quinta-feira, 2 de abril de 2015

Espírito visual (01)



Espírito visual (01)
Empédocles, no século v a.C., descreveu os olhos como nascidos da deusa Afrodite, que "confinou um fogo nas membranas e tecidos delicados; estes seguraram a águia profunda. Que fluía em torno, mas deixaram passar as chamas internas para fora". Um século depois, Epicuro imaginou essas chamas como películas finas de átomos que fluíam da superfície de cada objeto e entravam em nossos olhos e mentes como uma chuva constante e ascendente, encharcando-nos de todas as qualidades do objeto. Euclides, contemporâneo de Epicuro, propôs uma teoria oposta: dos olhos do observador saem raios para apreender o objeto observado. Problemas aparentemente insuperáveis infestavam ambas as teorias. Por exemplo, no caso da primeira, a assim chamada teoria da "intromissão", como poderia a película de átomos emitida por um objeto grande — um elefante ou o monte Olimpo entrar num espaço tão pequeno como o olho humano? Quanto à segunda, a teoria da "extromissão", que raio poderia sair dos olhos e, numa fração de segundo, alcançar às longínquas estrelas todas as noites? Algumas décadas antes, Arístóteles sugerira outra teoria. Antecipando e corrigindo Epicuro, ele afirmara que eram as qualidades das coisas observadas — e não uma película de átomos — que viajavam através do ar (ou de algum outro meio) até os olhos do observador assim, o que se apreendia não eram as dimensões reais, mas o tamanho e a forma relativos de uma montanha. O olho humano, segundo Aristóteles, era como um camaleão, assumindo a forma e a cor do objeto observado e passando essa informação, via humores do olho.

Seis séculos mais tarde, o médico grego Galeno apresentou uma quarta solução, contradizendo Epicuro e seguindo Euclides. Galeno propôs que um "espírito visual", nascido no cérebro, cruzava o olho através do nervo ótico e saía para o ar. O próprio ar tornava-se então capaz de percepção, apreendendo as qualidades dos objetos percebidos, por mais longe que estivessem. Através do olho, essas qualidades eram retransmitidas de volta ao cérebro e desciam pela medula aos nervos dos sentidos e do movimento. Para Aristóteles, o observador era uma entidade passiva que recebia pelo ar a coisa observada, sendo esta em seguida comunicada ao coração, sede de todas as sensações, inclusive a visão. Para Galeno, o observador, tornando o ar sensível, desempenhava um papel ativo, e a raiz de onde nascia à visão estava no fundo do cérebro.

Os estudiosos medievais, para quem Galeno e Aristóteles eram as fontes do conhecimento científico, acreditavam em geral que se poderia encontrar uma relação hierárquica entre essas duas teorias. Não se tratava de uma teoria superar a outra: o importante era extrair de cada uma delas a compreensão de como as diferentes partes do corpo relacionavam-se com as percepções do mundo externo - e também com essas partes relacionavam-se umas com as outras. Gentile da Foligno, médico italiano do século XIV, sentenciou que essa compreensão era “um passo tão essencial para a medicina quanto o é o alfabeto para a leitura" e recordou que santo Agostinho, um dos primeiros Pais da Igreja, já dedicara atenção cuidadosa à questão. Para ele, cérebro e coração funcionavam como pastores daquilo que os sentidos armazenavam na nossa memória, e ele usou o verbo colligere (significando ao mesmo tempo coletar e resumir) para descrever como essas impressões eram recolhidas de compartimentos separados da memória e "guiadas para fora de suas velhas tocas, porque não há nenhum outro lugar para onde possam ir".

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004