quinta-feira, 2 de abril de 2015

Aprender é um rito de passagem-02



Aprender a ler é um rito de passagem - 02
Por volta de 1316, em uma carta famosa ao vigário imperial Can Grande della Scala, Dante sustentou que um texto tem pelo menos duas leituras, "pois obtemos um sentido da letra dele e outro daquilo que a letra significa; a primeira é chamada de literal, a outra de alegórica ou mística". Dante prossegue sugerindo que o sentido alegórico compreende três outras leituras. Apresentando como exemplo o Verso bíblico "Quando Israel saiu do Egito e a casa de Jacó se apartou de um povo bárbaro, Judá tornou-se o santuário do Senhor e Israel o seu reino", Dante explica: “Se olharmos apenas a letra, o que é posto diante de nós é o êxodo dos filhos de Israel no tempo de Moisés; se a alegoria, nossa redenção forjada por Cristo; se o sentido analógico vê a conversão da alma do sofrimento e da desgraça do pecado para o estado de graça; se o anagógico mostra-nos a partida da alma santa da servidão dessa corrupção para a liberdade da glória eterna. E embora esses significados místicos recebam vários nomes, todos podem ser chamados de alegóricos, uma vez que diferem do literal e do histórico". São todas leituras possíveis. Alguns leitores podem achar uma ou várias delas falsas; talvez desconfiem de uma leitura "histórica", se não conhecerem o contexto do trecho; podem fazer objeções à leitura "alegórica", considerando a referência a Cristo anacrônica; talvez julguem as leituras "analógica" (por meio de analogias) e "anagógica" (mediante interpretações bíblicas) fantasiosas ou forçadas demais. Mesmo a leitura "literal" pode ser suspeita. O que significa exatamente "saiu"? Ou "casa"? Ou "reino"? Parece que mesmo para ler no nível mais superficial o leitor precisa de informações sobre a criação do texto, o pano de fundo histórico, o vocabulário especializado e até sobre a mais misteriosa das coisas, o que santo Tomás de Aquino chamava de quem auctor intendit, a intenção do autor. Contudo, desde que leitor e texto compartilhem uma linguagem comum, qualquer leitor pode descobrir algum sentido em qualquer texto: narrativa hermética, manuais de computador e até na linguagem bombástica da política. "Lemos para fazer perguntas", disse Kafka certa vez a um amigo.

UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004