quinta-feira, 2 de abril de 2015

Capturamos as letras? Ou as letras vêm a nós? - 03



Capturamos as letras? Ou as letras vêm a nós? (03)
De acordo com o professor André Roch Lecours, do hospital Côte-des-Neiges, em Montreal, a exposição somente à linguagem oral pode não ser suficiente para que algum dos hemisférios desenvolva plenamente as funções da linguagem; para que nosso cérebro permita esse desenvolvimento, talvez devamos ser ensinados a reconhecer um sistema compartilhado de signos visuais. E em outras palavras, precisamos aprender a ler.

Na década de 1980, quando trabalhava no Brasil, o professor Lecours chegou à conclusão de que o programa genético que levava à predominância mais comum do hemisfério cerebral esquerdo era desenvolvido nos cérebros daqueles que não tinham aprendido a ler do que nos alfabetizados. Isso sugeriu a ele que o processo da leitura poderia ser explorado através de casos de pacientes nos quais a faculdade de ler havia sido comprometida. (Há séculos, Galeno dizia que uma doença não indica apenas a falha do corpo em seu desempenho, mas também lança luz sobre o próprio desempenho ausente.) Alguns anos depois, em Montreal, estudando pacientes que sofriam de impedimentos de fala ou leitura, o professor Lecours conseguiu fazer uma série de observações relacionadas com o mecanismo da leitura. Em casos de afasia, por exemplo, nos quais os pacientes tinham perdido parcial ou completamente a capacidade de compreender a palavra falada, ele descobriu que determinadas lesões específicas no cérebro causavam determinados defeitos de fala que eram curiosamente específicos.

Alguns pacientes tornavam-se incapazes de ler ou escrever somente palavras de grafia irregular; outros não conseguiam ler palavras inventadas; outros ainda podiam ver, mas não pronunciar, certas palavras agrupadas de forma estranha ou palavras dispostas de maneira desigual na página. Às vezes esses pacientes podiam ler palavras inteiras, mas não sílabas; em certos casos, liam substituindo determinadas palavras por outras. Lemuel Gulliver, descrevendo os Struldbrugg de Laputa, observava que, aos noventa anos, esses ilustres anciãos não podem mais se divertir com a leitura, porque sua Memória não consegue levá-los do Começo ao Fim de uma Frase; e, devido a esse defeito, estão privados do único entretenimento de que poderiam gozar. Vários pacientes do professor Lecours sofriam exatamente desse problema. Para complicar as coisas, em estudos semelhantes na China e no japão, os pesquisadores observaram que pacientes acostumados a ler ideogramas em vez de alfabetos fonéticos reagiam de forma diferente às investigações, como se essas funções de linguagem específicas fossem predominantes em áreas diferentes do cérebro.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004