quinta-feira, 2 de abril de 2015

Atribuir objetivos aos livros



Atribuir objetivos aos livros
Dos textos hebraicos preservados, o mais antigo em que se encontra um pensamento sistemático e especulativo - o Sefer Yezirah, escrito em algum momento do século III - afirma que Deus criou o mundo mediante 32 caminhos secretos de sabedoria, dez Sefirot ou números e 22 letras. Do Sefirot criaram-se todas as coisas abstratas; das 22 letras foram criados todos os seres reais e as três camadas do cosmo - o mundo, o tempo e o corpo humano. O universo, na tradição judaico-cristã, é concebido como um Livro feito de números e letras. A chave para compreender o universo está em nossa capacidade de lê-los adequadamente e dominar suas combinações e, assim, aprender a dar vida a alguma parte daquele texto colossal, numa imitação de nosso Criador. (Segundo uma lenda medieval, Hanani e Hoshaiah, profundos conhecedores do Talmude, estudavam uma vez por semana o Sefer Yezirah e, mediante a combinação correta de letras, criavam um bezerro de três anos que então comiam no jantar.) Espinosa, em seu Tractatus theologico-politicus, de 1650 (denunciado pela Igreja Católica Romana como obra "forjada no inferno por um judeu renegado e pelo diabo"), já observara: "Acontece com freqüência que em livros diferentes lemos histórias em si mesmas semelhantes, mas que julgamos de forma muito diferente, segundo as opiniões que formamos sobre os autores”. Lembro de ter lido certa vez em algum livro que um homem chamado Orlando Furioso costumava montar uma espécie de monstro alado pelos ares, voar sobre qualquer terra que quisesse e matar sem ajuda um vasto número de homens e gigantes e outras fantasias desse tipo, as quais, do ponto de vista da razão, são obviamente absurdas. Li uma história muito parecida em Ovídio, sobre Perseu, e também no livro dos Juízes e Reis, sobre Sansão, que sozinho e desarmado matou milhares de homens, e sobre Elias, que voou pelo ar e foi finalmente ao céu, num carro de fogo com cavalos ígneos. Todas essas histórias são obviamente parecidas, mas julgamo-las de modo muito diferente. A primeira buscava divertir, a segunda tinha um objetivo político, a terceira, um motivo religioso". Eu também, durante muito tempo, atribuí objetivos aos livros que lia, esperando, por exemplo, que o Pilgrim's progress de Bunyan me faria uma pregação porque haviam me dito que era uma alegoria religiosa - como se eu fosse capaz de ouvir o que estava acontecendo na mente do autor no momento da criação e de obter provas de que o autor estava, com efeito, falando a verdade. A experiência e uma dose de senso comum ainda não me curaram completamente desse vício supersticioso.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004