quinta-feira, 2 de abril de 2015

Espírito visual – (02)



Espírito visual – (02)
Galeno sugeriu que visão, audição, olfato, gosto e tato alimentavam-se de um repositório sensorial geral localizado no cérebro, uma área conhecida às vezes como "senso comum", da qual derivava não apenas a memória, mas também o conhecimento, as fantasias e os sonhos. Assim, atribuiu-se aos sentidos um parentesco direto com o cérebro, enquanto se declarava que o coração, em última instância, era o senhor do corpo. Um manuscrito em alemão do tratado de Aristóteles sobre lógica e filosofia natural, datado do final do século XIV, retrata a cabeça de um homem, olhos e boca abertos, narinas alargadas, uma orelha cuidadosamente realçada. Dentro do cérebro estão cinco pequenos círculos conectados que representam, da esquerda para a direita, a sede principal do senso comum e, na seqüência, as sedes da imaginação, da fantasia, do poder cogitativo e da memória. De acordo com o comentário que acompanha a ilustração, o círculo do senso comum relaciona-se ainda com o coração, também representado no desenho. Esse esquema é um bom exemplo de como se imaginava o processo da percepção no final da Idade Média, com um pequeno adendo: embora não esteja presente nessa ilustração, supunha-se comumente (com base em Galeno) que na base do cérebro havia uma "rede maravilhosa" – rete mirabile - de pequenos vasos que agiam como canais de comunicação quando qualquer coisa que chegasse ao cérebro era refinada. Essa rete mirabile aparece no desenho de um cérebro que Leonardo da Vínci fez por volta de 1508, marcando claramente os ventrículos separados e atribuindo as várias faculdades mentais a seções diferentes. Segundo Leonardo, "o senso comune é que julga as impressões transmitidas pelos outros sentidos [...] e seu lugar é no meio da cabeça, entre a impresiva [centro das impressões] e a memoria [centro da memória]. Os objetos circundantes transmitem suas imagens para os sentidos e estes as passam para a impresiva. A impresiva comunica-os ao senso comume e dali elas são impressas na memória, onde se tornam mais ou menos fixas, de acordo com a importância e a força do Objeto em questão.” A mente humana, na época de Leonardo, era considerado um pequeno laboratório onde o material recolhido pelos olhos, ouvidos e outros órgãos da percepção tornavam-se "impressões" no cérebro, sendo então canalizadas através do centro do senso comum e depois transformadas em umas das várias faculdades - como a memória - sob a influência do coração supervisor. A visão de letras negras (para usar uma imagem alquímica) tornou-se, por meio desse processo, o ouro do conhecimento.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004