sábado, 21 de março de 2015

Sobre Leitura - 04


     Toda vez que você começa a ler uma história, seu cérebro está à procura de razões para continuar investindo seu tempo nesse texto, ao invés de fazer alguma coisa mais divertida. Nesse processo, a história é avaliada por quatro grupos diferentes: seus instintos, suas emoções, seus pensamentos e suas intuições. Cada um deles funciona como um cérebro semi-independente, com preocupações e vontades próprias. Lógico que essa subdivisão é apenas teórica, mas ajuda a entender o processo da leitura em nosso cérebro.

Cérebro Instintivo
Quer me matar? Vai me dar prazer? É de comer? 
Seu principal objetivo é proteção da nossa integridade física. Ele está sempre atento aos estímulos do ambiente em que nos encontramos, determinando potenciais ameaças, fontes de prazer, e fontes de nutrição. O cérebro instintivo é responsável por eliminar informações desnecessárias, e focar apenas no que pode colocar nossa vida em risco, trazer prazer imediato, ou servir de alimento. Qualquer história que parecer inofensiva, desinteressante, ou inútil será descartada pelo cérebro instintivo. As histórias que estimulam o cérebro instintivo criam conflitos que coloquem em risco algo importante na vida do protagonista. Usando figuras de linguagem para dar mais sabor ao texto. Despertando perguntas intrigantes na mente do leitor sobre um tema específico.

Cérebro Emocional
Tem alguma relação com a minha vida?
Quando uma mensagem é percebida como importante, interessante ou excitante, ela é transferida do cérebro instintivo para o emocional. Seu principal objetivo é encontrar benefícios emocionais e sociais nos estímulos recebidos, tais como sensações de conforto, segurança, pertencimento, status, estima. Qualquer história que não mexer com alguma dessas sensações será descartada pelo cérebro emocional. As histórias que estimulam o cérebro emocional criam conflitos que permitam as pessoas refletirem sobre suas relações pessoais e sociais. Incluindo cenas que mostram o que está acontecendo, ao invés de apenas contar o que está acontecendo. Fazendo com que o protagonista aprenda algo sobre si, sobre as pessoas, e sobre o mundo ao final da história.

Cérebro Racional
Qual é o sentido disso tudo?
Depois de ultrapassar os filtros dos dois cérebros anteriores, o estímulo chega na parte da mente que pensa de forma lógica e complexa. Em muitos casos, decisões são tomadas pelos dois cérebros anteriores, e racionalizadas por este cérebro para justificá-las. Seu principal objetivo é reavaliar de forma sistemática a validade das informações que chegaram até ele. Qualquer história que não seja clara e coerente será descartada pelo cérebro racional. As histórias que estimulam o cérebro racional criam conflitos que estabeleçam uma sequência lógica de acontecimentos, onde cada ação/decisão do protagonista resulte em uma consequência. Usando linguagem clara e adequada à história que está sendo contada. Desenvolvendo um protagonista verossímil, contextualizando suas emoções e comportamentos.

Cérebro Intuitivo
Alguma coisa me diz que isso está certo.
Quando uma mensagem traz uma recompensa emocional, mas não conseguimos explicá-la usando somente lógica, o cérebro intuitivo entra em ação. Seu objetivo é acomodar o inexplicável, é tranquilizar os cérebros anteriores com a ideia de que nem todas as emoções e sensações podem ser explicadas racionalmente. Os estímulos que chegam até o cérebro intuitivo mexem com nossos valores morais e nossa espiritualidade. As histórias que estimulam o cérebro intuitivo criam conflitos e personagens baseados em arquétipos. Incluindo passagens que permitam ao leitor reflitir sobre sua mortalidade e humanidade. Apresentando uma verdade humana que ofereça um sentido para tudo o que o protagonista viveu durante a história.