sábado, 21 de março de 2015

Sobre Leitura - 01




    A leitura em voz alta, primeiro veio na Igreja, depois na escola. Na primeira para convencer, na segunda... para convencer também. Na escola lia-se em voz alta, tanto para convencer de que se devia ler, quanto para se ensinar o que se ler. Escolhendo o que deveria ser lido e como deveria ser lido, a escola pretendia desenvolver o gosto pela leitura. Mais que isso, a escola, e todos os que a circundavam, os inspetores e as legislações, estabeleciam critérios. O primeiro deles era o de que toda leitura deveria dar lugar a trabalho e ser, ela mesma, parte de um trabalho. Nada de se confundir leitura com ociosidade. O segundo, que dizia respeito às qualidades do que se lia, era o de que um texto seria bom se ele pudesse ser partilhado, se ele pudesse ser mostrado, lido em público. Uma leitura era, assim, uma má leitura se praticava escondido e dela se envergonharia em público, mas também era uma má leitura aquela sem controle, que poderia criar enganos no seu trabalho de interpretação, pois se feita fora das redes de sociabilidades, que sempre prevêem e fixam certo sentido e um sentido certo.

     A leitura em voz alta e pública fosse feita na escola, na igreja, na família ou mesmo em reuniões explicitamente realizadas para esse fim, criava uma pedagogia da compreensão que pretendia, assim, garantir a justa recepção. Pode-se dizer que a leitura pública não fazia parte de uma teatralização, mas de uma transmissão controlada de sentidos. A entonação do leitor, suas acentuações, seus silêncios, sua emoção, falavam pelo texto.

     Da leitura, tal como a praticamos hoje, no tempinho em que o sinal está vermelho, no ônibus, no trem, dois minutos na cama antes de desfalecer de cansaço, como companhia durante o almoço ou o café da manhã, poderia se dizer que é questão de intimidade com a leitura, com o livro, com o autor de sua preferência. 

    A partir do século 14 todo o aparato da leitura que na Antigüidade era predominantemente um ato sonoro e coletivo (voz alta), transforma-se em um ato solitário. O leitor silencioso, em geral, confunde-se com o leitor extensivo, qual seja, aquele que tem à sua disposição um número muito grande de títulos para se apropriar, comparar e fundar a partir de seus comentários e novos textos. É o oposto do leitor intensivo, predominante em toda a Idade Média, ou seja, um leitor que dispõe apenas de um pequeno número de livros, e que fazia da leitura destes textos um ato sagrado.

    O advento da imprensa de tipos móveis, criou condições para que o leitor silencioso proliferasse por toda a Europa, uma verdadeira cultura letrada desenvolveu-se à medida que os originais se multiplicavam e que a oferta de títulos aumentava vertiginosamente. Enquanto a leitura em voz alta permanecia forte nos meios populares, dedicando-se a um pequeno número de obras, em geral romances, contos populares e poemas, a leitura com os olhos se dedicava à mais ampla gama de assuntos, em especial os científicos e filosóficos, era portanto, praticada por um seleto grupo de leitores.

    No século vinte um, proliferaram dezenas de novos modelos de suporte para leitura. Desta vez tinha-se a impressão de que voltaríamos ao passado. Sim, porque o texto estava mais uma vez rolando em algo, desta vez, não através do Vólumen mas pelo Écran (tela do computador) e com a ajuda da barra de rolagem. O texto eletrônico permite, de alguma forma, que possamos ler num suporte muito próximo ao modelo do caderno, em termos de tamanho e peso, porém como se fosse em rolos. O Vólumen levava os pensamentos ali escritos em uma unidade. O caderno, tão moderno e tão sofisticado em si, leva folhas presas, grampeadas ou costuradas. Da evolução do Vólumen ao Écran, passamos pelo Códex e chegamos aos eBooks.