quinta-feira, 2 de abril de 2015

Capturamos as letras? Ou as letras vêm a nós? - 01



Capturamos as letras? Ou as letras vêm a nós? (01)
Somos nós que nos estendemos e capturamos as letras numa página, de acordo com as teorias de Euclides e Galeno? Ou são as letras que vêm aos nossos sentidos, como Epicuro e Aristóteles afirmaram? Para Leonardo e seus contemporâneos, a resposta (ou indícios de resposta) poderia ser encontrada numa tradução do século XIII de um livro escrito duzentos anos antes (tão demoradas são às vezes as hesitações da erudição), no Egito, pelo estudioso de Basra al-Hasan ibn al-Haytham, conhecido no Ocidente como Alhazen.

De acordo com Alhazen, todas as percepções do mundo externo envolvem certa influência deliberada que deriva da nossa faculdade de julgar. Para desenvolver essa teoria, Alhazen seguiu o argumento básico da teoria da intromissão de Aristóteles - segundo a qual as qualidades do que vemos entram no olho por meio do ar – e fundamentou sua escolha com explicações físicas, matemáticas e fisiológicas precisas. Mas, de forma mais radical, Alhazen fez uma distinção entre "sensação pura" e "percepção”, sendo a primeira inconsciente ou involuntária - ver a luz fora da minha janela e as formas cambiantes da tarde – e exigindo a segunda um ato voluntário de reconhecimento ao seguir um texto numa página. A importância do argumento de Alhazen estava em identificar pela primeira vez, no ato de perceber, uma gradação da ação consciente que vai do ver ao decifrar ou ler.

Alhazen morreu no Cairo, em 1038. Dois séculos mais tarde, o erudito inglês Roger Bacon - tentando justificar o estudo da ótica ao Papa Clemente IV numa época em que certas facções da Igreja Católica sustentavam violentamente que a pesquisa científica era contrária ao dogma cristão – ofereceu um resumo revisado da teoria Alhazen. Segundo Alhazen (e, ao mesmo tempo, minimizando a importância da sabedoria islâmica), Bacon explicou a Sua Santidade a mecânica da teoria da intromissão. Segundo Bacon, quando olhamos para um objeto (uma árvore ou as letras SOL), forma-se uma pirâmide visual que tem sua base no objeto e seu ápice no centro da curvatura da córnea. Nós "vemos" quando a pirâmide entra em nosso olho e seus raios são dispostos sobre a superfície do nosso globo ocular, refratados de tal forma que não se cruzam. Ver, para Bacon, era o processo ativo pelo qual uma imagem do objeto entrava no olho e era então apreendida pelos "poderes visuais" dele.

Mas como essa percepção se torna leitura? Como o ato de apreender letras relaciona-se com um processo que envolve não somente visão e percepção, mas inferência, julgamento, memória, reconhecimento, conhecimento, experiência, prática? Alhazen sabia (e Bacon certamente concordava) que todos esses elementos necessários para realizar o ato de ler conferiam-lhe uma complexidade impressionante, cujo desempenho satisfatório exigia a coordenação de centenas de habilidades diferentes. E não apenas essas habilidades, mas o momento, o lugar e a plaquinha, o rolo, a página ou a tela sobre a qual o ato é realizado afetam a leitura...

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004