quinta-feira, 2 de abril de 2015

Capturamos as letras? Ou as letras vêm a nós? - 04



Capturamos as letras? Ou as letras vêm a nós? (04)
Concordando com Alhazen, o professor Lecours concluiu que o processo de ler compreendia pelo menos dois estágios: ver a palavra e levá-la em consideração de acordo com informações conhecidas. Tal como o escriba sumério de milhares de anos atrás, eu encaro as palavras. Eu olho as palavras, vejo as palavras, e o que vejo organiza-se de acordo com um código ou sistema que aprendi e que compartilho com outros leitores do meu tempo e lugar - um código que se estabelecem em seções específicas do meu cérebro. Afirma o professor Lecours: "É como se as informações que os olhos recebem da página viajassem pelo cérebro através de uma série de conglomerados de neurônios especializados, cada conglomerado ocupando certa seção do cérebro e desempenhando uma função específica. Ainda não sabemos o que é exatamente cada uma dessas funções, mas, em certos casos de lesões cerebrais, um ou vários desses conglomerados ficam, digamos, desconectados da cadeia, de tal modo que o paciente se torna incapaz de ler certas palavras, ou determinado tipo de linguagem, ou de ler em voz alta, ou substitui um conjunto de palavras por outro. As desconexões possíveis parecem infinitas".

Tampouco o ato primário de perscrutar a página com os olhos é um processo contínuo e sistemático. A suposição usual é que durante a leitura nossos olhos viajam suavemente, sem interrupções, ao longo das linhas da página, e que ao ler escritas ocidentais, por exemplo, nossos olhos vão da esquerda para a direita. Não é assim. Há um século, o oftalmologista francês Émile Javal descobriu que nossos olhos na verdade saltam pela página; esses saltos ou sofreamentos acontecem três ou quatro vezes por segundo, numa velocidade de cerca de duzentos graus por segundo. A velocidade do movimento do olho pela página - mas não o movimento em si - interfere na percepção, e é somente durante a breve pausa entre movimentos que nós realmente lemos. Por que nossa sensação de leitura está relacionada com a continuidade do texto sobre a página ou com o desenrolar do texto na tela, assimilando frases ou pensamentos inteiros, e não com o movimento real dos olhos, eis uma questão para a qual os cientistas ainda não têm resposta.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004