ficção científica, interdisciplinar



A digressão é a alma do intelecto.  (Ray Bradbury).
A análise de temas associados à literatura de ficção científica implica numa ponderação inicial sobre o lugar marginal a que a crítica comumente a tem condenado. Constantemente considerada pouco digna de estudos acadêmicos ou relegada à condição de “subliteratura”, a ficção científica tem enfrentado a pecha de mero diletantismo barato, literatura pulp, “dime novel”. O autor de Fahrenheit 451, Ray Bradbury, inicia seu posfácio num tom que ironiza tais críticas: “Eu não sabia, mas estava literalmente escrevendo um romance barato. Na primavera de 1950, escrever e finalizar a primeira versão de The Fire Man, que mais tarde se tornou Fahrenheit 451, custou-me nove dólares”. Este gênero de narrativa literária tem sido acusado de simplificações na narrativa, a que afirmam ser pouco elaborada em sua forma, voltada a uma grande massa de leitores e, portanto, condenada, a priori, a uma suposta mediocridade, a despeito de um ou outro autor (ou obra) que se mencione como exceção. Se tais argumentos aparentemente a desclassificam, por um lado, como objeto “sério” de estudo literário, por outro também sugerem a necessidade de uma inversão na ótica de análise valorizando-se mais o conteúdo diegético que o discurso narrativo, ampliando a ênfase do significado e atribuindo-se maior significância ao texto como forma simbólica e ao seu teor interdisciplinar ativado no processo de leitura e na construção de memórias.
O cerne dessa forma de escrita é o estabelecimento de um cenário virtual situado num futuro inexistente, mas plausível frente aos indícios do presente. Em tal construção diegética (que abrange, como em outras narrativas literárias, personagens, eventos, temporalidade, espacialidade e sociabilidade) operam elementos míticos que, via de regra, relacionam-se à representação do mundo moderno em seus arquétipos mais recorrentes: automação, tecnologia, robótica, dominação, alienação...
A elaboração estética da linguagem, a essência do texto literário, neste caso, é posta a serviço da construção do cenário futurista, utilizando-se, muitas vezes, uma linguagem mais próxima das situações de fala da comunicação cotidiana, ou mesmo abdicando-se do uso de formas mais elaboradas ou complexas encontradas em outros tipos de textos literários. Podendo se servir de discursos orientados pela clareza da comunicação em detrimento de uma linguagem mais rebuscada em que predomine a conotação ou a ênfase no significante, a literatura de ficção científica orienta, com constância, a sua elaboração estética pela valorização do significado. Organiza sua base sintática, semântica e estrutural em função do que é, em essência, seu objetivo maior: o conteúdo, a ocupação do presente por um futuro imaginário que se revela ao leitor entrelaçado nas formas mais simples da linguagem do cotidiano, utilizada, no geral, fora do âmbito da arte, e aqui, a serviço dela.

Em outras palavras, o predomínio do significado pode ser considerado uma das particularidades estéticas da literatura de ficção científica. No ato de ler, o repertório individual do leitor é acionado, entrando em contato com marcas, pistas e indícios textuais, que funcionam como uma espécie de roteiro, que faz com que o leitor não se perca e a leitura seja pertinente. Embora cada leitor, por ter acumulado experiências distintas, siga pistas diferentes e construa livremente sentidos sobre o que lê, existem fios que conduzem a rede de construção de significado.
Por outro lado, a própria natureza da linguagem impossibilita abarcar a totalidade do que é expresso: o texto tem vazios e o leitor suplementa a obra de acordo com o que quer fazer dela no momento e no contexto da leitura. Nesse processo, duas vontades se encontram: a do leitor e a do autor. Segundo Iser (1996, p. 78), “o papel do leitor se realiza histórica e individualmente, de acordo com as vivências e a compreensão previamente constituída que os leitores introduzem na leitura”. Na perspectiva estética fenomenológica de Iser, a leitura é vista como um acontecimento, se efetuando na interação do plano do texto com o plano do leitor, no momento em que o leitor passa a preencher os vazios do texto: é no trânsito entre o polo artístico (do texto, relacionado à estrutura verbal) e o polo estético (do leitor, pertinente à estrutura de afeto) que significado e obra se concretizam.
Para que essa digressão (fundamental à ficção científica) seja possível, deve haver pontos de interseção entre o universo diegético e o mundo contemporâneo do leitor, elementos presentes tanto na fantasia alegórica do futuro quanto na realidade contemporânea, servindo de referência e de base remissiva para um futuro diegético que, sendo pura fantasia e devaneio, seja plausível. Por esse motivo, a teoria fenomenológica da arte enfatiza que o estudo de um texto não pode dedicar-se apenas à configuração do texto em si, mas, na mesma medida, aos atos de sua apreensão.
Na medida em que se volta prioritariamente para a construção desse cenário virtual (repleto de elementos coerentes frente a uma existência possível), o texto de ficção científica adquire sua plena significação, se inserindo na trama social contemporânea do leitor, por meio da utilização de linguagem próxima à coloquial. Há uma implícita cumplicidade estética com o leitor: o que se busca é o mergulho na mágica da compreensão simbólica.
A tentativa de dimensionar o grau de complexidade da síntese literária que precisa ser feita para que se garanta uma transcendência do real imediato em direção a um futuro virtual dá uma medida da imensa tarefa interdisciplinar do trabalho estético-imaginativo do autor. Em cada obra de ficção científica, para que se possa construir um todo verossímil para o cenário do futuro, precisam se mesclar coerentemente aspectos sociais, científicos, culturais, econômicos, tecnológicos, políticos, ambientais, espaciais, geográficos, morais, éticos e das mais variadas áreas, mas sempre de maneira a dialogar com o que existe no presente, posto que deve ser percebido como decorrência dele.

Sendo a literatura de ficção científica capaz de estabelecer realidades futuras que serão aceitas pelo leitor como possíveis, ela resulta atuando também como construtora de mitologias especulativas sobre o porvir da humanidade, induzindo o leitor a uma narração de origem às avessas, cujo início é o presente, tempo-espaço em que se situa o marco primordial dos acontecimentos que conduzirão ao cenário futuro da narrativa ficcional especulativa. O leitor é chamado a preencher, com sua imaginação, as lacunas das trajetórias virtuais que conduzem ao cenário imaginado descrito na ficção. Quando as estratégias interpretativas dessa trilha temporal às inversas se põem em operação, o leitor é içado a um percurso imaginário que conduz do futuro ao presente.