Ler
é estabelecer relações, no plural. Relações entre o que se conhece e o que se
apresenta como novo. Basicamente ler é uma capacidade adquirida e aperfeiçoada
pela experiência, quer se fale canonicamente em leitura ou mesmo quando se fala,
metaforicamente, de leitura de mundo. Ao falar em estabelecimento de relações,
é necessário que se tenha um sujeito que execute esse processo. Esse sujeito é
o leitor.
Mas
como se estabelece a diferença entre o leitor e o interlocutor, uma vez que ambos
são os receptores de uma comunicação, e os responsáveis parciais pelo sentido
que aí se constrói? A primeira e maior diferença entre os dois é que, enquanto
o interlocutor está presente no momento da comunicação, o leitor a recebe
posteriormente ao momento da produção, fato que torna essa comunicação
possuidora de algumas particularidades. Na comunicação imediata, entre
interlocutores, há outros fatores que podem ser levados em conta, como gestos,
expressões faciais, tom de voz. Na comunicação por meio de um texto escrito,
diminuem-se consideravelmente esses outros fatores que influenciam na apreensão
da significação de um ato de comunicação e, portanto, são necessários cuidados
adicionais para que a mensagem original preserve da melhor maneira possível o
significado atribuído a ela por seu produtor. Acreditamos ser esse um dos
fatores mais intrigantes da leitura: a ausência do destinatário no momento da
produção do texto e a ausência do destinador no momento da recepção do texto.
Outras
questões pertinentes sobre leitura são: de onde vem, o sentido daquilo que se
lê? Quem é responsável pela construção do sentido na obra: o autor, o leitor ou
o texto Um pouco em cada um, e nunca
completamente em nenhum. A obra, o texto, guia o leitor para que ele encontre seu
significado. O leitor, guiado pela obra e pelo autor, adiciona ou subtrai da
obra significados de acordo com sua própria experiência. O autor, como
construtor do texto, é responsável por parte do seu significado, mas não
consegue controlar toda significação produzida ali.
Eco
(1993) nos fala de livros seus cujos leitores encontraram referências sobre as
quais ele não tinha pensado, mas que ele não podia negar que estavam ali
construídas como significados em sua obra.
Eco
menciona também que, como autor, “escondeu” no texto certos significados que só
poderiam ser descobertos por um leitor mais arguto, justificando que o texto
também poderia ter sido compreendido por alguém que não conhecesse aquelas
referências, mas que se tornaria mais saboroso àqueles que as reconhecessem.
